movimento indígena

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Andinos na lagoa Cortada, em Cajamarca, protestam em novembro contra a exploração de ouro em Conga; extração foi suspensa no início do mês
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Folha de São Paulo, terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Índio resiste a obras na América do Sul
Peru vira epicentro de movimento ambientalista cujo objetivo é barrar exploração de minérios, gás e petróleo
Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais relata 122 focos de protesto só no setor de mineração

CLAUDIA ANTUNES
DO RIO
FLÁVIA MARREIRO
DE SÃO PAULO

Anunciado em novembro, um memorando entre a Petroperu e a Braskem para a implantação de um complexo petroquímico em Las Malvinas, sul do Peru, deverá colocar empresas brasileiras à frente do maior empreendimento no país andino.

O polo será abastecido por um gasoduto construído pela Odebrecht, sócia da Braskem. A Petrobras, a outra sócia, explora parte do gás que abastecerá a indústria.

Se não houver imprevisto, as três empresas investirão no polo cerca de US$ 9 bilhões, calcula Jorge Barata, diretor em Lima da Odebrecht e do Grupo Brasil, que reúne 42 empresas.

O valor é quase o dobro dos US$ 4,8 bilhões que as mineradoras Newmont (americana) e Buenaventura (peruana) preveem aplicar no que é hoje o maior projeto no Peru, o Conga, em Cajamarca.

Problema: a extração de ouro em Conga foi suspensa no início do mês, depois de uma greve geral que denunciava a poluição de fontes de água e levou o presidente Ollanta Humala a decretar emergência na região.

Enquanto Humala entra em conflito com a base que o elegeu, o Peru vira o epicentro de um movimento indígena, social e ambientalista cujo alvo são obras de infraestrutura e exploração de minérios, gás e petróleo, setores que alavancaram a América do Sul nos últimos anos.

O Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais acompanha os confrontos, auxiliando as comunidades afetadas. Segundo a entidade, há 122 focos de protesto na América do Sul só na área de mineração -em especial no Peru (26), Chile (25), Argentina (24) e Brasil (21).

RESISTÊNCIA

“A região está em ebulição, em resistência”, diz Andressa Caldas, da ONG brasileira Justiça Global, que integra a campanha contra Belo Monte e a Plataforma BNDES, criada para monitorar o banco.

Ainda em desenvolvimento, o projeto Las Malvinas não foi contestado por ativistas. Mas Gregor MacLennan, da americana Amazon Watch, se diz atento, lembrando a mobilização contra o início da produção de gás em Camisea.

A Amazon Watch divulgou o processo no qual a Chevron foi condenada em fevereiro, no Equador, a pagar indenização de US$ 18 bilhões, por poluir a floresta -a empresa está recorrendo). Em novembro, a ONG levou líderes peruanos da etnia shuar ao Canadá, para testemunhar contra a mineradora Talisman.

No Peru, as operações suspensas por protestos neste ano incluem mais duas minas (canadense e americana) e quatro de cinco hidrelétricas previstas em acordo com o governo Lula. No resto da vizinhança, três projetos de empresas brasileiras já sofreram paralisação temporária.

Mesmo no Chile, que a brasileira EBX diz preferir, junto à Colômbia, por oferecerem maior “segurança jurídica”, há um clamor nacional contra hidrelétricas da espanhola Endesa na Patagônia.

As reivindicações começam pela consulta prévia a indígenas afetados, prevista em convenção da Organização Internacional do Trabalho, mas não param aí. Outro tema é a exigência de contratação de mão de obra local.

Na Argentina, a Vale, alvo de uma frente global de “atingidos” por suas atividades, fez acordo para contratar 75% dos funcionários na província onde explora potássio.

As empresas argumentam que dão contrapartidas sociais e respeitam as leis nacionais. O embaixador brasileiro no Peru, Carlos Alfredo Teixeira, afirma que a cadeia do plástico deverá gerar 60 mil empregos no sul. “Posso garantir que tudo está sendo feito com o máximo de cuidado social e ambiental.”

Parte dos ativistas, porém, vê nos programas de “responsabilidade social” tentativas de “comprar” comunidades.

O movimento não é homogêneo. Uma parte propõe mudança radical no modelo de exportação de commodities; outra apoia a redução de danos pela “economia verde”, que busca no mercado solução para o nó ambiental.

A Conservação Internacional assessora o governo do Equador no programa Sócio Bosque, que remunera comunidades que preservam a floresta. “Fazemos tudo com base em ciência. Procuramos replicar bons exemplos”, diz Fabio Scarano, diretor executivo da ONG no Brasil.

Governantes de esquerda do Equador e da Bolívia acusam o movimento de ser manipulado por interesses contrários ao desenvolvimento. Andressa Caldas refuta a tese. “O revival do discurso nacionalista-ufanista de segurança nacional, de proteção da Amazônia, me parece paupérrimo”, afirma.

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Divergência sobre convenção da OIT alimenta conflitos

DO RIO
DE SÃO PAULO
Sob a observação de investidores, o governo Ollanta Humala definirá nas próximas semanas como interpretará a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que estabelece o direito das comunidades indígenas à consulta prévia sobre projetos que as afetarão.

O princípio é aceito pelos países da região, mas a forma como a consulta deve ser feita agita o debate da Amazônia à Patagônia. Para os governos, os indígenas não têm a última palavra. Ou seja: uma etnia não pode impedir a exploração de uma jazida de ouro sob seu território se isso representar ganho irrefutável para todo o país.

O Brasil considera que essa também é a interpretação da própria OIT, desde que a consulta seja “de boa-fé”.

Cinco organizações indígenas peruanas formaram um pacto de unidade para pressionar o governo. Elas defendem que em ao menos oito casos específicos, incluindo traslado de população ou depósito de produtos tóxicos na zona, as comunidades têm de dar seu “consentimento”.

O “consentimento” não está na convenção da OIT, mas na Declaração da ONU sobre os Povos Indígenas, de 2007. Todos os países sul-americanos aprovaram a declaração, mas consideram que ela não tem força jurídica.

“Não estamos pedindo poder de veto indeterminado. Falamos de situações específicas, que põem em risco a continuidade da comunidade. Está na hora de fazer um grande movimento regional, criar um consenso como o que existe contra a pena de morte”, explica Raquel Yrigoyen, que assessorou o pacto de unidade.

(CA e FM)

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No Brasil, dispersão enfraquece movimento indígena
DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

Enquanto em países vizinhos as populações indígenas representam uma fatia considerável da pizza demográfica, no Brasil elas são uma porcentagem vencida.

Cerca de 0,2% dos brasileiros são ameríndios. No Peru, são 25% ou 5 milhões de habitantes, a maior população indígena em termos absolutos da América do Sul. Na Bolívia, 62,2% se autodeclaram indígenas. No Equador, o percentual estimado é de 30%.

O pequeno percentual relativo e a distribuição geográfica são apontados como fatores para o enfraquecimento do movimento indígena nacional.

Há, também, a variedade cultural. São 215 etnias no Brasil, falando 180 línguas, segundo o IBGE.

Esses percalços explicam, para especialistas ouvidos pela Folha, as dificuldades encontradas na articulação desses grupos, no país, em contraste com a força exibida pelas organizações indígenas dos vizinhos, em especial os andinos.

Mesmo comparando os brasileiros com os vizinhos em condições semelhantes –a miríade de etnias na Amazônia peruana e boliviana, e não os majoritários ou quase quéchuas e aimarás–, o movimento nacional sai perdendo.

E a principal razão é a consolidação de redes nacionais na Bolívia e no Equador e agora, como tentativa, no Peru, com o Pacto Nacional, que reúne cinco organizações.

No caso boliviano, está a Cidob (Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia), que reúne os grupos minoritários das “terras baixas”, incluindo Amazônia e planícies. Há mais de duas décadas, a Cidob se articulou com os indígenas das “terras altas”, no chamado “pacto de unidade”, para exigir uma plataforma comum: uma nova Constituição, que seria aprovada em 2009, sob Evo Morales.

Os povos reunidos na Cidob não têm o peso eleitoral dos aimarás e quéchuas –a maioria dos bolivanos–, mas, ainda assim, com o peso adquirido na luta pela Constituinte, capitanearam campanha que obrigou Morales a modificar o trajeto de uma estrada que cortaria uma reserva, a Tipnis. A rodovia está sendo construída pela brasileira OAS e já tinha garantido
financiamento do BNDES de US$ 332 milhões, agora suspenso.

TENTATIVAS BRASILEIRAS

Egon Heck, do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul, conta que, desde a década de 70, as organizações brasileiras tentam agrupar lideranças regionais em um movimento nacional.

A UNI (União das Nações Indígenas), criada em 1980, não resistiu à década seguinte. “A entidade foi se esvaziando por não conseguir consolidar suas bases nas diferentes regiões”, diz.
“As distâncias são enormes”, afirma, “e isso implica em custos para manter a unidade entre diferentes povos”.

Os anos seguintes viram a ascensão e queda de outras entidades nacionais. A última tentativa unificadora é a a Apib (Articulação dos Povos Indígenas no Brasil), de 2005.

Heck vê essa entidade com otimismo, apontando maior integração com os movimentos regionais. O órgão é formado de modo a tentar pôr de lado as divergências entre as tribos, encontrando causas comuns. A diretoria é formada pelos líderes das agrupações regionais.

“Tentamos construir uma coisa que é impossível: a unidade do movimento indígena”, avalia Uilton Tuxá, dirigente da Apib e coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo.

Respeitados os limites para essa união, porém, Tuxá comemora seus avanços. “Hoje, fazemos lobby no Congresso. Nossa ausência em Brasília, no passado, favoreceu um cenário equivocado contrário ao índio.”

BUROCRACIA

A pesquisadora Poliene Bicalho mapeou, em tese de doutorado na UNB, cerca de 400 organizações indígenas no Brasil.

A exemplo de Tuxá, ela aponta a impossibilidade da unificação do movimento.

“Há diferentes maneiras de esses povos perceberem os aspectos que os atingem”, afirma. “Eles nem sempre falam as mesma línguas ou têm os mesmos interesses.”

Além disso, há um descompasso cultural entre os modelos de burocracia do “homem branco” e aqueles dos índios, afirma Poliene, resultando em dificuldade para a constituição de entidades formais. “A ideia que temos de organização hierárquica é diferente da deles.”

Colaborou FLÁVIA MARREIRO, de São Paulo

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Estoque investido pelo Brasil no Peru cresceu 286% em quatro anos
CLAUDIA ANTUNES
DO RIO
FLÁVIA MARREIRO
DE SÃO PAULO

O Peru, centro sul-americano dos conflitos entre empresas, indígenas e ambientalistas, caminha para ultrapassar o Uruguai e se tornar o segundo maior destino de investimentos brasileiros na região, só superado pela tradicional Argentina.

Segundo os dados do Banco Central sobre estoques de investimento direto do Brasil no exterior, o volume aplicado no Peru cresceu 286% nos quatro anos entre 2007 e 2010, coincidindo com a parceria estratégica firmada pelos governos Lula (2003-2011) e Alan García (2006-2011).

O crescimento só foi superado pela Colômbia como destino (390%), mas o total investido, segundo os registros do BC, é quase três vezes maior no Peru –US$ 2,254 bilhões, contra US$ 872 milhões.

Os números do BC apontam uma tendência, mas são subestimados, uma vez que dependem de informação voluntária das empresas e não incluem aplicações realizadas por subsidiárias das múltis brasileiras –que costumam abrir companhias com personalidade jurídica própria para tocar negócios no exterior.

Mas a tendência é confirmada por um banco de dados sobre investimentos brasileiros na América do Sul e México feito pelo Cindes (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento), do Rio.

O banco de dados, que registra operações anunciadas pelas empresas, mostra que em 2010 o Peru ficou no mesmo nível da Argentina (23% para cada um) em número de novos projetos brasileiros na região.

Somados, todos os empreendimentos anunciados e iniciados entre 2007 e outubro deste ano, segundo o banco, chegam a US$ 16 bilhões –dos quais pouco mais de US$ 5 bilhões na Argentina, US$ 3,3 bilhões no Peru e US$ 5,5 bilhões no Chile. Deste último, a maior parte corresponde a um projeto de usina termelétrica da MPX (subsidiária da EBX, de Eike Batista).

Sandra Rios, do Cindes, aponta que, enquanto as operações na Argentina e no Uruguai são diversificados, incluindo a indústria manufatureira, no resto da América do Sul os empreendimentos brasileiros estão concentrados em infraestrutura e recursos naturais, justamente os que mais sofrem oposição de comunidades locais.

O governo estimula a expansão das empresas, mas também cresce a preocupação em “desmontar a ideia” de que exista um “subimperialismo brasileiro” na região. “Nossas empresas não podem reproduzir um padrão de comportamento que não deixa nada para a área. Tem que ter efeito social, transferir tecnologia e acatar a legislação local”, diz a assessoria internacional do Planalto.

EMPRESAS

As próprias empresas reconhecem que nem sempre o trabalho com as comunidades locais é bem feito. “Erramos no Chile e tivemos que corrigir”, diz Roberto Gonzales, da MPX, sobre a contestação de uma comunidade do deserto de Atacama, no Chile, à construção da termelétrica.

Os moradores foram à Justiça e conseguiram sustar o empreendimento por três meses, entre o final de 2010 e o início do ano passado. Segundo Gonzales, por erro do governo, a emissão de poluentes prevista para a usina havia aparecido no relatório de impacto ambiental com um volume maior do que o real.

Quando o empreendimento não enfrenta resistência por razão ambiental ou por afetar área indígena, as exigências mais comuns das comunidades se referem a contrapartidas sociais. Foi o que aconteceu com a Vale em duas operações, de potássio na Argentina e de fosfato no Peru.

No caso peruano, em Bayóvar, no deserto de Sechura (norte), houve movimento pela contratação de mão de obra local. A companhia diz que está oferecendo cursos de capacitação para aumentar o percentual de funcionários da própria região, hoje 23% do total de 773. Afirma também que investiu US$ 4 milhões em programas sociais e que pagou ao governo, no contrato para a exploração da mina, US$ 2 milhões destinados a fundações de Sechura. O valor total investido no projeto é de US$ 566 milhões.

Na província argentina de Mendoza, o desenvolvimento da produção de potássio na bacia do rio Colorado chegou a ser sustado por pouco menos de duas semanas, neste ano, pelo governo regional, que exigia maior conteúdo local no projeto.

Segundo a Vale, foi assinado um acordo que garante a contratação de 75% da mão de obra na própria província, além da compra de insumos de fornecedores locais. A companhia diz que investiu mais de US$ 500 milhões no cumprimento do acordo, quase 10% do valor total aplicado no empreendimento, que chega a US$ 5,9 bilhões.

USINAS

A Odebrecht, que tem longa experiência no Peru (atua no país há 32 anos), diz que tem se associado a ONGs para trabalhar com comunidades atingidas por suas obras, como a rodovia Interoceânica Sul, inaugurada neste ano e que liga o Acre ao litoral peruano, no Pacífico. Afirma também que não teve problemas no projeto da hidrelétrica Chagalla, na região central do Peru, no qual investe US$ 1 bilhão.

A companhia desistiu de construir a hidrelétrica Tambo 4 –uma das cinco previstas em acordo firmado no ano passado entre os governos brasileiro e peruano– ainda na fase de estudos preliminares, quando constatou a resistência da população atingida.

Depois, segundo o embaixador brasileiro em Lima, Carlos Alfredo Teixeira, o próprio governo peruano sustou a luz verde para quatro usinas. Um consórcio formado por Eletrobrás, Furnas e OAS espera autorização para iniciar a que sobrou, Inambari.

O processo de Ibambari foi atrasado pela troca de ministro de Minas e Energia feita pelo presidente Ollanta Humala, na reforma ministerial provocada pelos protestos em Cajamarca (norte) contra a mina de ouro Conga, empreendimento americano-peruano. A expectativa, diz o embaixador, é que seja concluído no início de 2012.

Hobsbawm


Hobsbawm investiga o marxismo e encara crise
Historiador esbanja erudição e clareza nas páginas de “Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo, 1840-2011″
ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO
“A grande crise econômica que começou em 2008, como uma espécie de equivalente de direita à queda do Muro de Berlim, trouxe uma compreensão imediata de que o Estado era essencial para uma economia em dificuldades, do mesmo modo como fora essencial para o triunfo do neoliberalismo quando os governos lançaram suas bases por meio de privatizações e desregulações sistemáticas.”

Com essa análise, Eric Hobsbawm chega ao final de seu novo livro, “Como Mudar o Mundo – Marx e o Marxismo, 1840-2011″.

Ao contrário do que o título pode sugerir, não se trata de um manual ligeiro para revolucionários afoitos. É um mergulho profundo na história do marxismo, mostrando como a trajetória desse pensamento se entrelaçou com as lutas sociais e políticas.

Aos 94 anos, o autor do extraordinário “Era dos Extremos” (1995) esbanja erudição e clareza. Transita entre clássicos da filosofia, da política, da economia e das artes.

Avalia as obras e os seus críticos dentro das tensões da história. Vasculha como o marxismo chegou a abarcar um terço da humanidade e como se despedaçou com o fim da URSS. E como reaparece agora, na busca de explicações para a crise.

Hobsbawm esmiúça a gênese da produção de Karl Marx (1818-1883), que recebeu influências do socialismo francês, da filosofia alemã e da economia-política britânica.

Para além da discussão acadêmica, mostra como o marxismo, diferentemente de outras correntes de pensamento, empurrou gerações para a ação, estimuladas pela célebre frase: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo; a questão, porém, é transformá-lo”.

No desenvolvimento dos movimentos sociais, dos partidos e governos criados sob inspiração marxista, Hobsbawm disseca distorções, simplificações e determinismos que não encontram base nos escritos originais.

Nada na obra de Marx, por exemplo, sustenta a inevitabilidade da sequência de modos de produção -escravismo/feudalismo/capitalismo, argumenta.

“Marx e Engels deixaram para seus sucessores um pensamento político com vários espaços vazios ou preenchidos de modo ambíguo”, escreve o historiador. “Eles rejeitaram as dicotomias simples daqueles que se dispunham a sociedade ruim pela boa, a desrazão pela razão, o preto pelo branco”, enfatiza.

Hobsbawm lembra de algumas desses áreas cinzentas, como os conceitos da ditadura do proletariado, do nacionalismo e da autodeterminação. Navega com o marxismo pelas guerras mundiais, pela luta contra o fascismo, pelas universidades.

Presta uma homenagem a Antonio Gramsci (1891-1937), o teórico e militante para quem “o marxismo não era determinismo histórico. Não bastava esperar que a história de alguma forma levasse automaticamente os trabalhadores ao poder”.

Para Hobsbawn, o auge da “maré intelectual” do marxismo foi nos anos 1970. Depois houve a derrocada rápida, com a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da URSS (1991). Marx passou a ser mostrado “como o inspirador do terror e do gulag”. Agora, a crise trouxe Marx de volta.

Avaliando o momento, Hobsbawm nota que “os socialistas não sabem o que fazer, pois não podem apontar exemplos de regimes comunistas ou social-democratas imunes à crise nem têm propostas realistas para uma mudança socialista”.

Fala dos protestos “de intensa insatisfação social sem perspectiva”, teme “o risco de uma guinada brusca da política para uma direita radical” e não descarta “a possibilidade de uma desintegração, até mesmo de um colapso, do sistema existente. Nenhum dos dois lados sabe o que aconteceria nesse caso”.

Não é um guia nem tem as respostas para a crise. Mas ajuda a pensar. Para o historiador marxista, quem quiser soluções para o século 21 “deverá fazer as perguntas de Marx, mesmo que não queira aceitar as respostas dadas por seus vários discípulos”.

COMO MUDAR O MUNDO
AUTOR Eric Hobsbawm
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Donaldson M. Garschagen
QUANTO R$ 57 (424 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Folha de São Paulo, quarta-feira, 30 de novembro de 2011

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Leia trecho do livro aqui

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“Sinto-me mais em casa na América Latina”, diz Hobsbawm

Aos 93, historiador, que publica novo livro, vê região como a única em que se faz política na linguagem do século 20 e elogia Lula

TRISTRAM HUNT
DO “GUARDIAN”, EM LONDRES

Hampstead Heath, em Londres, orgulha-se do seu papel na história do marxismo. Era lá que, aos domingos, Karl Marx subia o Parliament Hill com sua família. Nos dias de semana, Marx se juntava a Friedrich Engels para caminhar pelo parque. A ambição marxista permanece viva na casa de Eric Hobsbawm, numa rua lateral que sai do parque. Na última vez em que o entrevistei, em 2002, ele enfrentava outro ataque da mídia pela ligação com o Partido Comunista.
As coisas mudaram: a crise global transformou os termos da discussão, e a crítica marxista da instabilidade do capitalismo ressurgiu. Parecia não haver momento melhor para Hobsbawm reunir seus ensaios mais famosos sobre Marx em um volume, com material sobre o marxismo visto à luz do crash.


“Guardian” – Há no âmago desse livro um senso de algo que provou seu valor? De que, mesmo que as propostas de Marx possam não mais ser relevantes, ele fez as perguntas certas sobre o capitalismo?
Eric Hobsbawm -
 Com certeza. A redescoberta de Marx está acontecendo porque ele previu muito mais sobre o mundo moderno do que qualquer outra pessoa em 1848. É isso, acredito, o que atrai a atenção de vários observadores novos -atenção essa que, paradoxalmente, surge antes entre empresários e comentaristas de negócios, não entre a esquerda.

O sr. tem a impressão de que o que pessoas como George Soros apreciam em parte em Marx é o modo brilhante com que ele descreve a energia e o potencial do capitalismo?
Acho que é o fato de ele ter previsto a globalização que os impressionou. Mas acredito que os mais inteligentes também enxergaram uma teoria que previa o risco de crises. A teoria oficial do período, fim dos anos 90, descartava essa possibilidade.

E o sr. acha que o interesse renovado por Marx também foi beneficiado pelo fim dos Estados marxistas-leninistas?
Com a queda da União Soviética, os capitalistas deixaram de sentir medo, e desse modo tanto eles quanto nós pudemos analisar o problema de maneira muito mais equilibrada. Mas foi mais a instabilidade da economia globalizada neoliberal que, creio, começou a ficar tão evidente no fim do século.

O sr. não está surpreso com o fato de a esquerda marxista e a social-democrata não terem explorado politicamente a crise dos últimos anos?
Sim, é claro. Na realidade, uma das coisas que procuro mostrar no livro é que a crise do marxismo não é só do seu braço revolucionário, mas também do seu ramal social-democrata. O reformismo social-democrático era, essencialmente, a classe trabalhadora pressionando seus Estados-nações. Com a globalização, a capacidade dos Estados de reagir a essa pressão se reduziu concretamente. Assim, a esquerda recuou.

O sr. acha que o problema da esquerda está em parte no fim da classe trabalhadora consciente e identificável?
Historicamente falando, isso é verdade. O que ainda é possível é que a classe trabalhadora forme o esqueleto de movimentos mais amplos de transformação social.
Um bom exemplo é o Brasil, que tem um caso clássico de partido trabalhista nos moldes do fim do século 19 -baseado numa aliança de sindicatos, trabalhadores, pobres em geral, intelectuais e tipos diversos de esquerda- que gerou uma coalizão governista notável. E não se pode dizer que não seja bem-sucedida, após oito anos de governo e um presidente em final de mandato [a entrevista foi feita no final de 2010] com 80% de aprovação.
Ideologicamente, hoje me sinto mais em casa na América Latina. É o único lugar no mundo em que as pessoas fazem política e falam dela na velha linguagem -a dos séculos 19 e 20, de socialismo, comunismo e marxismo.

O título de seu novo livro é “How to Change the World”. No final, o sr. escreve: “A substituição do capitalismo ainda me parece possível”. A esperança continua forte?
Não existe esperança reduzida hoje. O que digo agora é que os problemas do século 21 exigem soluções com as quais nem o mercado puro nem a democracia liberal pura conseguem lidar adequadamente. É preciso calcular uma combinação diferente.
Que nome será dado a isso não sei. Mas é bem capaz de não ser mais capitalismo, não no sentido em que o conhecemos aqui e nos EUA.

Folha de São Paulo, terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Bill Keller

Caiu mito do jornalismo grátis, diz Keller
Jornalista que implantou o sistema de cobrança do ‘New York Times’ afirma que nem tudo vai ser aberto na internet
Como editor-executivo do jornal americano, Bill Keller montou um sistema flexível que teve início promissor

ROBERTO DIAS
EDITOR DE NOVAS PLATAFORMAS

“Continuará havendo muita informação gratuita na internet. Mas as pessoas pagarão por coisas que tenham qualidade, que elas não encontrarão de graça”
BILL KELLER
colunista do “New York Times”

O jornalista Bill Keller liderou a construção do mais discutido modelo de negócios para a mídia no ano: o chamado “muro de cobrança” do jornal “The New York Times”.
Inaugurado em março, o “paywall” do diário envolveu todas as plataformas e abriu um novo caminho para a velha discussão sobre cobrar ou não pelo conteúdo.
O pulo do gato do “NYT” foi montar um sistema flexível, que busca conciliar o modelo de assinaturas, originado do jornal impresso, com a corrida por audiência na web.
Cada internauta pode ler gratuitamente 20 textos do “NYT” por mês. A partir daí, o jornal oferece pacotes para leitores que querem ver o jornal sem restrições -o sistema contempla tablets e celulares. A assinatura começa em US$ 15 mensais (R$ 26).
O modelo, porém, tem “furos” propositais. A “home page” não é contada entre os 20 cliques gratuitos. Links colocados em redes sociais também não. Em seu mais recente balanço, divulgado no mês passado, o jornal disse ter 324 mil assinantes digitais.
“Está funcionando tão bem quanto esperávamos ou melhor”, afirma Keller. Em setembro, após a implantação do novo modelo, ele deixou, a pedido, o cargo de editor-executivo do “NYT” e retomou sua função anterior, de colunista do jornal.

Folha – A era da informação totalmente gratuita acabou?
Bill Keller - Não sei se é o final de uma era, mas é certamente o fim de um mito. Os profetas da internet argumentavam que tudo era gratuito e que as pessoas não pagariam por nada, que a informação em todos os seus formatos seria livre.
Mas então apareceu o iTunes e viu-se que as pessoas ainda queriam pagar por música. Desapareceu toda essa noção, que é um eco dos anos 60, de que tudo deveria ser gratuito, que o comércio é de certa maneira ilícito.
É natural que as notícias sigam [esse caminho]. Isso não significa que as pessoas vão pagar por todo tipo de coisa.
Jornalismo de serviço público exige muito tempo e investigação. É preciso ter advogados do seu lado. Jornalismo que exige ir a lugares longínquos e perigosos não estará disponível gratuitamente. Jornalismo muito local, aquele tipo realmente importante de jornalismo sobre o que está acontecendo na sua vizinhança, ou na capital do seu Estado, esse tipo de coisa ninguém está fazendo gratuitamente.

Em uma famosa palestra em 2007, o sr. chamou a internet de elemento de ruptura da imprensa. As coisas mudaram em que sentido desde então?
A internet mudou quase tudo na maneira como colhemos informação, como disseminamos informação e como pagamos pela informação. Ela causou ruptura de uma maneira que é ameaçadora, mas também de algumas maneiras muito boas. Nós agora usamos a internet não apenas para transmitir notícias, mas também para colher informação.
Um exemplo óbvio é o da Primavera Árabe. Se só tivéssemos as mídias sociais, não seria suficiente. Mas as mídias sociais foram muito importantes em dar uma percepção do que estava acontecendo nas ruas. Algumas vezes você não tem como chegar até a rua, ir até o país.
A maneira como apresentamos a informação hoje é totalmente diferente da de dez anos atrás. É mais rápido, mais gráfico, com vídeo e áudio quando achamos que eles acrescentarão algo. Todo mundo fica focado na circulação impressa, mas nós agora temos 40 milhões de usuários únicos. Estamos chegando a mais pessoas.

‘As pessoas acham que vale a pena pagar’
Para Bill Keller, internauta reconhece a qualidade e a importância do bom jornalismo e busca acesso conveniente a ele
Jornalista diz que empresas como a Apple são ao mesmo tempo aliadas e concorrentes da mídia tradicional

DE SÃO PAULO

Leia a continuação da entrevista com Bill Keller. (RD)

Folha – Já é possível dizer que esse modelo do “NYT” é um sucesso?
Bill Keller - Quando me perguntam isso, lembro daquela cena de George W. Bush no porta-aviões com a bandeira atrás: “Missão cumprida”. É preciso ser muito cuidadoso antes de cantar vitória. Estamos fazendo isso há menos de um ano. Até agora, e enfatizo o “até agora”, está funcionando tão bem quanto esperávamos ou melhor.

Quanto a audiência do site caiu após o “paywall”?
Caiu um pouco, mas muito menos do que esperávamos. Em parte, isso aconteceu porque não construímos uma parede “dura”. Há muito que você pode fazer livremente. Não sei se funcionaria para outros veículos, mas, para nós, acho que o segredo foi esse: não erguemos uma parede e dissemos: “Pague agora ou vá embora”. Continuamos convidando as pessoas a entrar sem pagar.
Por que vocês confiam que as pessoas não vão usar as regras do “paywall” contra o “paywall”? Por exemplo: linkando todos os colunistas do jornal no Facebook.
Não há problema. Você também pode ter música gratuita. É uma combinação de conveniência e… não sei bem como chamar isso… um sentido de que as pessoas querem apoiar o que fazemos. As pessoas pagam porque é conveniente e porque acham que vale a pena.
O sr. sabe quantos desses 324 mil assinantes pagam mais do que o pacote de US$ 0,99 [preço promocional para as quatro primeiras semanas]?
Eu não tenho os números exatos, e se tivesse não teria permissão para lhe dizer. Mas um percentual extremamente alto das pessoas está mudando para o plano completo.

Mas o sr. diria que é a maioria mesmo?
Sim, a maioria.

O sr. espera que o número de assinantes digitais do “NYT” ultrapasse o de assinantes do jornal impresso em cinco anos, por exemplo?
Meu palpite seria que sim. Em cinco anos teremos jornal impresso, porque existe uma espécie de núcleo de audiência fiel. Um jornal impresso é uma coisa legal. Você pode levá-lo a qualquer lugar, mas, se você o perde, não é tão horrível quanto perder seu iPad.
Em cinco anos ainda haverá uma operação saudável do “NYT” impresso. Mas acho que provavelmente em algum ponto desse período o número de assinantes digitais vai ultrapassar o do impresso.

Há alguns anos o sr. fez uma espécie de autoexperiência antropológica, cortando seu contato com a edição impressa do “NYT” por algumas semanas e lendo apenas as versões digitais. O que aprendeu?
Que há muitas maneiras diferentes de consumir informação. Amo o impresso, mas consumo os dois. Para mim, parar de usar um deles é como dizer “eu não vou mais ao cinema, apenas ao teatro”.
Leio o jornal pela manhã, levo no metrô às vezes para ler alguma reportagem que não consegui no café da manhã. Mas depois de 20 minutos no escritório, estou on-line, vendo que novidades aconteceram, lendo outros sites, frequentemente lendo comentários.
Adoro saber o que os leitores estão dizendo sobre o que leem -às vezes isso é mais interessante do que o próprio jornal.

O sr. já disse que, se alguém quiser confiar no Google, deveria ‘dar um Google’ no próprio nome. O Google é sinônimo de mau jornalismo?
Tenho muito respeito pelo Google. Uso 50 vezes por dia. Uso muito a Wikipédia, porque é muito conveniente: quando você faz uma busca, é frequentemente a primeira coisa que aparece. Mas não acho nenhum dos dois mais confiável do que um bom repórter fazendo seu trabalho.

A Apple é realmente uma ameaça às empresas de mídia?
Nós olhamos para a Apple, para o Google, para a Amazon como amigos e inimigos. São tanto aliados quando concorrentes. Concorrentes não tanto por substituição do nosso trabalho jornalístico, mas porque disputam a atenção dos leitores e as receitas.
A Apple criou o iPad, que representou um boom para o jornalismo e para os consumidores do jornalismo. Mas a Apple também quer controlar o que se paga na web, pegar seus 30%.

Como as mídias sociais competem com os jornais?
Não substituem o jornalismo sério. Você não vai para o Twitter para ler uma reportagem investigativa sobre corrupção no seu governo municipal. Ou uma explicação sobre o que está acontecendo na economia europeia.
O Twitter pode linkar você, mas não substitui o lugar onde isso foi produzido.

Quão efetivos os jornais podem ser contra os sites que reproduzem conteúdo de maneira não autorizada?
Eles não substituem o fato de que é preciso mandar repórteres aos lugares.
Uma coisa é creditar alguém e linkar seu artigo para que os leitores possam ir para seu website e outra coisa copiar, roubar, dizer: “Você não tem que ir para o site deles, aqui está o que ele disse”.
Se isso é legal ou não, eu deixo para os advogados. Mas no sentido moral, isso é furto.

O sr. já disse que os jornais estarão aí por muito tempo, ainda que sejam um chip implantado no córtex. Vocês estão trabalhando nisso?
Não, mas não ficaria surpreso se alguém estivesse. Nós não temos um departamento de neurociência no “NYT” – ainda.

Habermas

Habermas defende mais integração europeia e critica governos do bloco
Filósofo alemão afirma que debacle inspira força da extrema direita
VICTÓRIA ÁLVARES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS

Diante da crise econômica que assola a Europa, o filósofo alemão Jürgen Habermas afirmou na última quinta-feira que os problemas da UE (União Europeia) partem da falta de interação entre os cidadãos e a comunidade, relançando o debate sobre Europa e democracia.

“O cidadão deve, simultaneamente e com a mesma implicação, julgar e decidir politicamente como cidadão da União Europeia e como membro de um Estado nacional”, afirmou Habermas durante uma conferência na Universidade Paris Descartes.

Entretanto, essa identidade comunitária é cada vez menor entre os europeus. O índice de abstenção nas últimas eleições para o Parlamento da UE em 2009, por exemplo, ficou em 56,99%.

Para combater essa tendência, Habermas defende a democratização da Europa pela inserção dos cidadãos nos debates políticos e econômicos.

“Quanto mais o indivíduo perceber como as decisões da UE influem na vida cotidiana, maior vai ser seu interesse em utilizar os direitos enquanto cidadão da comunidade, e mais ele vai estar atento ao que os chefes de governos negociam ou decidem”, afirmou. Os atuais problemas europeus -crise econômica, alto índice de desemprego, descrença nas forças políticas, insatisfação generalizada- são fatores que propiciam terreno fértil para a extrema direita e estimulam a crescente rejeição ao projeto comum europeu. Para Habermas, só o populismo de direita, que começa a ganhar mais adeptos no velho continente, continua a projetar a caricatura das grandes questões nacionais e poderá bloquear qualquer formação para além das fronteiras.

Mas o filósofo foi categórico quando lembrou que “após 50 anos de imigração por trabalho, os povos europeus, diante de um crescente pluralismo étnico, linguístico e religioso, não podem mais ser imaginados como unidades culturais homogêneas”.

Além disso, a forma como os dirigentes europeus trataram a crise do euro, com manobras dilatórias e sem solidariedade espontânea, pode ter contribuído com a rejeição crescente do projeto europeu, segundo o filósofo.

SOLIDARIEDADE

O alemão criticou abertamente o próprio país, afirmando que o governo da chanceler (premiê) Angela Merkel tornou-se “acelerador de uma ‘dessolidarização’ que atingiu a Europa”.

Para o também filósofo Jean-Marc Ferry, presente na conferência, a Alemanha deveria iniciar um esquema de solidariedade internacional.

“Por uma década os Estados do sul da Europa estimularam a economia alemã e permitiram que o país alcançasse a posição econômica confortável em que se encontra hoje. Agora, a Alemanha deve retribuir.”

Ferry criticou a fragilidade das instituições da UE, como a Comissão Europeia, que seria apenas burocrática, e não política. “Enquanto isso, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy são os que governam a comunidade europeia.”

leia trecho da conferência no link
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1106151-juergen-habermas-esta-em-jogo-democracia

Folha de S.Paulo, 13/11/2011

Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora)

por Bárbara Doro Zachi e Jannerson Xavier Borges,
quarta, 9 de Novembro de 2011 às 16:04

Somos alunos da ECA-USP e visto a falta de imparcialidade da mídia com referência aos últimos acontecimentos ocorridos dentro da Universidade de São Paulo, cremos ser importante divulgar o cenário real do que realmente se passa na USP. Alguns fatos importantes que gostaríamos de mostrar:

- O incidente do dia 27/10/11, quando 3 alunos foram pegos portando maconha, NÃO foi o ponto de partida das reivindicações estudantis. Aquele foi o estopim para insatisfações já existentes.

- Portanto, gostaíamos de explicitar que a legalização da maconha, seja dentro da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público, não é uma reivindicação estudantil. Alguns grupos até estão discutindo essa questão, mas ela NÃO entra na pauta de discussões que estamos tendo na USP.

- Os alunos da USP NÃO são uma unidade. Dentro da Universidade há diversas unidades (FFLCH, FEA, Poli, etc.) e, dentro de cada unidade, grupos com diferentes opiniões. Por isso não se deve generalizar atitudes de minorias para uma universidade inteira. O que estamos fazendo, isso no geral, é sim discutir a situação atual em que se encontra a Universidade.

- O Movimento Estudantil, responsável pelos eventos recentes, NÃO é uma organização e tampouco possui membros fixos. Cada ação é deliberada em assembleia por alunos cuja presença é facultativa. O que há é uma liderança desse movimento, composta principalmente por membros do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e dos CAs (Centros Acadêmicos) de cada unidade. Alguns são ligados a partidos políticos, outros não.

- Portanto, os meios pelos quais o Movimento Estudantil se mostra (invasões, pixações, etc.) não são decisão de maiorias e, portanto, são passíveis de reprovação. Seus fins (ou seja, os pontos reais que são discutidos), no entanto, têm adesão muito maior, com 3000 alunos na assembleia do dia 08/11.

- Apesar de reprovar os meio usados pelo Movimento Estudantil (invasões, depredação), não podemos desligitimar as reivindicações feitas por esses 3000 alunos. Os fatos não podem ser resumidos a uma atitude de uma parcela muito pequena dos universitários.

Sabendo do que esse movimento NÃO se trata, seguem suas reinvidicações:

DISCUSSÃO DO CONVÊNIO PM-USP / MODELOS DE SEGURANÇA NA USP

A reivindicação estudantil não é: PM FORA DO CAMPUS, mas antes SEGURANÇA DENTRO DO CAMPUS. Os estudantes crêem na relação dessas reivindicações por três motivos:

A PM não é o melhor instrumento para aumentar a segurança, pois a falta de segurança da Cidade Universitária se deve, entre outros fatores, a um planejamento urbanístico antiquado, gerando grandes vazios. Iluminação apropriada, política preventiva de segurança e abertura do campus à populacão (gerando maior circulação de pessoas) seriam mais efeitas. Mas, acima de tudo…

A Guarda Universitária deve ser responsável pela segurança da universidade. Essa guarda já existe, mas está completamente sucateada. Falta contingente, treinamento, equipamento e uma legislação amparando sua atuação. Seria muito mais razoável aprimorá-la a permitir a PM no campus, principalmente porque…

A PM é instrumento de poder do Estado de São Paulo sobre a USP, que é uma autarquia e, como tal, deveria ter autonomia administrativa. O conceito de Universidade pressupõe a supremacia da ciência, sem submissão a interesses políticos e econômicos. A eleição indireta para reitor, com seleção pessoal por parte do governador do Estado, ilustra essa submissão. O atual reitor João Grandino Rodas, por exemplo, era homem forte do governo Serra antes de assumir o cargo.

POSTURA MAIS TRANSPARENTE DO REITOR RODAS / FIM DA PERSEGUIÇÃO AOS ALUNOS

Antes de tudo, independentemente de questões ideológicas, Rodas está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção, sob acusação de envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.

No mais, suas decisões são contrárias à autonomia administrativa que é direito de toda universidade. Depois de declarar-se a favor da privatização da universidade pública, suspendeu salários em ocasiões de greve, anunciou a demissão em massa de 270 funcionários e, principalmente, moveu processos contra alunos e funcionários envolvidos em protestos políticos.

Rodas, em suma: foi eleito indiretamente, faz uma gestão corrupta e destrói a autonomia universitária.

Você pode estar pensando…

MAS E O ALUNO MORTO NO ESTACIONAMENTO DA FEA-USP, ENTRE OUTRAS OCORRÊNCIAS?

Sobre o caso específico, a PM fazia blitz dentro da Cidade Universitária na noite do assassinato. Ainda é bom lembrar que a presença da PM já vinha se intensificando desde sua primeira entrada na USP, em Junho/2009 (entrada permitida por Rodas, então braço-direito de Serra). Mesmo assim, ela não alterou o número de ocorrências nesse período comparado com o período anterior a 2009. Ao contrário, iniciou um policiamento ostensivo, relugarmente enquadrando alunos, mesmo das unidades nas quais mais estudantes apoiam sua presence, como Poli e FEA.

MAS E A DIMINUIÇÃO DE 60% NA CRIMINALIDADE APÓS O CONVÊNIO USP-PM?

São dados corretos. Porém a estatística mostra que esta variação não está fora da variação anual na taxa de ocorrências dentro do campus ( http://bit.ly/sXlp0U ). A PM, portanto, não causou diminuição real da criminalidade na USP antes ou depois do convênio. Lembre-se: ela já estava presente no início do ano, quando a criminalidade disparou.

MAS, AFINAL, PARA QUE SERVE A TAL AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA?

Serve para que a Universidade possa cumprir suas funções da melhor maneira possível. De maneira simplista, são elas:

- Melhorar a sociedade com pesquisas científicas, sem depender de retorno financeiro imediato.

- Formar cidadãos com um verdadeiro senso crítico, pois mera especialização profissional é papel de cursos técnicos e de tecnologia.

Importante: autonomia universitária total não existe. O dinheiro vem sim, do Governo, do contribuinte, porém a autonomia universitária não serve tirar responsabilidades da Universidade, mas sim para que ela possa cumprir essas responsabilidades melhor.

COMO ISSO ME AFETA? POR QUE EU DEVERIA APOIA-LOS?

As lutas que estão ocorrendo na USP são localizadas, mas tratam de temas GLOBAIS. São duas bandeiras: SEGURANÇA e CORRUPÇÃO, e acredito que opiniões sobre elas não sejam tão divergentes. Alguém apoia a corrupção? Alguem é contra segurança?

O que você acha mais sensato:

- Rechaçar reivindicações justas por conta de depredações e atos reprováveis de uma minoria, ou;

- Aderir a essas mesmas reivindicações, propondo ações mais efetivas?

Você tem a liberdade de escolher, contra-argumentar ou mesmo ignorar.

Mas lembre-se de que liberdade só existe com esclarecimento.

Espero ter contribuído para isso.

Se você se interessa pelo assunto, pode começar lendo este depoimento: http://on.fb.me/szJwJt

Bárbara Doro Zachi e Jannerson Xavier Borges

PS: Já que a desconfiança é com a mídia, evitamos linkar material de qualquer veículo.

fonte: http://www.facebook.com/notes/jannerson-xavier/esclarecendo-o-caso-usp-pra-quem-v%C3%AA-de-fora/2459499642739

Cidadania digital

Novas redes querem fiscalizar cidades
Sites e ferramentas de interação entre usuários ajudam a resolver questões políticas e sociais de pequena ordem

MyFunCity, app recém-criado, permite que o usuário avalie aspectos como policiamento e limpeza do município

LEONARDO LUÍS
DE SÃO PAULO

As redes sociais já ajudaram a incitar revoltas na Primavera Árabe e são peça fundamental do movimento “Ocupe Wall Street”, que promove atos no mundo todo contra a crise financeira.
Mas têm funcionado também para mobilizações menores, em torno de questões mais pontuais: construir uma ciclovia, por exemplo.
Há dois anos, o estudante Luiz Ballas, 16, que participa de bicicletadas, usou o site Cidade Democrática para propor a construção de ciclovias em Jundiaí (SP), onde mora.
O deputado estadual Pedro Bigardi (PC do B) encampou a proposta e conseguiu aprovar emenda para financiá-la.
Questões do tipo são o filão do Cidade Democrática, site criado em 2009 em que usuários criam e apoiam propostas. As ideias são divididas por municípios, e Jundiaí é a cidade mais ativa.
Duas ferramentas na mesma linha, que apostam no engajamento em questões políticas e sociais, foram criadas no Brasil recentemente.
O MyFunCity, aplicativo para Facebook, iPhone, iPad e iPod touch lançado neste mês, permite que o usuário faça check-in em locais de sua cidade e avalie aspectos como quantidade de árvores, acessibilidade para deficientes, policiamento e limpeza.
Na interface, é possível enxergar um mapa cheio de carinhas representando avaliações feitas por usuários. Por enquanto, em São Paulo e no Rio, a tristeza predomina.
Alexandre Sayad, diretor-geral do MyFunCity, diz que o propósito da ferramenta não é ser “um reclamódromo simples e superficial”. “Ela gera a possibilidade de levantar também as boas práticas.”
O MyFunCity quer atingir o exterior: sua versão em inglês deve ser divulgada hoje.

QUESTÕES POLÍTICAS
O PoliticNote, lançado em julho deste ano, tem interface parecida com a de redes sociais convencionais, mas é voltado especificamente para questões políticas.
É possível participar da página de um partido, referendar causas e entrar em contato com políticos cadastrados, como a deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP).
Um site com proposta mais simples, também voltado à participação política, é o Votenaweb, em que usuários votam em sim ou não (sem poder decisório) sobre projetos do Congresso Nacional.

Facebook é canal para marchas anticorrupção
DE SÃO PAULO

Na quarta passada, milhares de pessoas protestaram contra a corrupção em capitais brasileiras.
Os protestos foram organizados no Facebook e integram o Movimento Contra a Corrupção, que começou com um evento criado na rede pelas irmãs Daniella e Lucianna Kalil. Giderclay Zeballos, organizador do MCC, diz que “a princípio elas nem tinham previsão de que o [primeiro] evento se tornaria real”.
Zeballos, que é analista de sistema e não tinha envolvimento direto com política, criou um site (http://bit.ly/mccorrupcao) para o MCC. Ele diz que só aceitou entrar porque “era um movimento apartidário, sem entidade por trás”. (LL)

Lá fora, grupos buscam opções às redes do establishment
NELSON DE SÁ
ARTICULISTA DA FOLHA

O movimento Ocupe Wall Street tem um mês, mas demorou para ser incorporado à cobertura regular nos EUA -e não o foi, de todo. Um de seus líderes diz que ele é “inteiramente ignorado pela mídia”.
Quando não, os relatos se concentram, por exemplo, na sujeira que fazem na praça Liberty, em Nova York.
A saída de início foram sites alternativos como o engajado Adbusters e o próprio OccupyWallStreet. Ou, ainda, o jornal de mobilização “The Occupied Wall Street Journal”, em papel mesmo.
Mundo afora, como nas dezenas de manifestações do fim de semana, São Paulo e Rio inclusive, outra saída foram redes sociais, Facebook e Twitter principalmente, mas também Meetup, Four-Square, yFrog, Bambuser.
Foi assim que declarações de Julian Assange, do WikiLeaks, correram o mundo, a partir do ato em Londres.
Mas, como Assange aprendeu antes nos vazamentos do Departamento de Estado, as redes hoje integradas ao establishment não são a plataforma mais confiável quando se trata de política -ou do mercado financeiro.
Por exemplo, nada de #occupywallstreet nos “trending topics” do Twitter, mesmo com episódios como a repressão policial na ponte Brooklyn, há duas semanas.
Jonathan Albright, pesquisador da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, levantou estatísticas independentes, do Trendistic, que mostravam o assunto à frente de outros, mas, ao contrário deles, sem eco na versão oficial de audiência.
“No mundo on-line, é fácil iniciar um movimento”, diz Albright, “mas é mais difícil interpretá-lo. Não é só o Twitter, é toda a mídia social ‘transparente’. Movimentos futuros que possam ser controversos estarão mais bem servidos erguendo aplicativos de mídia social próprios”.
O Twitter chegou a se explicar, mas o Ocupe Wall Street já trata de buscar organicamente outros caminhos.
E espalhou on-line e em panfletos que a rede social a usar é o Vibe, alternativa recente ao Twitter, com aplicativos para iPad e Android. Porém, “livre e anônima”.

redes

http://myfuncity.org

http://cidadedemocratica.org.br

http://politicnote.com

http://votenaweb.com.br

Folha de São Paulo, quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Marcia Angell

Estamos dando veneno para as crianças

MÉDICA ATACA INDÚSTRIA POR ESTIMULAR USO DE REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS PARA PACIENTES INFANTIS

A médica americana Marcia Angell, 72, ex-editora da revista especializada “NEJM” e autora do livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”

CLÁUDIA COLLUCCI
DE WASHINGTON

Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário “New England Journal of Medicine”, a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista “Time” uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.
Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacêutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área.
Naquele ano, ela publicou a explosiva obra “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”, que desnuda o mercado de medicamentos.
Usando da experiência de duas décadas de trabalho no “NEJM”, ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.
Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica. Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano.
Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescrição de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianças. “Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade”, diz ela.
Mãe de duas filhas e avó de gêmeos de oito meses, ela diz que recebe muitos convites para vir ao Brasil, mas se vê obrigada a recusá-los. “Não suporto a ideia de passar horas e horas dentro de um avião.” A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu à Folha.

Folha – Houve alguma mudança no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacêutica desde a publicação do seu livro?
Marcia Angell – Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas. Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadêmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacêuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.

E os pacientes? Algumas pesquisas mostram eles parecem não se importar muito com essas questões.
Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.
Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados.
A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: “Você precisa perder peso, fazer mais exercícios”. E a pessoa diz: “Eu prefiro o remédio”.
E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso.
Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.

A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescrições na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?
Penso que sim. Há hoje um evidente abuso na prescrição de drogas psiquiátricas, especialmente para crianças.
Crianças que têm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade]. E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos.
Às vezes, a criança chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes.
Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e à síndrome metabólica. Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianças, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.

Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?
Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacêutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preços tão altos?

Algumas escolas de medicina nos EUA começaram a cortar subsídios da indústria farmacêutica e de equipamentos na educação médica continuada. No Brasil, essa dependência é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?
Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educação continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferença é que você não precisa ir a um resort no Havaí para ter educação médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitação mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educação médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educação.

FRASE

“Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz uma prescrição. Isso precisa ser mudado. Pacientes têm que aprender que não existem soluções mágicas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base”
MARCIA ANGELL

RAIO-X

MARCIA ANGELL

IDADE
72 anos

OCUPAÇÃO
Professora titular do departamento de Medicina Social da Escola Médica de Harvard e membro da Associação de Médicos Americanos

FORMAÇÃO
Graduada em medicina interna e patologia na Universidade de Boston

TRAJETÓRIA
Fez parte do corpo editorial do “New England Journal of Medicine” entre 1979 e 1999; primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no “NEJM”; eleita pela “Times”, em 1997, como uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA

PUBLICAÇÕES
É autora dos livros “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos” (editora Record) e “Science on Trial: The Clash of Medical Evidence and the Law in Breast Implant Case” (sem tradução no Brasil)

Folha de São Paulo, terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bloqueios da Mídia

Mobilização ou distração?
Ao analisar a revolução no Egito, pesquisador dos EUA conclui que bloqueio de Mubarak à web (e aos seus passatempos) ajudou a disseminar os protestos

NOAM COHEN
DO “NEW YORK TIMES”

As mídias, incluindo as ferramentas interativas de redes sociais, tornam você passivo, podem solapar sua iniciativa e fazer com que você se contente em assistir ao espetáculo da vida desde seu sofá ou de seu smartphone.
Até mesmo durante uma revolução, ao que parece.
Essa é a tese provocante de um novo artigo de Navid Hassanpour, pós-graduando em filosofia política na Universidade Yale, intitulado “Bloqueios da Mídia Exacerbam Agitação Revolucionária”.
Com cálculos complexos e vetores que representam a tomada de decisões por parte de potenciais manifestantes, Hassanpour, doutor em engenharia elétrica pela Universidade Stanford, estudou o levante recente no Egito.
Sua pergunta foi: “Até que ponto foi inteligente a decisão tomada pelo governo do ditador Hosni Mubarak em 28 de janeiro, no meio dos protestos cruciais na praça Tahir, de fechar as conexões à internet e aos celulares?”.
A conclusão dele é que a decisão não foi tão inteligente assim, mas não pelas razões mais previsíveis. “A conectividade plena em uma rede social às vezes representa um obstáculo à ação coletiva”, ele escreve.
Em outras palavras: a atividade toda de trocar mensagens no Twitter, no Facebook e por SMS é ótima para organizar e difundir uma mensagem de protesto, mas também pode transmitir uma mensagem de cautela, adiamento, incerteza ou, ainda, “não tenho tempo para esta política toda. Você já viu o último figurino de Lady Gaga?”.
É uma conclusão que contraria a ideia hoje aceita de que as mídias sociais ajudaram a impelir os protestos.
Hassanpour usou relatos feitos pela imprensa das explosões de agitação no Egito para mostrar que, a partir de 28 de janeiro, os protestos se disseminaram mais amplamente pelo Cairo e pelo país. Não havia necessariamente mais manifestantes, mas o movimento se espalhou para mais partes da população.
Ele chama isso de “processo de localização”. “Pode ser difícil medir esse processo, mas você pode testá-lo -pode testar o que acontece depois que entra em efeito uma interrupção das conexões”, argumenta.

TRÊS EFEITOS NO CAIRO
Ele escreve que “a interrupção parcial ou total da cobertura dos celulares e da internet em 28 de janeiro exacerbou a turbulência de ao menos três formas”:
1) chamou a atenção de muitos cidadãos apolíticos, que não tinham consciência da turbulência ou não estavam interessados por ela;
2) obrigou a realização de mais comunicação cara a cara, ou seja, mais presença física nas ruas; e
3) descentralizou concretamente a rebelião no dia 28, graças à adoção de táticas de comunicação híbridas, fato que gerou algo mais difícil de controlar e reprimir do que teria sido uma só aglomeração de massa na praça Tahir.

ESCURIDÃO ESTRANHA
Ao “New York Times”, Hassanpour descreveu a “escuridão estranha” que acontece em uma sociedade sem acesso à mídia. “Somos mais normais quando sabemos o que está acontecendo; somos mais imprevisíveis quando não sabemos. Em uma escala de massas, isso tem implicações interessantes.”
O governo de Hosni Mubarak caiu, e, aos 83 anos, o ex-ditador foi levado de maca a um tribunal do Cairo para enfrentar acusações criminais de corrupção e cumplicidade na morte de manifestantes.
Jim Cowie, executivo-chefe de tecnologia da Renesys, empresa que avalia como a internet opera em todo o mundo, acredita que outro ditador deposto, Muammar Gaddafi, pode ter tomado nota da experiência egípcia.
Em um post em um blog no site da empresa, “O que a Líbia aprendeu com o Egito”, Cowie escreveu em março que a Líbia estudou a ideia de interromper a conexão com a internet no país.
Os líderes líbios “enfrentaram a mesma decisão no período que antecedeu a guerra civil”, ele escreveu. “A cada vez, possivelmente por terem aprendido com o exemplo egípcio, eles optaram por não implementar um blecaute de vários dias de todas as conexões”, completou.

SUFOCAR A REDE
Os governos sofisticados compreendem “que fechar o acesso à rede radicaliza as coisas”, disse Hassanpour. O que é mais útil para os governos é “sufocar a largura de banda”, reconhecendo que “a internet é algo que é possível reduzir, sem eliminar”.
Esse processo visa tornar a conexão menos confiável e pronta, de modo que as páginas da web demorem para ser carregadas e que o streaming de vídeos seja imperfeito.
De acordo com Jim Cowie, o Irã foi um dos vários países que perceberam que “o negócio não é desligar a internet, mas fazer com que ela seja menos útil”, ao controlar quais bairros têm acesso a ela, por exemplo.
Hassanpour, que nasceu e foi criado no Irã, concorda com essa tese: “O Irã faz isso de maneira localizada”.

Tradução de CLARA ALLAIN

Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tecnologia na escola

Caderno Especial

índice :

Pesquisa de futuro
Setor especializado é indício de que escola cuida do tema
Recursos digitais mudam até jeito de resolver prova
Jogos eletrônicos tentam prender a atenção do aluno
Colégios trocam caderno por tablet
Na Grande São Paulo, rede pública também investe no uso de netbooks
Estudante usa rede social para aprender
Alunos usam Twitter para criar microcontos em aula de português
Aluno é o centro na sala high-tech
Projeto incentiva inovação com equipamento simples
Tecnologia ajuda estudante também em aula externa
Uso consciente da internet deve ser ensinado em aula
Depoimento: “Levamos o debate ao Facebook, pois é mais eficiente”

Folha de São Paulo, domingo, 25 de setembro de 2011
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA – DANIEL VASQUES, RENATO CASTRO NEVES, RICARDO SCHWARZ e THIAGO FERNANDES.

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Pesquisa de futuro
Diante das ofertas, especialistas aconselham desvendar como a tecnologia é usada em aula

A escolha da escola do filho é muito mais que um trava-língua e os pais sabem bem disso. Em um momento tão sério quanto o da matrícula no colégio, a grande questão é saber o que, diante de ofertas tão diferentes, é o melhor para a criança ou para o adolescente.
E, quando é o quesito tecnologia que está na balança, as dúvidas aumentam na proporção em que mais e mais recursos são apresentados como inovações imprescindíveis ao aprendizado nos dias de hoje.
É natural que os pais se perguntem se os filhos precisam disso tudo. A resposta não é tão simples quanto um clique no mouse nem tão complexa quanto programar sites em HTML avançado.
O primeiro ponto que os pais devem considerar é que uma escola high-tech não deixa de ser uma escola.
Por isso, o pesquisador e professor da Universidade Stanford (EUA) Martin Carnoy recomenda atenção à pedagogia. “O segredo não é apenas olhar os produtos tecnológicos, mas saber quais métodos de ensino e que tipo de software a escola utiliza.”
O segundo passo, aconselha Renata Rubano, do Instituto Meio Ponto, é tentar reconhecer os casos em que a tecnologia é usada só como chamariz e aqueles em que ela, de fato, é voltada para o ensino. “Aparelhos de última geração podem ser puro marketing”, afirma.
Joice Regina Gogora, que presta consultoria para a implantação de tecnologia nas escolas, completa: “Mais importante que a ferramenta é [o modo] como ela é utilizada”.
Para ajudar os pais na escolha da escola, a Folha traz dicas para avaliar a tecnologia e exemplos de seu uso no ensino em colégios da capital e da Grande São Paulo.
Boa leitura e boa escolha!

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Setor especializado é indício de que escola cuida do tema
Área deve dar suporte ao ensino e planejar a compra de novos recursos

Mais importante do que se informar sobre os equipamentos de tecnologia de uma escola é saber como eles são usados no ensino. Uma dica para os pais é perguntar se há um setor para cuidar do assunto. É aí que entra o departamento de tecnologia.
Área que planeja a aquisição e o uso desses recursos no ensino, o departamento não pode ser uma ilha tecnológica dentro da escola, mas tem que criar pontes com o restante dela, para que professores e coordenadores do setor trabalhem articulados.
Por isso, os pais devem verificar qual é a afinidade do diretor do departamento tanto com tecnologia quanto com educação. Ele, afinal, precisará falar a linguagem dos equipamentos de informática e a do ensino.
No Liceu Pasteur, na zona sul, Joel Lamiral, diretor do departamento, lembra que é necessário pensar como e por que desenvolver um projeto antes de o aluno pôr a mão na massa, ou melhor, no mouse. “O trabalho pedagógico prévio é muito importante.”
No Santa Cruz, na zona oeste, há um setor que desenvolve conteúdo pedagógico informatizado, dirigido pelo pedagogo Moisés Zylbersztajn, e outro responsável pela estrutura de rede e máquinas.
“A demanda do professor é difícil de ser entendida por um técnico. Com dois departamentos, consigo traduzir para professores e para técnicos as necessidades de cada um”, diz Zylbersztajn.

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Recursos digitais mudam até jeito de resolver prova
Substituto do lápis e papel nos testes, controle remoto permite correção rápida

Esqueça o giz, a lousa e o retroprojetor. Isso ficou para trás. O que seu filho poderá encontrar quando for para a escola são instrumentos bem mais modernos.
Na visita que a Folha fez a alguns colégios de São Paulo, encontrou equipamentos tecnológicos que estão mudando a forma de os alunos receberem o conteúdo passado pelos professores.
O que antes era possível ver apenas nos livros ou com os pesados retroprojetores, agora é mostrado em tempo real em uma lupa digital. Colocando-se o aparelho sobre a pele, por exemplo, é possível ver o tecido epitelial na tela do notebook com detalhes antes imperceptíveis.
“Não fica apenas na teoria, com a professora falando na sala. A aula fica mais interessante e você enxerga na hora aquilo que ela fala”, afirma Matheus Duarte, 16, aluno do ensino médio do colégio Bandeirantes, na zona sul, que oferece o instrumento.

ATÉ A PROVA
E, quem diria, até um dos métodos escolares mais tradicionais, a prova, não resistiu ao avanço tecnológico.
Geralmente feita no papel, as avaliações começam a ganhar uma maneira diferente de ser realizada: por meio de controle remoto.
O CPS (Classroom Performance System) é um aparelho de avaliação eletrônico. Cada aluno recebe um controle com cinco alternativas. A questão é projetada numa lousa digital e, por meio de um receptor ligado ao computador, cada voto é contabilizado na hora.
“Além de agilizar o processo, seja numa revisão ou numa prova, percebemos que eles gostam desse método porque movimenta a aula”, explica o coordenador de tecnologia educacional do Bandeirantes, Mário Abbondati.
“Fica mais legal do que fazer no papel. Além disso, o resultado sai na hora e você sabe o que errou e o que acertou”, diz o estudante Guilherme Rizzo, 13.
A ferramenta também é usada para pesquisas de opinião com os alunos ou para medir o conhecimento deles sobre determinado assunto antes de começar a matéria.
A dica dos especialistas para saber se essas tecnologias realmente fazem diferença no ensino é questionar sobre como elas são aplicadas no dia a dia.
“Se a equipe pedagógica não tiver clareza de como usá-las, provavelmente os resultados não são assim tão maravilhosos”, diz a mestre em tecnologia Gabriela Eyng Possoli.

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Jogos eletrônicos tentam prender a atenção do aluno

Outro detalhe a ser levado em conta ao analisar as escolas são os softwares usados por elas, o que inclui programas de computador, jogos e livros didáticos digitais.
É preciso avaliar como tais programas são usados -por exemplo, a diferença na resolução de um problema na apostila e no computador.
Uma das formas que o São Luís, na região central, achou para complementar o ensino foi por meio de jogos educativos desenvolvidos pela própria escola, como o “batalha frutal”, mistura de batalha naval com tabuada.
Para ganhar o jogo, o aluno deve acertar as multiplicações. “Eles estudam em casa e depois jogam”, diz o coordenador do setor de tecnologia , Willian Ribeiro.
Softwares que permitem a construção de moléculas em 3D ou que facilitem a compreensão de formas geométricas são usados pelo Bandeirantes. Já o Augusto Laranja, na zona sul, tem uma biblioteca digital com cem títulos de obras clássicas.

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Colégios trocam caderno por tablet
Para especialistas, substituição é tendência e uso do recurso deve ir além da simples pesquisa

Caneta e papel ou tablet? O uso de ferramentas digitais no lugar de livros didáticos ainda está no início, mas já parece ser uma tendência. O 1 por 1, ou um computador por aluno, já é realidade em várias escolas de São Paulo.
Para os pais, ver os seus pequenos mexendo sozinhos com notebooks em casa chega a dar orgulho. Porém, na escola, só o uso das máquinas digitais não é suficiente.
Na escola bilíngue Cidade Jardim Playpen, na zona oeste, o uso misto de aulas tradicionais com o 1 por 1 começa logo no primeiro ano do ensino fundamental, com crianças de seis anos.
Lições iniciais de informática de como escrever o próprio nome em Word são aprendidas no netbook já na fase de alfabetização.
“As aulas com computadores começam cada vez mais cedo pois os alunos entram na escola com certo conhecimento adquirido em casa”, diz o professor de informática Cory Willis.
A escola planeja testar o uso de tablets no lugar dos cadernos em duas turmas do sexto ano em 2012.
Interagir com os aparelhos eletrônicos do século 21 desde cedo é uma tática defendida por Paulo Blikstein, da Escola de Educação da Universidade Stanford (EUA).
“Não tenho dúvida que o caminho é esse [1 por 1]. Se começar antes, melhor. Mas, se a escola não oferecer oportunidades para os alunos concretizarem suas ideias, a utilidade passa a ser apenas de pesquisa na internet”, pondera Blikstein.
Assim, os professores devem criar situações de interatividade e construção coletiva do conhecimento que vão além da busca no Google. Uma boa dica para verificar se isso ocorre é procurar conhecer criações de alunos da escola.

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frase

“A escola pública precisa suprir a necessidade dos alunos que não têm acesso à informática em casa”
CLEUZA REPULHO
secretária de Educação de São Bernardo do Campo

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Na Grande São Paulo, rede pública também investe no uso de netbooks

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O uso de computadores em aula não é privilégio dos alunos de escolas particulares da Grande São Paulo. Com programas e incentivos dos governos federal, estadual e municipais, colégios públicos da região também investem no sistema 1 por 1.
Em São Bernardo do Campo, a prefeitura distribuiu neste mês 15 mil netbooks entre as 69 escolas municipais de ensino fundamental. Os computadores são usados por cerca de 50 mil estudantes entre seis e 11 anos.
“O investimento [de cerca de R$ 15 milhões] visa diminuir o abismo entre o ensino público e o privado. Os alunos precisam estudar com material de ponta”, afirma a secretária municipal de Educação, Cleuza Repulho.
Na vizinha São Caetano do Sul, os 11 mil estudantes do fundamental contam com 7.000 netbooks. Ao se formarem, todos ganham a máquina que usaram no colégio.
As escolas municipais das duas cidades têm cobertura integral de internet sem fio.

UCA
Oito escolas da Grande SP participam do programa UCA (Um Computador por Aluno), do governo federal. Mais de 3.500 alunos e 226 professores receberam um netbook cada um. Na capital, foram beneficiados três colégios estaduais, além da Escola de Aplicação da USP.

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Estudante usa rede social para aprender
Escolas criam perfil próprio para compartilhar conteúdos ensinados

Com a tecnologia cada vez mais presente em seu cotidiano, as crianças fazem menos distinção entre amigos reais que moram na casa vizinha ou virtuais, que só conhecem pelo computador. Isso traz um desafio para as escolas: preparar os alunos para viver num mundo em que se desfazem as fronteiras entre on-line e off-line.
Nesse contexto, especialistas defendem que o trabalho dos educadores é ir contra posturas mais resistentes, que veem com reserva a adoção de redes sociais na escola, e usar criativamente plataformas como o Facebook.
“O pai precisa ter em mente que o papel da escola é a formação do jovem para viver no mundo contemporâneo”, diz o consultor do Centro de Estudos em Educação e Sociedade, Nelson Pretto.
Para André Meller, coordenador de comunicação e projetos do colégio Oswald de Andrade, na zona oeste, “o desafio é conseguir aproveitar o potencial de discussão e debate dessas ferramentas”.
Assim, a função da escola seria mais de mediação do que de controle das possibilidades da internet.
Para pôr em prática a ideia, o Oswald não proíbe o acesso a nenhum site em sua rede interna. Ao contrário, mantém blogs de professores e tem perfil no Twitter e no Facebook, usados para debate dos alunos na internet.
Os estudantes abraçam a ideia e também veem a iniciativa como uma forma de enriquecer o conteúdo ensinado em sala de aula.
“A gente acha muita coisa relacionada ao assunto e publica lá para os colegas verem também”, diz Joana Granjeiro, 15, aluna do primeiro ano. Sua colega Virgínia Crescenti, 15, concorda. “É uma ferramenta que faz parte da nossa época.”

MAIS QUE BATE-PAPO
O professor de português Luis Junqueira, da escola Castanheiras, em Santana de Parnaíba (Grande SP), destaca que o mais importante é “mostrar aos alunos as potencialidades que vão além do bate-papo e dos games”.
Junqueira também considera improdutivo o bloqueio de sites em escolas. “Proibir é colocar um muro na discussão, e a escola é o espaço para desenvolver relações sociais, que acontecem também pela internet.”
Ele destaca, porém, que os professores não podem perder de vista a função pedagógica de mostrar como tirar proveito das novas formas de interação que vão surgindo ao longo do tempo.
“É nosso dever mostrar aos alunos quando é melhor usar papel e lápis ou escrever num blog”, diz o professor.

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Alunos usam Twitter para criar microcontos em aula de português

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Papel e lápis ou computador com internet. Independentemente das ferramentas, o que não muda é o fato de que o desafio maior de fazer bom uso delas será sempre do professor.
Um exemplo dessa criatividade é o trabalho feito pelo professor de português Tiago Nero, do colégio Hugo Sarmento, na zona oeste. Desde 2009, ele usa o Twitter para publicar microcontos feitos por alunos do sétimo e do oitavo ano (veja textos acima).
Segundo ele, o que atrai os estudantes é o desafio de criar uma história completa com apenas 140 caracteres, limite para publicação de cada postagem no site.
“O objetivo é mostrar como uma ferramenta pode ser mais útil do que o que estamos acostumados a ver.”

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Aluno é o centro na sala high-tech
Em ambientes altamente tecnológicos, professores devem ser apenas mediadores das atividades sugeridas

Imagine uma sala de aula onde qualquer coisa pode ser feita com apenas um toque na tela de um tablet.
Futurístico demais? Não, em escolas de São Paulo a época do professor com um giz na mão em frente à lousa parece ter virado poeira.
Projetos de salas pilotos e ambientes de vanguarda em tecnologia podem ajudar a despertar o interesse e desenvolver as habilidades.
O colégio Dante Alighieri, na zona oeste, que completou cem anos neste ano, acaba de inaugurar sua primeira sala high-tech.
Automatizada, a sala possui lousa digital sensível ao toque, 32 computadores, bancada de solda para robótica, luzes nas mesas e no teto e paredes coloridas.
Duas vezes por semana, alunos de robótica colocam em prática técnicas de programação e criação de robôs. Enquanto “trabalham”, um professor do colégio faz a função de assistente.
“Me passa a fita isolante”, pede um aluno. “Onde está aquele leitor de luz novo para eu conectar ao meu robô?”, pergunta outro ao professor.
“O espaço foi pensado para os alunos interagirem o tempo todo com tecnologia. Muitas vezes, atuamos como espectadores, pois eles sabem muito mais do que nós”, disse Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia.
No Liceu Pasteur, o laboratório de informática passou por renovação. Teclados e mouses podem ser substituídos pelos dedos dos alunos, mas quem quiser tem opção de usar o modo tradicional.
Investimentos em espaços de tecnologia não está restrito aos colégios particulares. Em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, alunos e professores da rede municipal têm à disposição desde 2008 um centro digital, localizado no centro da cidade.
O ambiente é usado em aulas complementares, cursos de formação de professores e no desenvolvimento de conteúdos pedagógicos informatizados. Também conta com oficinas de robótica, tratamento de imagem e produção de jogos educativos.

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frases

“Precisamos projetar novos ambientes de ensino. As salas tradicionais já são história do século passado”
VALDENICE MINATEL
coordenadora de tecnologia do Dante Alighieri

“Aqui, o ato de criar é sempre o objetivo principal”
MARISTELA DE ALCÂNTARA
diretora do Centro Digital de São Caetano do Sul

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Projeto incentiva inovação com equipamento simples
Animações e fanzines são criados apenas com o uso de câmera e computador

Engana-se quem pensa que só com tecnologia de ponta alunos criam projetos que contam com grande dose de aprendizado e criatividade. Recursos avançados podem ajudar muito, mas mesmo com alguns mais simples é possível fazer a diferença.
Com equipamentos presentes em boa parte das escolas particulares, como computadores e câmeras fotográficas, alunos do nono ano da Escola Viva, na zona oeste, fizeram pequenas animações.
Durante o projeto, os adolescentes trabalharam na construção do enredo, que passa por discussões de cinema, filosofia e literatura.
Mas, se a montagem do roteiro é fundamental, a técnica de filmagem também é importante. “Já vimos filmes japoneses e alemães sem legenda, mesmo que muitos alunos não entendam, pois ela pode tirar o foco na hora de trabalhar noções de filmagem”, diz o professor de foto e vídeo Fernando Roque.
Nessa escola, porém, o uso de recursos tecnológicos não é comum nos primeiros anos do ensino fundamental. “Vemos essa questão com cuidado, pois pode ocorrer de um aluno criar um desenho fantástico no computador e ter dificuldade de usar uma tesoura”, diz a coordenadora pedagógica Silvia Viegas.
No colégio bilíngue Stance Dual, no centro, alunos do sétimo ano criaram um projeto com foco em cidadania. Eles pesquisaram sobre trabalho escravo e entrevistaram, via teleconferência, Michaela Alfred-Kamara, da ONG britânica Anti-Slavery International.
Mais inteirados do assunto, enviaram cerca de 20 cartas sobre o tema a dez empresas, nacionais e internacionais, e três delas responderam. A produção, em inglês, foi publicada em um fanzine virtual criado pelos alunos.

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frases

“A leitura [da legenda] pode tirar o foco na hora de trabalhar noções de filmagem”
FERNANDO ROQUE
professor da Escola Viva

“Medir a latitude com um aparelho é mais significativo para a aprendizagem”
FRANCISCO MERCADO
professor do Porto Seguro

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Tecnologia ajuda estudante também em aula externa

Embora haja boas produções sem muita tecnologia, nem por isso ela é dispensável. Tudo depende do trabalho a ser desenvolvido e de quais recursos são exigidos.
Alunos do colégio Visconde de Porto Seguro (unidade Morumbi, na zona oeste), por exemplo, foram a mangues e praias de Bertioga (no litoral paulista) pesquisar dados geográficos do local.
Para coletar as informações, eles utilizaram aparelhos de GPS, iPads e termômetros. Depois, em laboratório, analisaram o material recolhido. “Falar que a latitude é tal é uma coisa. Medi-la com um aparelho é mais significativo para a aprendizagem”, diz o professor de geografia Francisco Mercado.
Mas o projeto não para por aí. A escola promete criar um banco de dados virtual a que futuras turmas também terão acesso. “Queremos comparar os dados de um ano para o outro, pois as visitas a Bertioga são anuais”, afirma o professor.

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Uso consciente da internet deve ser ensinado em aula
Proibir o acesso a redes sociais, por exemplo, é deseducativo, diz especialista

Com o avanço da tecnologia e a presença cada vez maior das redes sociais, os pais ganharam um motivo a mais com que se preocupar: saber o que o filho faz na internet virou assunto sério.
Tão sério que as escolas perceberam a importância de dividir com os pais a responsabilidade de formar cidadãos não só no mundo real, mas também no virtual.
“Os pais precisam saber qual a concepção da escola sobre a internet. O laboratório e o acesso à web dizem pouco, porque podem ser limitados por uma censura que seja deseducativa, como a proibição de redes sociais”, orienta Claudemir Edson Viana, doutor em comunicação pela USP.
De acordo com Viana, essa posição em relação à internet faz diferença na educação. “É usando que se aprende o que se pode ou não fazer.”
A Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Arthur Azevedo, no Tatuapé, na zona leste, é um dos colégios da rede pública que implantaram a disciplina de informática educativa em sua grade curricular.
Nas aulas são abordados diversos assuntos, desde como os estudantes podem utilizar as ferramentas de pesquisa para auxiliar nos estudos até o uso consciente das redes sociais.
“Não proibimos o acesso. Fazemos a conscientização naturalmente, mostrando as diferenças das redes sociais e o que se pode publicar, além da questão de direitos autorais”, explica a professora Denise de Oliveira Nakano.
“Aprendemos que em todo lugar há regras, inclusive na internet”, afirma a aluna Aline Augusto, 14.
E o conteúdo não fica restrito aos estudantes. À noite, os pais participam de aulas de informática no colégio.
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DEPOIMENTO

“Levamos o debate ao Facebook, pois é mais eficiente”

Com base numa cartilha que orienta pais a protegerem filhos da pornografia virtual, Anne Beatrice Drewes, 16, teve uma ideia: criar com colegas do Porto Seguro um grupo para conscientizar crianças de dez a 14 anos e debater o assunto pelo Facebook. Leia o depoimento a seguir.

No ano passado, a professora de alemão pediu que fizéssemos uma apresentação oral com tema livre.
Fiz a minha sobre uma cartilha com orientações para os pais evitarem que seus filhos sofressem abuso sexual ao usarem a internet.
Escolhi o assunto porque quis dividir com meus colegas um projeto que achei bem interessante. A cartilha é da ONG Childhood, da qual meu pai faz parte.
Neste ano, com a ajuda de alguns colegas, tive a ideia de criar uma cartilha usando a linguagem das próprias crianças. Mas decidimos mudar o projeto.
Em vez de fazer uma cartilha, conversamos com as crianças em sala e debatemos o assunto pelo Facebook. É mais eficiente. Agora, queremos organizar uma semana com exibição de filmes sobre o tema.

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Jogos da vida

Games for Change, evento norte-americano que promove pesquisa e criação de jogos com engajamento social, será realizado no Brasil, pela 1ª vez, em dezembro
ALEXANDRE ORRICO
DE SÃO PAULO

Você acaba de chegar a Porto Príncipe, recém-destruída pelo terremoto de magnitude 7.0. Voluntário de rede de ajuda humanitária, você:
1) vai ao porto acertar a chegada de suprimentos?
2) procura um caminhão para distribuir mantimentos?
3) percorre a cidade para ver quem precisa de ajuda?
Esse é um dos cenários iniciais de Dentro do Terremoto do Haiti, um dos mais bem-sucedidos projetos do Games for Change, grupo internacional que usa jogos de computador para promover a conscientização social.
Criado nos EUA há oito anos, o G4C já ajudou a desenvolver 155 jogos em que educar é mais importante que matar alienígenas, marcar gols ou conquistar planetas.
É essa proposta que o grupo trará a São Paulo em dezembro, no primeiro evento de pesquisa de jogos do G4C realizado fora dos EUA. “Jogos poderosos são os que ensinam as pessoas”, diz Asi Burak, copresidente da ONG.
Games ambientados na fronteira dos EUA com o México para ensinar alunos sobre imigração ilegal e geografia ou um simulador de cidades, em que o jogador controla um presidente palestino e tem que lidar com o conflito no Oriente Médio são alguns dos exemplos de jogos desenvolvidos que ganharam prêmios do Games for Change.
O evento vem para o Brasil depois que Gilson Schwartz, professor da USP, apresentou ao G4C o game Conflitos Globais (conflitosglobais.com), que também funciona como uma plataforma educativa para salas de aula, com enredos baseados em histórias e locais do mundo real, como Afeganistão e Uganda.
“O Brasil é um país enorme, com uma cultura gamer forte. Vocês têm tudo o que é preciso: jogadores, programadores e empresas dispostas a investir” diz Michelle Byrd, copresidente do G4C.
Segundo Michelle, as redes sociais têm tido um papel importante na popularização dos games com viés social. “O Facebook está ajudando a derrubar a barreira que existe para jogos engajados”, diz.
A executiva credita à rede o crescimento em 50% do evento de 2010 a 2011 -cerca de 800 desenvolvedores participaram do congresso em julho em Nova York.
O festival tenta pegar carona nesse mercado, que tem cerca de US$ 20 bilhões por ano de receita, segundo dados da empresa NPD Group.
No Brasil, segundo dados da Fecomercio (Federação do Comércio) de São Paulo, o setor movimenta R$ 300 milhões ao ano e pode chegar a R$ 3 bilhões por ano até 2015.
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“O uso de jogos é uma tendência para estratégias de desenvolvimento em organizações globais, como o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas e o Banco Mundial”
MICHELLE BYRD
copresidente do Games for Change norte-americano
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GAMES FOR CHANGE
EM NÚMEROS

ANO DE CRIAÇÃO 2004
ÚLTIMA EDIÇÃO 20 a 22 de junho deste ano
PARTICIPANTES NA ÚLTIMA EDIÇÃO 800 pessoas, 50% a mais do que em 2010
GAMES CRIADOS 155
SITE www.gamesforchange.org
EDIÇÃO BRASILEIRA 5 a 10 de dezembro deste ano
SITE DA EDIÇÃO BRASILEIRA www.gamesforchange.org.br

JOGOS PREMIADOS
FATE OF THE WORLD
www.fateoftheworld.net
Jogo de estratégia em que você tem que salvar o mundo do caos ambiental.

EVOKE
www.urgentevoke.com
Em visual de quadrinhos, o game estimula o jogador a pensar em soluções para os problemas da África
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USP abrigará ‘Campus Party dos games’
Games for Change Brasil, em dezembro, será festival com palestras, workshops e acampamento dos participantes
Versão nacional do evento americano terá concurso de ideias e lançará jogos brasileiros
DE SÃO PAULO

“Será uma espécie de Campus Party dos games”, diz Gilson Schwartz, sobre a versão brasileira do Games for Change, que acontecerá no campus da Universidade de São Paulo, de 5 a 10 de dezembro.
Segundo Schwartz, professor da ECA-USP e diretor da rede Games for Change na América Latina, o evento “terá acampamento dos participantes, além de competições, workshops e palestras”.
Até dezembro, a G4C realiza uma série de encontros preparatórios, para, como afirma o diretor brasileiro, “começar a organizar as pessoas que se interessam por games e mudanças sociais”.
Serão ainda cinco encontros, quatro deles em São Paulo e um na Bahia, em novembro, durante o Simpósio Brasileiro de Game. A programação completa está no site gamesforchange.org.br.
Entre as iniciativas do G4C Brasil está um concurso sobre ideias de games. “É para quem não sabe programar, mas gosta do assunto. Quem sabe não dá para fazer parcerias entre programadores presentes e os donos dessas ideias?”, afirma Schwartz, ex-editorialista da Folha.
“Estamos participando do desenvolvimento de games que serão lançados ainda em 2011 e que envolvem conteúdos ligados a assuntos afro-brasileiros, a economia criativa, a trânsito e a cidadania na metrópole”, completa.
Segundo o diretor, já foram captados R$ 150 mil para a iniciativa nacional. Os parceiros do evento são a Fundação Volkswagen, a AMD Foundation e o consórcio europeu Pro-Ideal.
A cifra mostra como o evento ainda está engatinhando no país. Na Campus Party, só a palestra do ex-vice-presidente americano Al Gore custou mais de três vezes esse valor. Gore também participou da edição norte-americana do Games for Change neste ano.
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SAIBA MAIS
BRASIL TEM 35 MILHÕES DE ‘ATLETAS’

O Brasil é o quarto mercado de games, com 35 milhões de jogadores, segundo a consultoria especializada Newzoo. Os números da Abragames, que reúne desenvolvedores do setor, são maiores: cerca de 42% da população joga games.
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Títulos engajados mostram bons gráficos e enredos

DE SÃO PAULO

Desenvolver um jogo que ensine física ou um que detalhe um acontecimento histórico não é tão difícil.
O complicado é fazer com que o game não perca a principal característica que o torna atraente: a diversão.
Essa foi a questão que tentei responder ao testar alguns dos jogos desenvolvidos sob a batuta do G4C: games com viés social, podem, afinal, ser divertidos e capturar jogadores ‘hardcore’, acostumados com tramas complexas e gráficos impecáveis?
A resposta é mais sim do que não. Há muitos jogos que não conseguem incorporar as informações do “mundo real” mantendo boa dinâmica.
Food Force é um exemplo: os capítulos jogáveis são meras muletas para longas e tediosas apresentações sobre como a fome ainda mata mais do que a tuberculose e a aids.
Mas há ótimos exemplos, como o PeaceMaker, no qual o jogador vive o premiê israelense ou o presidente palestino e deve conseguir um acordo de paz. Os momentos de conflito, que surgem ao longo do enredo, são baseados em fatos reais, e a geografia da região é precisa.
Outro bom título é o belo e complexo LiveEarth, simulador virtual no qual o jogador pode levar o planeta ao desenvolvimento sustentável ou à catástrofe climática. (AO)

Folha de São Paulo, quarta-feira, 07 de setembro de 2011

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