Links Manuel Castells

Entrevistas e textos com Manuel Castells

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29/06/2013 – o globo – Manuel Castells: ‘O povo não vai se cansar de protestar’ por Mauricio Meireles

28/06/2013 – isto é – Manuel Castells: “Dilma é a primeira líder mundial a ouvir as ruas” por Daniela Mendes

12/06/2013 – revista galileu – O ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista por Alexandre Matias

12/06/2013 – correio do povo – Lições de Castells sobre indignação por Juremir Machado

10/06/2013 – terra – Não basta apenas criticar na internet, diz sociólogo Manuel Castells por Lucas Rohãn

03/06/2013 – folha – Não basta um manifesto nas redes sociais para mobilizar as pessoas por Roberto Dias

28/11/2012 – outras palavras – Castells vê “expansão do não-capitalismo” por Paul Mason

03/08/2012 – outras palavras – Castells quer tecer alternativas por Francisco Guaita, da RT-TV

18/07/2011 – outras palavras – Castells propõe outra democracia por Daniela Frabasile

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Entrevista com Marina

Agenda estratégica do país cabe nos 20 centavos, diz Marina
Por Daniela Chiaretti | De São Paulo (Valor)

 

“Nestes vinte centavos, que é o símbolo deste protesto, estão incluídos o hospital que não funciona, o problema da segurança e a falta de canais para que se saiba qual é a agenda estratégica do país”, diz Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e eventual candidata à Presidência da República pelo Rede Sustentabilidade.

Nos últimos dois anos, Marina deu 260 palestras que reuniram algo próximo a 170 mil pessoas, sendo que os jovens são metade deste público – 90% deles universitários, 10% secundaristas. Fala a eles sobre sua visão dos protestos que ganharam ruas no mundo – e agora no Brasil -, do novo sujeito político que está surgindo, do impacto transformador da internet em todos os setores. “Não sei porque as pessoas achavam que só a política ia ficar do mesmo jeito”, diz. Estes movimentos, acredita, são multicêntricos e podem ser o começo de um rearranjo no processo político. “Os antigos partidos políticos vão ter que se repensar.”

Marina sugere que recursos do petróleo sejam utilizados para melhorar o sistema de transporte público e a vida de milhões que vivem nas cidades. “Dizem que as passeatas estão impedindo as pessoas de ir e vir. Mas quem é que assegura o direito de ir e vir quando se fica uma hora no trânsito?”, rebate. A seguir, trechos da entrevista que concedeu ao Valor:

Valor: Agora, com a tarifa mais baixa, o que acontece?

Marina Silva: Venho dizendo há muito tempo que era só uma questão de tempo para que essas mobilizações virtuais transbordassem para o presencial.

Valor: Por quê?

Marina: Porque está surgindo um novo sujeito politico no mundo, e no Brasil não é diferente. Ele é uma característica deste tempo, que combina a grande quantidade de informação a que as pessoas têm acesso com a grande possibilidade de comunicação entre elas. E isso vai transformar a política. Todos os setores da sociedade estão sofrendo a influência da internet. Os negócios estão sendo transformados, os sistemas educativos, a produção de conhecimento, os meios de comunicação. Não sei por que as pessoas achavam que só a política ia ficar do mesmo jeito.

Valor: Qual é esse rearranjo?

Marina: As organizações políticas que temos surgiram a partir da revolução francesa e da revolução americana e nos trouxeram até aqui. Só que agora são insuficientes para responder aos 7 bilhões de seres humanos no planeta e ao surgimento da internet. Vai haver um novo rearranjo no que concerne à visão do processo político e ao processo em si, que não será mais verticalizado, mas cada vez mais horizontalizado. E no que concerne às estruturas, que terão que ter mais flexibilidade para comportar esta ação política baseada na mobilidade.

Valor: Como a senhora vê estes novos movimentos?

Marina: Neste momento temos uma crise econômica, social, ambiental, política e de valores, uma crise civilizatória. Estes movimentos não têm um centro único, são multicêntricos. E têm um núcleo estagnado. Há uma quantidade muito grande de pessoas que começam a sair desta estagnação e ir para a borda que está se movimentando.

Valor: O Brasil entrou na agenda deste processo global?

Marina: Sim. Desde 2009 venho falado sobre isso. Está surgindo um novo sujeito politico e um novo ativismo. E este ativismo não é mais dirigido pelo partido, pelo sindicato, pelas ONGs, pelas organizações estudantis e nem pelas lideranças carismáticas. Este novo ativismo é o que chamo de ativismo autoral. A diferença é que ele não tem centro, é multicêntrico Não tem lideranças fixas, as lideranças são móveis. Não tem aquela lógica de coluna, de porto seguro, de arco que empurra o movimento, como a gente tinha no ativismo dirigido, onde os partidos eram a coluna, o porto onde se ancoravam as mobilizações. A melhor metáfora para este ativismo autoral é o de uma âncora.

Valor: A senhora pode explicar melhor?

Marina: No porto você precisa estar atracado: tinha que estar ligado ao partido, ao sindicato, à central, à UNE (União Nacional dos Estudantes), à ONG ou à liderança carismática. No ativismo autoral, as pessoas têm âncoras. Estes movimentos têm várias bandeiras, mas há algo em estado de latência que é o desejo de melhorar a qualidade da representação política e o desejo de melhorar e ampliar a quantidade da participação. É o que chamo de democratizar a democracia.

Valor: Qual a liga destes movimentos?

Marina: Algo que os une é melhorar a representação e ampliar a participação. Mas cada um, como é livre, baixa a âncora ou levanta a âncora. Se está ou não concordando com aquela causa, vai à luta, vai à praça. Há uma liberdade, uma mobilidade. Não existe a velha forma do comando e se pode negociar pelo conjunto porque é um processo horizontal e com grande quantidade de pessoas. É por isso que há uma dificuldade grande dos que não conseguem perceber isso, de conversar com esses movimentos. Você não pode falar por um grupo achando que fala por todos. Nesta borda não tem centro, uma hora você é arco, outra hora é flecha; uma hora você lidera, outra hora é liderado. Neste momento me sinto liderada por este novo sujeito político e espero que se consiga fazer do Brasil a referência que poderia ser, de uma nova economia, que faça o deslocamento para modelos sustentáveis.

Valor: A redução da tarifa pode parar o movimento nas ruas?

Marina: Isso é algo que a gente precisa ver. Não são apenas os 20, 30 ou 40 centavos. O que está colocado é uma demanda por protagonismo político. As pessoas não querem mais continuar na posição em que foram colocadas pelos grandes partidos, que monopolizam a política. Não querem mais ficar como meros espectadores. Querem se reconectar com a potência da transformação política. Só que agora este novo sujeito político é autor, mobilizador e protagonista daquilo em que acredita.

“Não sei se o dinheiro do BNDES deveria ir para o JBS ou se poderia atender a outras demandas da sociedade”

Valor: O que as manifestações nas ruas estão dizendo?

Marina: Estão dizendo: vocês foram eleitos para me representar e estão nos substituindo, nós estamos retomando a prerrogativa de quem não está se sentindo legitimamente representado.

Valor: As pesquisas mostram que há um descontentamento com os partidos e com as instituições. Como a senhora, que tem o discurso da nova forma de fazer política, acredita que se canaliza este pessoal para a politica institucional, porque é ela que governa?

Marina: O que está acontecendo no mundo é o que chamo de democratizar a democracia. Temos que aprender que, em alguns momentos, em vez de ter uma reação reativa, pode-se ter uma reação de descontinuidade produtiva.

Valor: O que é isso?

Marina: É quando se introduz um freio a algumas práticas estagnadoras do processo de transformação – ao que significa mais do mesmo – e se começa a introduzir novos elementos que podem criar novas possibilidades.

Valor: Vivemos esse momento?

Marina: Não só o Brasil, é um momento do mundo. A borda quer se movimentar e questiona o centro estagnado, do poder pelo poder, o dinheiro pelo dinheiro. Na minha opinião há um desejo de se reconectar com a potência política. Qual o risco? A fragmentação, de não se conectar com a ideia de interesse coletivo. A fragmentação não levará a nada.

Valor: Como evitá-la?

Marina: Tem que encontrar a união na diversidade. Aprender a lidar com a ideia dos paradoxos. Isso pode ter uma força produtiva, criativa e livre para um novo boom civilizatório, que é o que espero que seja. A minha perspectiva é de longo prazo, de mantenedora de utopias. Estou vendo esta movimentação desde 1996, tenho percebido estas mudanças, tenho percebido que tem uma borda que está se descolando.

Valor: Isso já aconteceu antes?

Marina: Já vivemos isso em outros momentos da História. Existem aqueles que têm uma atitude arrogante e autoritária, de querer desqualificar ou assimilar. Estamos em processo de construção e desconstrução. Mas o processo politico é único, não existe repetição. Você se torna um conservador quando começa a querer administrar o sucesso na política. Quando quer transformar o ato criativo em uma fórmula e repetir esta fórmula para se manter no sucesso. A política é um ato único, produtivo, criativo e livre. E neste momento nós vivemos a beleza destes atos no mundo inteiro. E serão assim se imprimirem cada vez mais a cultura de paz, a ideia de interesse público, de interesse coletivo. No mundo inteiro as pessoas estão prospectando novas formas de realização para a democracia.

Valor: As demandas são muitas nas passeatas. Como evitar que termine em frustração?

Marina: Os jovens no Chile se mobilizaram e tiveram vitórias em relação às questões da educação. Ali surgiu um novo sujeito politico. Mesmo com tudo o que está acontecendo nos países da primavera árabe, não vai ser mais como antes. Essas movimentações têm algo que não pode ser medido no imediato.

Valor: Os protestos têm qualidade política?

Marina: No país do futebol, próximo à Copa do Mundo e em plena Copa das Confederações, as pessoas dizem claramente: “Queremos que o dinheiro do país seja investido em educação, em saúde, em segurança”. Isso é um avanço, tem qualidade política. Podem dizer: “Ah, mas vai passar e não vai dar em nada.” Talvez este novo sujeito politico tenha mais potência para as grandes transformações positivas do que tiveram as grandes mobilizações do ABC paulista que nos trouxeram até aqui, com os ganhos e as derrotas que tivemos. Porque os que eram transformadores e revolucionários, depois se tornaram conservadores. Esse novo sujeito político é desse tempo, da mesma forma que os sonhadores da década de 70, 80, 90 como foi o Lula, como foi o Florestan (Fernandes), como foi Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Marilena Chauí e tanta gente que foi a sustentação daqueles movimentos. E muita gente era conservador e ficava tentando reter a corrente de água, se colocavam contra. Mas existiram aqueles que contribuíram para que algo pudesse surgir.

Valor: Como se decifram este movimento?

Marina: Nesse momento, há necessidade de um olhar de aprendizagem, de desconstrução das nossas verdades e certezas, e de humildade. No século 21, com a internet, com a quebra da intermediação da informação, não é possível manter o monopólio da política. É preciso um novo arranjo em que os processos de tomada de decisão sejam mais flexíveis e horizontalizados.

Valor: Depois da tarifa de transporte ter baixado, o que sobra nestes movimentos no Brasil?

Marina: Não é o que sobra, é o que continua. Continuará com certeza a latência que está por trás do que levou milhares e milhares de pessoas às ruas. Elas não estão indo só pela tarifa, mas para dizer que não querem ser meros espectadores. Isso está acontecendo há algum tempo. As pessoas estão achando que podem continuar combinando em suas alcovas os interesses do país e os manifestantes estão dizendo que não querem mais estes segredos na República. É isso que está sendo dito.

Valor: Como dá liga com a política institucional que se tem hoje?

Marina: Infelizmente os partidos foram se tornando projetos de poder pelo poder, achando que estão no controle. Veja as pesquisas: 84% da população não queria mudanças no Código Florestal. Não se deu ouvido. Fizeram uma mobilização de 1,5 milhão de pessoas contra o Renan (Calheiros), não deram a mínima bola e até desqualificavam: “Isso é coisa no virtual, na internet, não vale”. E eu repetia: vai transbordar. Agora há que haver uma elaboração no acolhimento de tudo isso que está acontecendo. O Brasil é o lugar onde é possível que a força transformadora dessa borda que está aí se movimentando seja uma mutação e não uma ruptura abrupta.

“Transporte público não opõe quem tem dinheiro a quem não tem; todos estão ávidos por poder deixar o carro em casa”

Valor: O que é isso?

Marina: Uma mutação possibilitadora. Quando começamos o processo da Rede Sustentabilidade dizíamos que não é apenas um partido novo, é um novo partido que terá que ser horizontal, que não terá a velha fórmula estagnada e verticalizada e que tem que ser uma ferramenta para tentar contribuir com este novo sujeito politico que surge. Acho que os antigos partidos políticos vão ter que se repensar. Para mim, que estou há mais de 30 anos nesta borda, existe uma certa leveza.

Valor: Por quê?

Marina: Eu me sinto representada por esta borda que está se movimentando.

Valor: O que é ativismo móvel?

Marina: Não tem como ser paralisado, tem mobilidade. Vivemos um momento de agregação dispersiva, pessoas que vão se agregando em cima de ideais maiores e mais difusos. As pessoas querem ética na política, querem um mundo melhor. Isso possibilita uma agregação, mas que é dispersiva.

Valor: Por que dispersiva?

Marina: Porque ao estar integrados a estes grandes ideais, as pessoas se dispersam para as suas causas. E isso faz uma dispersão agregadora. Imantadas por este ideal as pessoas vão se agregando, uma em torno das outras. Eu pude ver esta agregação dispersiva e esta dispersão agregadora agora. Vejo no mundo inteiro e agora no Brasil.

Valor: Mas como tudo é muito espontâneo, há falta de controle e espaço para oportunismo e violência, que podem fazer tudo recuar.

Marina: Pois é. Mas esse é um processo que está em disputa para ganhar uma forma, que espero seja de uma cultura de paz. Este sujeito político novo está surgindo agora. O modelo que está aí estagnado levou 400 anos para ser o que é, e estão cobrando que este novo movimento já tenha as respostas? Os jovens, quando vão às praças na Espanha dizem “Nós ainda não temos respostas, mas já temos uma certeza: o que está aí não dá conta do nosso futuro”. Neste momento é preciso humildade de saber, como alguém já disse, que a verdade não está com nenhum de nós, mas entre nós. Todo organismo, para existir, precisa preservar algo. A democracia e suas instituições têm algo para ser preservado, mas têm algo para ser modificado. E não entender a necessidade dessa mudança é colocar em xeque as coisas boas que devem ser preservadas.

Valor: Os governos atenderam à demanda da tarifa. Como a senhora analisa esta atitude?

Marina: Temos que ter um aprendizado disso. Uma coisa é uma demanda objetiva que pode até ser atendida. Mas tem um tesouro muito maior para ser trabalhado, que é o que está em estado de latência. Se formos capazes de entender, todos nós, esta latência que está aí, vamos sair maiores e melhores para a democracia do que antes deste movimento aflorar. Alguém não se engane que vai dar os vinte centavos e “Pelo amor de Deus, saiam da rua, vão pra casa”, e isso está resolvido. Não é isso, pelo contrário. Tem uma riqueza enorme para ser trabalhada, porque este novo sujeito político é protagonista. É melhor procurar entender o que pode ser produzido a partir daí.

Valor: Como melhorar o transporte público em uma cidade como São Paulo? Com pedágio urbano? Esse tema opõe ricos e pobres?

Marina: Transporte público de qualidade não opõe quem tem dinheiro a quem não tem. Pelo contrário. As pessoas estão ávidas por poder deixar o carro na garagem e ir com segurança ao trabalho, ao parque, ao cinema. As pessoas sabem que em outros lugares do mundo isso acontece. Porque o imposto sobre petróleo não pode ser utilizado para melhorar o sistema de transporte? Porque este dinheiro não pode melhorar a vida das pessoas nas cidades? 84% das pessoas vivem em cidades. Não é uma demanda difusa, difícil de ser alcançada e poderia beneficiar milhões. Dizem que as passeatas estão impedindo as pessoas de ir e vir. Quem é que assegura o direito de ir e vir quando se fica uma hora no trânsito, porque em vez de botar dinheiro para transporte público se incentiva sem nenhuma contrapartida a indústria automobilística para encher cada vez mais as cidades de carros?

Valor: Nos últimos 10 anos a prioridade tem sido incluir pessoas no consumo, na cultura, em mais educação. Mas o Tesouro não é um buraco sem fundo…

Marina: Mas pode fazer escolhas estratégicas. Eu não sei se o dinheiro do BNDES deveria ir para a JBS ou se poderia ir para outras ações. Onde é feita a discussão? O orçamento público deve levar em conta as demandas da sociedade por bens e serviços que possam melhorar a qualidade de vida. É isso o que as pessoas estão dizendo. Nestes vinte centavos, que é o símbolo deste protesto, estão incluídos o hospital que não funciona, o problema da segurança e a falta de canais para que se saiba qual é a agenda estratégica do país. Porque se tem políticas de curto prazo só para alongar o prazo dos políticos? As pessoas estão dizendo: façam políticas de longo prazo em seus curtos prazos políticos. Não é o momento de se preocupar com as próximas eleições, mas com as próximas gerações.

Valor: Porque a senhora não está nestes protestos? Pensou em ir?

Marina: Eu estou nestes protestos. Eles estão em mim. Há muitos anos estou andando este Brasil inteiro, no ano passado dei 129 palestras e vejo que está surgindo este novo sujeito político. Agora, se vou no protesto, vou como mais um. Minha escolha de não estar ali é para não ter nenhuma atitude de instrumentalização ou seria incoerente com o que estou dizendo. Que este ativismo é autoral, que não é dirigido pelo partido, nem pelo sindicato nem pelos líderes carismáticos. As pessoas têm que parar de se iludir que existem salvadores da Pátria. Existem homens e mulheres que juntos se dispõem a construir a Pátria.

Valor: Nas manifestações se recolheram assinaturas para o Rede?

Marina: Não quisemos fazer isso por respeito a este ativismo autoral, estamos colhendo assinaturas nos espaços adequados. Seria uma contradição. Este partido não é para ter os movimentos a serviço dele, mas para contribuir com eles. Não pode ser goela abaixo.

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Leia mais em:

http://www.valor.com.br/politica/3169768/agenda-estrategica-do-pais-cabe-nos-20-centavos-diz-marina#ixzz2WtWKB3mB

 

 

Alguns links

Abaixo alguns textos, entrevistas e vídeos q podem ajudar a pensar sobre o q estamos vendo nas redes e nas ruas

Entrevistas e textos com Manuel Castells – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2013/06/30/links-manuel-castells/

Representações – Hermano Vianna – http://oglobo.globo.com/cultura/representacoes-8765603

Entrevista de Marina – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2013/06/21/entrevista-com-marina/

Gilberto Gil – http://oglobo.globo.com/pais/gilberto-gil-sobre-protestos-sera-volta-do-monstro-8749016

Quanto valem 20 centavos? – eliane brum – http://revistaepoca.globo.com//Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/quanto-valem-20-centavos.html

A hora e vez do Brasil (Página22) – http://www.pagina22.com.br/index.php/2013/06/a-hora-e-vez-do-brasil/

Grillo, uma mudança na gramática política- http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/1239797-grillo-revolucao-ou-bolha.shtml

Cidadania digital – redes de democracia colaborativa – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2011/10/19/cidadania-digital/

Cidadãos 365 dias por ano – http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,cidadaos-365-dias-por-ano,542532,0.htm

P2P: um projeto também para a Democracia? – http://outraspalavras.net/2013/04/16/p2p-um-projeto-tambem-para-a-democracia/

Alemanha: os Piratas querem chegar ao Parlamento – http://outraspalavras.net/outrasmidias/?p=12338

Pedro Abramovay “Wikidemocracia, a reforma política – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1506201107.htm

Mudar o mundo sem tomar o poder – entrevista com John Holloway – http://www.johnholloway.com.mx/2011/08/16/entrevista-caros-amigos/

#DemocraciayPunto es wikigobierno y wikilegislaciones, 1 de 4 mecanismos que hacen posible una verdadera democracia

sonháticos

07/02/2013 às 16h54 1
Rede social inspira nome de partido de Marina Silva
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Por Cristian Klein | Valor

SÃO PAULO – Uma agremiação que não seja batizada como partido, nem identificada por uma sigla. E que tenha a palavra rede no nome. Reunido desde o início da semana, em Brasília, o grupo liderado pela ex-ministra e presidenciável Marina Silva tenta achar uma marca e apresentar propostas que possam levar a legenda que está criando a representar uma novidade na política brasileira.

O acrônimo Semear (Sustentabilidade, Educação, Meio Ambiente, Ética e Renovação), preferido em votação recente pela internet, perdeu força. As opções agora são Rede, Brasil em Rede, Rede pela Sustentabilidade, Rede Verde e Lista Independente. O nome será decidido em plenária no dia 16, em Brasília, que está sendo organizada para aprovar também o estatuto e o programa partidário.

“Rede traduz a visão e a nova forma de partido que queremos”, afirma Pedro Ivo Batista, braço-direito de Marina Silva. A inspiração vem das novas formas de relacionamento, como as redes sociais, e da crítica ao “atraso organizativo na política brasileira”. “Há uma mudança de padrões em diversos setores da sociedade, mas a estrutura partidária hoje é muito rígida, com políticos profissionais e burocracia fechada”, acrescenta Batista.

Algumas inovações já estão incorporadas na minuta do estatuto. O partido não terá um presidente, e sim dois porta-vozes, um homem e uma mulher, como no Partido Verde sueco. Cerca de 20% a 30% das funções de direção serão reservadas para “pessoas independentes”, sem filiação ao partido, mas com direito a voto.

O objetivo é criar uma prática política diferente, mesmo que a legenda precise atender a aspectos legais. “O PT, quando nasceu, formalizava determinadas decisões, como exige a legislação, nas convenções, mas o processo se dava nos núcleos e nos encontros”, afirma Batista, um ex-petista, como Marina Silva.

Episódio que reflete o ativismo político procurado pelos “marineiros” foi o movimento surgido na internet, no fim do ano passado, no qual centenas de usuários do Facebook passaram a adotar o termo Guarani-Kaiowá como sobrenome, em apoio aos índios que travavam um conflito com fazendeiros do Mato Grosso do Sul. É a “política 2.0”, que, na opinião do grupo, deverá alterar “totalmente” a democracia representativa, em virtude da universalização da banda larga e da relação cada vez mais direta dos cidadãos pelas redes sociais.

“Não havia partido, nem sindicato por trás disso. Ninguém sabe quem organizou, mas o movimento se alastrou rapidamente em rede. É nisso que queremos apostar. O papel da liderança hoje é cada vez mais criativo, autoral, diluído”, diz o assessor político, para quem há uma “revolução cognitiva” em andamento.

A liderança de Marina Silva, afirma Batista, não será personalizada. Mas o grupo sabe dos riscos de que possa haver uma oligarquização em torno dos líderes e, por isso mesmo, estuda-se uma cláusula de extinção do partido num determinado prazo. “Mais importante que o partido é a causa. O partido não deve servir para ninguém se autodefender, para um projeto pessoal de liderança”, diz.

Entre as maiores inspirações do grupo, cita o assessor político, estão as novas tecnologias e os movimentos sociais e de protestos como a Primavera Árabe (na África e no Oriente Médio), o Occupy Wall Street (em Nova York), os “Indignados” da Espanha, e os estatutos de partidos como o Québec Solidário, do Canadá, o Partido Pirata alemão e o Partido X-Partido do Futuro espanhol.

(Cristian Klein/Valor)

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/politica/3000000/rede-social-inspira-nome-de-partido-de-marina-silva#ixzz2KJAAtwsr

polêmica entre Emiliano e Risério

Sáb , 10/11/2012 – A Tarde
Esquecendo eleições
Antonio Risério

Despachei e-mail para meu querido amigo Caetano Veloso: pela primeira vez, depois de anos, fechamos numa eleição com os mesmos candidatos: Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, Fernando Haddad em São Paulo, Neto em Salvador. Afora isso, vibrei com a virada de Fruet em Curitiba (tinha inclusive feito uns trabalhos de pré-campanha para ele, com Giovanni Soares, no ano passado).
Na verdade, torci total pela vitória de Freixo, chama inovadora na velha paisagem político-eleitoral do Rio. Fui para São Paulo mergulhar de corpo e alma na campanha de Haddad, figura que, como a nossa hoje presidente Dilma, conheci em 2006 na campanha da reeleição de Lula. E defendi que a vitória de Neto seria melhor para a nossa cidade do que a de Pelegrino, sujeito mentalmente limitado, incapaz até de voos rasteiros. Há tempos não concordávamos assim, eleitoralmente, eu e o poeta-pensador. Conversávamos sobre eleições, mas geralmente em posições diversas.
Mas não quero fazer análises, me concentrar em papos enviesados (depois do resultado nas urnas, é fácil fazer interpretações, mas deixo isso para jornalistas e professores universitários), nem nadar em ressacas pós-eleitorais. Mas algumas coisas merecem ressalte. Por exemplo: em São Paulo, apresentamos e defendemos abertamente um candidato. Mostrando seus feitos, suas virtudes, suas propostas – contra um José Serra em avançado estágio de autodeterioração política e ideológica, usando sucessivas máscaras reacionárias, mentindo para si e para toda a população. Em suma: ostentamos Haddad, vistosamente.
Na Bahia, ao contrário, até tentavam me esconder Pelegrino. Com o seguinte papo: o voto não é no candidato – é no “projeto”. Em que projeto, pelo amor de Deus? Até o projeto nacional de Lula foi construído, em grande medida, contra a falta de senso, de realidade, contra a falta de projeto do próprio PT. E o PT precisa aprender isso. Não pode falar de “projeto” porque não o tem, globalmente, como partido. Haddad vai governar, inclusive, contra a intolerância e o sectarismo petistas, tendo de enfrentar a nefasta “tradição” do corporativismo, em áreas fundamentais como as da educação e da saúde pública. Ou seja: em vez de esconder o candidato atrás de um “projeto”, trata-se, na verdade, de exibir o candidato para ocultar as graves e grandes deficiências do “projeto”, ok?
Outra coisa: não me venham com a conversa fiada de retorno do carlismo. Não existe carlismo sem Antonio Carlos (carlismo só existe na fantasia das viúvas políticas de ACM, sejam elas de direita ou de esquerda, ambas ressentidas e revanchistas, sem saber pensar se lhes tirarem o velho do caminho e da cabeça). E, se existisse sem Antonio Carlos, o carlismo já teria voltado há tempos. Graças ao PT local, claro. Com Otto Alencar no papel de guru e vice-governador, com César Borges na função de aliado preferencial, com carlistas ocupando cargos de comando no governo estadual, com Sergio Carneiro (sim: carlista desde criancinha – e acusado de coisas corruptas no governo do pai João Durval) se destacando entre os quadros petistas. Mais, como bem viu Paulo Fábio: com Wagner aplicando a “gramática do carlismo” para assegurar sua hegemonia baiana. E não existe carlismo, ainda, porque – como bem sabem antropólogos, travestis, internautas e vendedores de cafezinho – neto não é avô.
Bem. O que espero de Neto é que ele não se olhe menos em Luís Eduardo (homo politicus) do que em Antonio Carlos, que pare de posar de “protagonista da CPI do mensalão”, não pise na bola das trocas de favores e se abra de fato para o diálogo crítico sobre a cidade. Espero, principalmente, que ele cumpra o que está prometendo a si mesmo, como já disse em entrevistas: pensar o futuro da cidade, de forma plural, sem boçalidade, numa conversa séria. E é o seguinte. Salvador está caindo aos pedaços. Tem de reconfigurar a sua expansão urbana, reativar a sua memória, diminuir distâncias sociais, recuperar a sua criatividade e reconquistar o seu lugar na vida brasileira. Quem não vir isso, não será prefeito.

———–

Qua , 14/11/2012 – A Tarde
Pensando em política
Emiliano José

A política reduzida a indivíduos. O fim de projetos políticos. A separação estanque do passado com o presente. A desqualificação gratuita e sem fundamento deumpolítico que pautou sua vida em defesa da população baiana, especialmente dos mais pobres, e que acaba de ser votado por quase a metade da população de Salvador, embora tenha perdido as eleições. Este o resumo do artigo de Risério, em que aborda eleições. Risério adora a polêmica, e muitas vezes os que pensam diferente dele deixam suas opiniões passar batido, como costuma dizer o povo. Nesse caso, não acredito seja positivo silenciar. Recorro a Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim”…
Será que dá mesmo para misturar Freixo, ACM Neto e Fernando Haddad como se fossem a mesma coisa? Como se não houvesse diferenças entre eles? Será possível pensar que votar nesses três significa coerência? Por menos que pretenda Risério, são projetos distintos. Projetos diversos de País, de concepção da política, e num caso ao menos, o de ACMNeto, de concepções distintas de mundo. Este último, por obviedade, é um homem de direita, tem concepções de direita, seu partido, hoje e ontem, é de direita. Como misturar um político que encarna esse projeto com dois que são de esquerda, embora diferentes entre si, e com visões diferentes de Brasil? Quem tenha acompanhado pouco que seja a atuação de ACM Neto na Câmara Federal, há de louvar sua coerência de político conservador, nitidamente neoliberal, e nisso nunca vacilou.
Como sustentar que o PT não tem projeto? Chega a ser irresponsabilidade, pobreza teórica, ausência de conhecimento, incapacidade de acompanhar a história recente do País, afirmar uma coisa dessas. Não me altere o samba tanto assim. Risério não sabe nada do PT. Foi esse partido, tão atacado, que conseguiu eleger Lula em 2002, ao convencer o nosso povo, em sucessivas eleições, que era preciso mudar o Brasil. E conseguimos. Não apenas vencer três eleições, mas mudar o Brasil, e só o fizemos porque temos projeto. Se Lula é um desses seres raros, de uma capacidade política única, a maior liderança de todos os tempos no Brasil, não é um político solitário, muito ao contrário. Sabe, nunca se esqueceu disso, que sua vida está intimamente vinculada ao PT, a um projeto político construído coletivamente, até hoje.
Qual o projeto político do DEM? É claro, não tergiversa. A favor de tudo aquilo que, por exemplo, foi feito durante os oito anos de governo neoliberal, entre 1994 e 2002: privatização selvagem, endividamento suicida, submissão completa ao FMI, diminuição do poder do Estado, precarização dos serviços públicos, contra quaisquer políticas que possam melhorar a vida dos mais pobres, contra a política de cotas, mesmo que eventualmente, durante as eleições, queiram mascarar suas posições. Não há como negar que o DEM insurgiu-se contra a política de cotas, inclusive indo ao STF para tentar barrá-la. As posições do DEM estão na cena brasileira, em minoria, mas uma posição, um projeto político defendido por ACM Neto. Que ganhou as eleições em Salvador. O projeto que ele defende ganhou, e isso é parte da vida democrática, e quem quer que conheça o projeto do PT saberá que nunca houve qualquer vacilação do partido com relação à democracia, desde o seu nascedouro.
Por tudo isso, não é possível aceitar que vinho e água sejam a mesma coisa, que direita e esquerda se equivalem, ou que o PT não tenha projeto. Mais: Pelegrino, por sua história, por sua militância, por seus compromissos com as melhores causas do povo do Brasil, da Bahia e de Salvador, pelas responsabilidades políticas que assumiu na Câmara Federal, no governo da Bahia, sem que nada o maculasse, não merece ser tratado da maneira como o fez Risério, com tanta agressividade e desrespeito. Perder uma eleição é da vida política. A cidade se dividiu, paciência. Pelegrino seguirá em frente, defendendo o projeto político que apresentou. Estará sempre a favor de Salvador, com a serenidade de quem sempre defendeu a democracia, parte inseparável de sua trajetória.

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Qui , 15/11/2012 – A Tarde
Lembranças que importam
Antonio Risério

Entendo que o jornalista e escritor Emiliano José, em sua ainda condição ou função comissarial, tenha se visto na obrigação de assumir as dores de Nelson Pelegrino, candidato derrotado à Prefeitura de Salvador. Tudo bem. Mas nem por isso precisava falsificar o artigo que escrevi e publiquei aqui.
Porque é realmente escandalosa a diferença entre o que eu escrevi e o que Emiliano José leu. O lance é distorcer para poder contestar? Não, meu caro. Veja o que você acha que eu disse: “O fim de projetos políticos. A separação estanque do passado com o presente. A desqualificação gratuita de um político que pautou sua vida em defesa da população baiana… Será que dá mesmo para misturar Freixo, ACM Neto e Fernando Haddad como se fossem a mesma coisa?”.
Primeiro, não leve para o plural o que coloquei no singular. Não falei em “fim de projetos políticos” pelo simples motivo de que não acredito nisso. Projetos políticos existem desde tempos paleontológicos. E vão existir sempre. Aprendemos essa lição com Aristóteles, ok? O que falei foi específico: a crise projetual do PT. Se você quer discutir com seriedade, discuta isso. E comece pelas leituras de André Singer (o autor de Os Sentidos do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador) e Tales Ab’Saber, em Lulismo: Carisma Pop e Cultura Anticrítica.
Segundo: Pelegrino, no Congresso, não fez nada de importante para Salvador. Seus projetos foram em boa parte recusados. E ele ainda quis inventar uma esdrúxula Universidade da Região Metropolitana de Salvador. Quando Mário Kertész ainda estava na dúvida se seria ou não candidato, encomendei a uma especialista no assunto (a melhor que temos hoje no Brasil: Susi Aissa) um levantamento completo – estatístico e analítico – do desempenho de Pelegrino como deputado. Ela ficou chocada. Pelegrino não tinha feito nada. Passou em brancas nuvens seus muitos anos de deputado. Portanto, Emiliano, não minta. Não venha dizer que o bobão que vocês inventaram passou a vida lutando em defesa do povo de Salvador.
Em momento algum escrevi que era possível “misturar” Freixo, Neto e Haddad. São pessoas e personalidades completamente distintas. Tanto que, se Pelegrino tivesse sido o candidato do PT em São Paulo, eu teria votado em Serra. Mas a discussão não é essa, Emiliano, e você deveria saber isso. A discussão é: por que tanta gente (incluindo artistas e intelectuais) hoje, no Brasil, se dispõe a votar em candidatos de partidos diferentes entre si (para o PSOL, Emiliano, vocês do PT estão quase na direita)? Qualquer análise séria tem de começar por aqui, pela crise do partidocratismo tristetropical.
Aliás, podemos levantar aqui outra discussão, meu caro. Sobre pessoas na política. A psicanálise e o existencialismo acabaram com qualquer ingenuidade “holística” sobre o tema. E Adam Przeworski está certo quando diz que o marxismo é uma teoria da história que não foi capaz de elaborar uma teoria das ações das pessoas que fazem esta mesma história. E sempre será insatisfatória, na minha modesta opinião, qualquer teoria da história que seja incapaz de dar conta da ação dos indivíduos.
Mas, enfim, acho que realmente não sei nada do PT. Apenas por acaso participei de 2002, quando meu amigo Palocci discutiu, com os redatores da campanha, os termos da hoje célebre “Carta aos Brasileiros”. Ah, e Dilma não era do PT, mas do PDT de Brizola e Darcy (preencheu a ficha petista para poder fazer o que ainda está fazendo: ao se mover assim, Dilma prega “o fim dos projetos políticos”?). Por fim, Emiliano, deixe Paulinho da Viola em paz. Ele é claro, limpo e lógico. Belo e profundo exemplo de conservador, no campo estético.
Pelegrino, ao contrário, não é belo, nem profundo, nem exemplo. Muito menos exemplo, para dizer a verdade. Quanto a dizer que ele teve quase a metade dos votos da população de Salvador, pense no seguinte: foi esta mesmíssima população que elegeu, por duas vezes!, o atual desprefeito João Henrique. Respeitemos o voto, sim. Mas sem manipular as coisas, nem reverenciar a burrice.

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Dom , 18/11/2012 – A Tarde
De demônios e política
Emiliano José

O escritor Antonio Risério sabe que o discurso é traiçoeiro. Sempre deixa o autor totalmente exposto, nu. Este, o incauto autor, é prisioneiro de suas palavras, que o revelam para além de seus desejos conscientes. Insisto: Risério não considera projetos políticos, ao menos no caso brasileiro, onde vive. Quando diz que se estivesse em São Paulo, e o demônio que ele elegeu como preferido – Pelegrino – fosse candidato, tranquilamente votaria em Serra.
Com isso, esclarece que não se importa com programas, ideias, propostas. Não importa que Serra seja contra os homossexuais, contra os direitos das mulheres, que seja um político do medievo trevoso, intérprete da direita brasileira, felizmente derrotado. A Risério, não importa projeto político. Mais vale o seu olhar sobre cada personalidade, quem sabe o gosto individual, do que projetos políticos, e na formulação sobre Serra novamente deixou-se trair, tanto quanto o fizera no primeiro texto de ataque ao demônio que o aflige.
Reafirmo, sem elevar o tom como o fez Risério no último artigo, que, ao refutá-lo o fiz com base em seu pensamento. Sempre recebo bem indicações bibliográficas, quanto mais vindas de Risério, que sei um sujeito lido. As feitas no último artigo, no entanto, são dispensáveis, porque sobejamente conhecidas. Conheço André Singer e seu pensamento – ainda na semana que passou estávamos reunidos em São Paulo, no Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.
Quanto a Adam Przeworski e seu Capitalismo e Democracia, não há nele qualquer desmentido da essencialidade dos projetos políticos. Em nenhum momento, aí sim, leu-se uma palavra minha que dissesse que os indivíduos não têm qualquer papel na história. Em tempos pregressos, Risério leu Plekhanov, leu Marx, e compreendeu que o homem faz a história, mas a faz em determinadas circunstâncias objetivas, como aliás o diz Maria Hermínia Tavares de Almeida, no prefácio ao livro de Przeworski. Freud e Sartre, com suas notáveis contribuições, concentraram seus esforços na análise dos indivíduos, disso poucos não têm conhecimento.
Ninguém é capaz de negar que os partidos, não apenas hoje, sofrem transformações contínuas, e o PT não é diferente. O que está em causa é o fato de o partido ser liderança de um projeto político, na última década, que mudou e está mudando o Brasil, a vida dos pobres especialmente, nunca desconhecendo que o faz ao lado de outros partidos de esquerda e de centro. As três eleições de Lula e Dilma não são expressões apenas das inegáveis capacidades dos dois, mas, sobretudo, e especialmente, do projeto político que encarnam, que o PT soube elaborar, cultivar, defender, e seguir em frente, como o faz hoje. A população brasileira, malgrado nossos erros, continua a dar apoio ao nosso partido, e as recentes eleições municipais são uma prova disso.
Quando elegemos um demônio, e o abrigamos na alma, ele tolda a nossa mente. Passamos a atacá-lo cegamente e nos tornamos escravos dele. Não conheço Susi Aissa. Não quero avaliá-la. No caso citado, ela errou clamorosamente, pois, sem me alongar porque a história de Pelegrino é riquíssima quanto às contribuições que deu ao povo da Bahia, lembro que é o parlamentar com maior número de emendas orçamentárias executadas e em execução em Salvador e que em 2011 foi eleito, pela terceira vez em quatro mandatos, um dos cem parlamentares mais influentes do Congresso Nacional pelo Diap.
Insisto com Paulinho da Viola, de cuja obra musical sou profundo admirador, sem querer contrariar Risério que entende muito mais de música do que eu. “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim”. Quando um demônio nos toma, ou quando o construímos, é melhor tomar muito cuidado para que, ao exagerar tanto, não fiquemos refém dele. E é sempre aconselhável procurar as razões mais de fundo pelas quais o atacamos com tanta insistência. Isso é Freud, como Risério sabe. Ou pode ser Jung, também, até mais próximo dos demônios do que Freud, ambos, no entanto, íntimos da alma humana, tão imperscrutável. Salvo melhor juízo, ponto final. O leitor já compreendeu nossas diferenças.

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fonte http://atarde.uol.com.br/materias/1467644

Espiritismo no Brasil

Como a doutrina de Kardec ganhou o Brasil
04/11/2012 – Folha de S. Paulo

VALDO CRUZ
EM SÃO PAULO
Uma das religiões mais populares do Brasil surgiu da curiosidade científica do francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, no século 19, quando a fé cega na Igreja Católica vinha sendo questionada pelo racionalismo. Em sua busca pela verdade a partir de fenômenos mediúnicos, Rivail (1804-69) lançou as bases do espiritismo –misto de filosofia, ciência e religião cujos princípios ele formulou nos cinco livros publicados por Alan Kardec.

Mais do que um “nom de plume”, esse foi o nome do intelectual francês numa de suas vidas passadas, conforme lhe revelaram espíritos que o auxiliaram na tarefa.

Poucas religiões têm relação tão forte com os livros e a leitura, mas ainda não havia no país uma introdução ao universo espírita escrita e voltada para leigos. Foi o que fez o sociólogo paulista Reginaldo Prandi em “Os Mortos e os Vivos” [Três Estrelas, 116 págs., R$ 25], no qual descreve a história e os princípios da doutrina fundada por Kardec e sua difusão no Brasil.

Para o autor, o espiritismo ganha força por aqui porque o Brasil é uma civilização com “contato com o transe”, sobretudo nas religiões afro e indígenas. Prandi ressalta ainda que havia uma intelectualidade que queria se “libertar da dominação católica”.

Hoje, de acordo com o Censo de 2010, 2% dos brasileiros, ou 4 milhões de pessoas, se declaram espíritas –crescimento de 35% em relação a 2000. Entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, os espíritas são 20%.

O professor sênior da USP classifica o espiritismo de religião “discreta”, avessa à “propaganda”. Ateu, Prandi é um estudioso das religiões brasileiras, sobretudo as de origem africana. “Os Mortos e os Vivos”, no entanto, marca o retorno a um tema que pesquisou no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), quando ainda se formava em ciências sociais, na virada dos anos 1970.

Nesta entrevista, concedida em sua casa, no bairro paulistano de Vila Mariana, às vésperas do feriado de Finados, ele comenta temas do livro e a morte recente de Flávio Pierucci, parceiro de pesquisas cujos escritos inéditos Prandi organiza para publicação.

Na segunda parte da conversa, mais pessoal, disponível em folha.com/ilustrissima, o sociólogo rememora sua formação e os debates em torno da criação do Datafolha, que ajudou a desenvolver.

“Meu Deus do céu, sou mais ateu do que pensava”, disse Prandi, ao relembrar o infarto que sofreu em 2007, experiência que reforçou seu ateísmo. Ele também recordou seus primeiros contatos com o espiritismo, aos dez anos, quando assistia a sessões espíritas na casa do avô, em Potirendaba (SP), tendo presenciado cenas de “materialização”.

“Era uma coisa bonita”, contou. “De repente um corpo começava a se formar. Começava a sair um filete de luz do ouvido, do nariz, às vezes da palma da mão.”

 

Folha — Depois de anos se dedicando às religiões afro-brasileiras, por que se voltou agora ao espiritismo?
Reginaldo Prandi — Já fiz um monte de coisa, sobre candomblé, umbanda, catolicismo, literatura infantil sobre mitologia, mas nunca tinha escrito sobre a primeira religião que estudei, o espiritismo. Sempre houve referência, mas nada específico. Tive de fazer pesquisa para me atualizar. Mas tenho uma orientanda, Célia Ribas, que trabalha com espiritismo, o que me colocou em contato com a bibliografia mais recente. É uma religião muito pouco estudada.

O livro é uma espécie de reparação de uma dívida que eu tinha para com a minha formação, com o objeto de pesquisa que me abriu as portas da pesquisa em sociologia, no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), na virada dos anos 1960 para o 70. Mas nunca tinha escrito um livro sobre o tema. Só coisas pequenas, mas não um livro meu, para marcar no currículo. Por isso, topei o convite feito pelo Alcino [Leite Neto, editor da Três Estrelas] e fiz.

Quem ler o seu livro vai ter mais propensão a conhecer de perto o espiritismo ou a se afastar dele?
Não é um livro nem de defesa nem de acusação, é um livro objetivo. Essa é a prática de um sociólogo, naturalmente. Se o espírita lê, vai ter uma certa identificação com o livro. Mas quem não for espírita e o ler, também vai ter uma posição de concordar com o livro. Ele não assume nenhuma posição.

No primeiro capítulo, procuro mostrar rapidamente que a questão da religião é algo muito pessoal, dos seguidores, a respeito da alma, da reencarnação. Ser de determinada religião é escolher entre essas diferentes posições.

Fica claro, no primeiro capítulo, que o tratamento dos mortos é diferenciado, tem religião que deixa o morto descansar, tem religião que dá trabalhos para os mortos fazerem. No segundo capítulo, que é uma história preliminar ao surgimento de [Alan] Kardec, mostro o fenômeno das irmãs Fox [célebre caso de mediunidade nos EUA, em 1848]. Depois elas renegam o espiritismo, mas eu mostro que, antes de morrer, vão admitir aquilo.

Arthur Conan Doyle relatou o caso das irmãs Fox. Como foi a atuação do criador de Sherlock Holmes como divulgador do espiritualismo?
Todos os trechos citados são dele, é do livro dele. Isso foi feito de propósito. Pego o Conan Doyle porque a gente sabe que ele inventava histórias maravilhosas. Mas pego uma história verdadeira, importante, todo espírita sabe das irmãs Fox. Até hoje, quem não é espírita faz essas brincadeiras de comunicação com os espíritos, por copos, mesas. Com Conan Doyle, quero mostrar que, na verdade, isso era mais uma atividade cultural do que propriamente religiosa.

O espiritismo era uma moda, praticada pelas mais diversas pessoas, católicos, evangélicos, gente que não tinha religião. Aí veio o Kardec, numa terceira etapa. Além de acreditar na comunicação dos espíritos, que é a noção básica do espiritualismo, ele acredita na reencarnação. O espiritismo muda, a reencarnação passa a ser parte necessária da doutrina, coisa que não existe no espiritualismo anterior. Mas mantém a ideia que não é necessariamente uma religião, mas pode ser estudado por meio de práticas objetivas da ciência.

Trata-se de uma fé raciocinada?
Sim, porque tem muito do racionalismo da época. Nasceu de uma época em que a questão do dogma, da fé cega, isso tudo estava sendo questionado. Kardec apostou na ideia de que a verdade viria por meio da investigação, de que a ciência moderna –que ele não abandonava, era um pedagogo, um acadêmico– tinha um problema: havia deixado de lado alguns objetos com os quais não tinha instrumentos para trabalhar.

Um deles estava ligado ao espírito, à reencarnação. Ele dizia ser necessário reconstruir a ciência de tal modo que houvesse uma nova ciência, que incorporasse o espírito dentro dos estudos objetivos, o que inclui toda a parte material e a não material do mundo. Tanto é que ele vai dizer que não existe separação de matéria e espírito.

Muito antes de surgir a ideia contemporânea de Nova Era, “new age”, de mundo holístico, já havia essa visão do Kardec de que o mundo material não se separa do espírito. O mundo dos vivos não se separa do mundo dos mortos. São etapas de um mesmo caminho. Na verdade, é apenas um processo de refinamento espiritual, que intermediava: você tem esta vida na terra, que na verdade é apenas um passo de uma longa caminhada.

Só que ele não queria ser visto como religião, dizia que isso tinha de ser visto, investigado, aprofundado. Agora, é claro que ele dizia que a religião tem seus dogmas. O primeiro é que há vários mundos. Isso não está em questão para ele. Há uma transmigração da alma por esses mundos todos. A partir daí ele trata de investigar.

Por que o espiritismo encontrou terreno tão fértil no Brasil?
A gente não sabe direito, não é possível saber ao certo, mas temos algumas ideias. Ele vem para o Brasil, civilização que já tem muito contato com o transe. O Brasil tem a religião majoritária, dominante, que é o catolicismo, europeu, branco, mas também tem uma grande contribuição na formação da cultura nacional das religiões africanas, das noções de transe, de incorporação, de reencarnação.

Quando o espiritismo se constitui, no Rio de Janeiro e na Bahia, você já tem ali todas as religiões afro-brasileiras funcionando a todo vapor e toda a tradição indígena, dos pajés, da pajelança, do xamanismo, a ideia de que os espíritos ajudam. De um lado você tem isso. De outro, tem uma intelectualidade que quer se libertar da dominação católica.

Deseja continuar religiosa, mas sem se prender a dogmas?
Não diria nem a dogmas, sobretudo à autoridade do padre, do bispo, da paróquia, porque ela não domina só o mundo da religião, mas também o político.

Vem daí a adoção do espiritismo pela classe média?
Sem dúvida, até hoje isso é absolutamente correto, os dados mostram isso. Embora o kardecismo tenha se transformado numa religião, ele não perde aquela ideia de que você tem de estudar, tem de pesquisar, ler. Ninguém lê mais que o espírita. Você não se transforma num espírita praticante indo só às sessões, você tem de ler, tem de ter toda uma formação letrada, que é praticamente parte do perfil do bom espírita, do praticante. Você tem de ser primeiro alfabetizado, ter acesso a esse bem que, no Brasil, é um bem de pouco acesso, que é o livro. Você tem de ter gosto pela leitura. São coisas de classe média. Pode ter também aquele que é só cliente, e não praticante, vai lá para curar algo.

A morte de Flávio Pierucci, neste ano, provocou em você algum sentimento religioso?
O Flávio sempre foi um parceiro importante, fizemos muitas coisas juntos, política universitária. Vou pegar o que ele escreveu, o que estava inédito, e começar a organizar para publicar.

Fiquei trabalhando o dia inteiro com o Ricardo Mariano, especialista em evangélicos que era o principal discípulo do Flávio em termos de teoria. Já estávamos pensando em organizar, pegar uma parte do material do Flávio e fazer um livro sobre um assunto a respeito do qual não havia nenhum livro publicado, mas artigos em revistas. Vamos organizar isso.

Quando meu grande professor, o Cândido Procópio, morreu, a preocupação também foi pegar a parte inédita do trabalho dele, organizar e publicar. Ou seja, um pouca dessa ideia de que a posteridade se firma na obra em vida. Jamais pensei no Flávio em termos de espírito, nem pensei no Procópio em termos de espírito, nem em outros colegas meus que faleceram.

Você enxerga a posteridade dele na obra que ele fez em vida?
Sim, tanto que na primeira semana da morte dele nós já conseguimos publicar um pequeno trecho dele na “Ilustríssima”. Estou preparando um texto sobre ele.

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O que o levou a fazer a pesquisa sobre espiritismo que resultou no livro “Os Mortos e os Vivos”?
Eu me formei sociólogo em 1970. Um pouco antes, já trabalhava com professores em projetos de pesquisa. Em 69, alguns deles foram cassados e fundaram o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Os projetos que desenvolviam na universidade foram levados para esse novo centro de pesquisa, inicialmente com apoio da Fundação Ford e depois de outras instituições internacionais.

Fui participar dessa instituição, inicialmente num projeto que estudava a transição demográfica no Brasil, dirigido pela socióloga Elza Berquó. Mas também estava inserido em outro projeto, que fazia parte do projeto maior do Cebrap, estudar as condições para o desenvolvimento econômico, social e político no Brasil e na América Latina.

Sua viabilidade no Brasil, suas possibilidades e entraves?
Sim, uma das grandes lideranças do Cebrap era o Fernando Henrique Cardoso, que já vinha de uma experiência na Cepal, estudando desenvolvimento na América Latina, com parceiros importantes. A questão era estudar as condições materiais e culturais, estruturais e supra-estruturais deste desenvolvimento.

Algo que se pensava era como as instituições da cultura poderiam ajudar no processo de desenvolvimento, ou como poderiam atrapalhar. E havia um grupo, comandado pelo Cândido Procópio Ferreira de Camargo, cujo objetivo era estudar as religiões, para ver até que ponto poderiam ser uma parceira num processo maior.

Quantos anos você tinha?
Foi em 1971, eu era recém-formado. Eu nasci em 1946. Ou seja, 24, 25 anos.

Ali você começa a se envolver mais com religião, estudando se ela ajudava ou travava o desenvolvimento brasileiro?
Exatamente. É claro que o Cebrap já estava pensando muito mais alto. Vivíamos em plena ditadura (1964-85), tanto que ele foi criado como resposta à ditadura, que aposentou esses professores.

Começa seu contato com espiritismo?
De manhã, trabalhava com estatística, computação eletrônica, que estava no começo. Foi quando aprendi metodologia de pesquisa, teoria da amostragem, teoria da análise. Depois fui aplicar tudo isso num projeto que deu origem ao Datafolha.

Também formei muitos alunos na universidade que foram me ajudar a constituir o Datafolha, o Antonio Manuel Teixeira Mendes, que veio a se transformar num dos dois superintendentes do Grupo Folha [ao lado de Judith Brito]. De manhã, eu fazia cálculos, com computadores, enormes computadores, e à tarde trabalhava nesse grupo de religião.

De manhã, na racionalidade, à tarde, na espiritualidade?
Era assim, uma coisa dividida. Trabalhava neste grupo do Cândido Procópio Ferreira Camargo. Tinha outro colega recém-formado, que viria a ser o meu parceiro de pesquisa da vida inteira, o sociólogo Flávio Pierucci, que morreu em junho deste ano.

Minha primeira incumbência foi estudar espiritismo e umbanda. O Flávio e mais alguém estudavam catolicismo. A Beatriz Muniz e Souza e mais alguém estudavam as religiões evangélicas.

Por que você ficou com o espiritismo?
Foi um divisão do Cândido Procópio. Não lembro de ter algo sobre eu ter algum contato. Foi uma divisão de tarefas. Minha primeira tarefa era pesquisar o espiritismo, mas, quando fui fazer o meu mestrado, fiz sobre catolicismo.

Na época, publicamos o trabalho em livro, a última parte era um resumo das nossas experiências. Começamos a fazer um aprofundamento da pesquisa, pelo lado dos católicos, pois havia vários movimentos que o Procópio chamava de “internalização da religião”.

Havia uma primeira militância, em certos grupos religiosos, de católicos que alfabetizavam a população rural, ajudavam na fundação de sindicatos, defendiam os direitos humanos. Isso foi dar na Igreja progressista e, mais tarde, nas Comunidades Eclesiais de Base, na Teologia da Libertação, que viria a ser um dos berços do Partido dos Trabalhadores.

Naquela primeira etapa, fiz uma dissertação de mestrado mostrando como o discurso da religião católica vinha se transformando rapidamente. Trabalhei com o discurso sobre a família, mostrando que, dentro daquela igreja tradicional, reacionária, já vinha nascendo uma nova visão de mundo.

De 1964 a 68-9, tivemos o Concílio Vaticano 2º, convocado pelo papa João 23, continuado por Paulo 6º. Apesar de ranzinza, conservador, ele foi um grande papa, pelas mudanças que promoveu na igreja, sobretudo tratando dos direitos do mundo do trabalho.

Vivíamos sob uma ditadura, mas já vínhamos estudando os movimentos de reação, de resistência, de transformação e assim por diante. E estudávamos isso no interior da religião, mas outras coisas também.

Quando fiz o doutorado, ele não tinha nada a ver com o que vinha estudando: fiz sobre a transformação dos trabalhadores autônomos em assalariados, a constituição de uma força de trabalho num modelo capitalista pleno. Deixei de estudar religião. Fiquei envolvido em outras coisas.

Quando você volta para religião?

Chegou uma época, em que já era professor da USP, em que precisei fazer a livre-docência (que na USP faz parte da carreira), e eu já estava no Datafolha. Só que eu tinha uma resistência muito grande de alguns colegas meus.

Que tipo de resistência?

Contra meu trabalho na Folha. Acreditavam que a pesquisa manipulava a opinião pública, que essa opinião pública era contrária àquilo que se chamava de consciência de classe. Então, em vez de estudar a classe trabalhadora, o que eu fazia?

Isso tudo era um debate que a gente fazia por meio da própria Folha, na página 2, página 3. Então eu precisei arranjar uma forma de pensar isso melhor, de organizar meus argumentos a favor. Porque a aposta da gente era que a opinião pública ajudava.

Os meus amigos pensavam que, em vez de ajudar a desenvolver uma formação de classe, eu estava induzindo a trocar a consciência de classe pela ideologia da massa. Ou seja, estavam me chamando de conservador. Eu falei: não posso deixar. Aí fui para os EUA, para estudar a formação da opinião pública.

Já pós-Datafolha?

Sim, ele já andava por conta própria. Aí fui para os EUA, porque naquele tempo não tinha internet, você não comprava livros pelo correio, toda vez que precisava fazer pesquisa nova íamos para os EUA, França ou Inglaterra.

E voltávamos com malas cheias de livros. Fui, me preparei, organizei na minha cabeça uma tese, peguei toda a bibliografia, fiquei lá estudando.

Quando voltei, o meu avião pegou uma tempestade elétrica. Eu vinha de Los Angeles para Miami, trocava de avião e vinha para São Paulo. Por causa da tempestade elétrica, meu voo não podia pousar.

Quando pousou, fomos levados direto para o avião da Varig. Cheguei, mas as minhas malas, não. Chegaram muito depois. Então eu perdi momentaneamente toda a minha pesquisa e cheguei aqui num estado de ansiedade total.

Enquanto as malas não chegavam, ajudei um colega da USP, Lisias Nogueira Negrão, a tabular uma pesquisa dele, feita em todos os cartórios de registro civil de São Paulo, vendo como o espiritismo e a umbanda foram se institucionalizando.

Naquele tempo, eles tinham de ter registro em cartório, ata de fundação. Enfim, estava estudando isso, ajudando o Lisias a processar suas pesquisas.

E as malas, chegaram?

Alguns meses depois. As malas ficaram perdidas, segundo a Varig, num aeroporto de Tóquio, até que alguém, mexendo naquilo, viu a etiqueta com meu nome, do Brasil, e mandou para cá. Não tinha informatização.

Quando elas chegaram, eu já estava envolvido com um projeto do candomblé, iniciado a partir do trabalho com o Lisias, e o outro [sobre pesquisas de opinião pública] foi totalmente deixado de lado.

Qual foi o seu contato direto com sessões espíritas?

Quando era pequeno, a minha família era católica não praticante, do interior de São Paulo. Meus pais e uma parte dos meus parentes ainda moram em Potirendaba (SP), que fica perto de São José do Rio Preto. Vou lá todo mês. Era uma cidade muito pequena naquele tempo, mas tinha um centro espírita bastante atuante.

E o meu avô, que era uma pessoa muito doente, passou os últimos da vida dele numa cama. De vez em quando, na casa dele, faziam uma sessão espírita, o centro ia lá e promovia uma sessão, dentro da ideia de ajudar o outro, de cura.

E eu assistia essas sessões. E também às vezes eu ia aos centros, eles faziam sessões com declamação de poesia espírita, porque uma das atividades espíritas consiste na psicografia, na qual espíritos de literatos e poetas ditam supostamente obras inéditas, que sempre fizeram parte da lista dos livros mais vendidos no Brasil.

Se você pegar a lista dos mais vendidos, sempre tem, há muitos e muitos anos, um autor espírita entre os dez mais vendidos. Cujo livro aparece psicografo por determinado espírita. Então, tem muita poesia, Olavo Bilac, e outros, claro que dá muitos problemas de direito autoral, de qualidade literária, eu cito isso no livro.

Você acredita no espiritismo?

Se tivesse de me declarar oficialmente, acho que teria de me declarar uma pessoa que não acredita em Deus.

Não acredita em Deus?

Não, porque eu tive uma experiência muito recente, que acho muito interessante.

Qual?
Adoto uma posição muito mais parecida, digamos, com a de pessoas que me antecederam na pesquisa das religiões brasileiras. O [sociólogo francês] Roger Bastide, que tinha uma ideia muito interessante, acreditava que Deus está dentro de cada pessoa.

Esses pesquisadores gostavam muito do candomblé, porque nele os deuses se manifestavam no transe, e diziam que isso nada mais é do que a interioridade de cada um que se revela, que a religião, por meio de um sistema classificatório, organiza e coloca numa forma de panteão sagrado.

Em 2007, tive um infarto que me levou à UTI, no Hospital do Coração. Infarto grande. Eu me lembro, depois que fui submetido à angioplastia, que fiquei internado, que minha condição ainda era difícil, a minha grande preocupação nunca foi… talvez eu achasse que ia morrer, mas a minha preocupação é que estava lendo um livro e eu ia morrer sem saber o final.

Sério?
Sério.

Que livro era?
Não me lembro mais, acho que era da P. D. James, mas não tenho certeza. É uma autora inglesa, de mistério, a Três Estrelas publicou um livro de ensaio dela.

Aí um amigo seu foi lá pegar o livro, quem foi?
Não me lembro muito bem do que eu fazia na UTI, se comia ou não, por exemplo. Não sei se foi o meu irmão, acho que foi ele, não sei se foi um amigo, se foi o Flávio [Pierucci] ou alguma outra pessoa, que eu pedi que viesse à minha casa e pegasse o livro, que estava na cabeceira da cama, e lesse o último capítulo.

E, depois, voltasse e me contasse o fim, porque eu não queria morrer sem saber. Não pensei em Deus, em Nossa Senhora, nos santos, nos orixás, nos caboclos, em nada, a minha única preocupação foi de curiosidade literária.

Esse episódio marca tanto assim?*
Marca, porque aí é que eu falei: meu Deus do céu, sou mais ateu do que pensava, porque nunca recorri a nenhum santo, a nenhum deus. Agora, isso é uma coisa que não posso ficar dizendo muito publicamente.

Por quê?
Seria uma descortesia com meus amigos, meus informantes, que eu frequento, que eu estudo.

O espiritismo se afirma como uma religião da classe média?
Sem dúvida, até hoje isso é absolutamente correto, os dados mostram isso. Embora o kardecismo tenha se transformado numa religião, ele não perde aquela ideia de que você tem de estudar, tem de pesquisar, ler. Ninguém lê mais que o espírita.

Você não se transforma num espírita praticante indo só às sessões, você tem de ler, tem de ter toda uma formação letrada, que é praticamente parte do perfil do bom espírita, do praticante. Você tem de ser primeiro alfabetizado, ter acesso a esse bem que, no Brasil, é um bem de pouco acesso, que é o livro.

Você tem de ter o gosto pela leitura. Isso são coisas de classe média. Pode ter também aquele que é só o cliente, e não praticante, vai lá para curar algo.

Com a popularização do espiritismo, ele deve registrar um avanço dos grupos que são mais clientes do que praticantes?
O que é fundamental para o espírita. Ele não tem de praticar a caridade? Tem de ter esse sujeito com o qual ele pratica a caridade.

Como alguém que se diz ateu se dedica tanto ao estudo da religião, que se transforma numa forma de difusão do espiritismo, como é o caso do livro “Os Mortos e os Vivos”?
Talvez porque você seja espírita e entenda que a leitura é importante para a religião. Então, eu sempre, em todo lugar que vou, estou sempre dando um autógrafo neste livro, “Mitologia dos Orixás” [Companhia das Letras]. Agora, isso é conhecimento. Eu vejo estritamente como conhecimento.

Agora, como escrevo, se você pegar esse livro, que é muito usado pelo pessoal do candomblé, da umbanda também. Eu acho que é o jeito que eu escrevo, aprendi a escrever de um jeito mais acessível, talvez, não sei, talvez porque também tenho essa experiência.

No Cebrap, sua porta de entrada como estudioso das religiões, você buscar identificar naquele momento se as religiões eram um entrave ou poderiam funcionar como estímulo ao desenvolvimento do país. Hoje, como enxerga a religião, como um tudo, neste processo de desenvolvimento do Brasil. Perdeu a importância, tem importância?
A primeira coisa é que naquele tempo estávamos numa ditadura, o que a gente teve foi um papel importante da religião, sobretudo no caso da religião católica, da então chamada Igreja progressista, que acabou se transformando, na linguagem deles, na voz dos que não têm voz.

A religião foi um ator social muito importante no período da resistência. A religião era importante porque ajudava a formar militância. Mais do que isso, ajudava a dar uma legitimidade sacral para essa militância.

Tanto que essa religião vai, inclusive, participar da formação do PT, partido decisivo na história da resistência do Brasil. Hoje, o PT não tem mais nada a ver com a religião. Mas antigamente, os primeiros deputados, alguns eram eleitos pelas Comunidades Eclesiais de Base, pelas periferias. A religião tinha um papel político importante.

Mas isso numa época em que a política propriamente dita estava totalmente amordaçada pela censura. Depois, com a abertura e a formação dos novos partidos, com a vida republicana restaurada, a religião foi perdendo importância. Foi uma voz temporária. Depois, a voz republicana volta para a boca dos partidos, das agremiações seculares.

E o espiritismo, como você avalia a participação dele neste processo? Ele não tem uma ação política, tem ação social. Por que ele não ocupa esse papel de ação política?
É interessante porque o grande fundador do espiritismo no Brasil, Bezerra de Menezes, era um político profissional, de ocupar cargos eletivos. E, ao mesmo tempo, muitos políticos sempre aderiram ao kardecismo. No entanto, o kardecismo não aparece no cenário político.

Por quê?
Eu que te pergunto, eu estou fazendo pesquisa, você que é jornalista e espírita.

É uma religião que tem um trabalho social muito forte, mas que não se permite um envolvimento político.
Parte dessa ideia de que a caridade é uma coisa universal, que se aplica a todos, que todo mundo tem de ser visto igualmente. Então, não dá para ter um pensamento partidário. Digamos, em termos de você pensar em termos de política, tem uma espécie de um braço preso no gesso.

Está engessada politicamente, porque a ideia da caridade é uma ideia que está acima das diferenças sociais, mais que isso, acima de qualquer diferença, porque se aplica tanto aos vivos como aos mortos. E também porque é muito circunstancial, a política não é muito importante porque ela não cuida.

Se você pensar que a vida na terra é apenas um pequeno passo de uma grande caminhada, não tem sentido você se envolver numa coisa que é circunstancial, passageira, temporária, de grupos nesse pequeno passo.

Ou seja, você é levado a se preocupar com coisas muito mais suprapartidárias, a posição ideológica do espiritismo é uma posição muito suprapartidária.

Tem uma frase, que inseri no livro por sugestão do meu editor, que o espiritismo é uma religião muito discreta. Para ela, é uma coisa muito ruim a publicização, aparecer, se mostrar, se exibir, isso é muito ruim para o espírita. Ele não gosta disso.

O espírita é sempre muito modesto, retirado, muito na dele, inclusive quando pratica a boa ação ele não deve aparecer. Não tem de fazer propaganda. Tudo isso é muito contrário à experiência de uma vida partidária. Você pode até ser um kardecista roxo, mas isso não deve aparecer no seu cotidiano. Não condiz.

Se aparecer não é um espírita autêntico, é isso?
Claro, é uma religião discreta, é exatamente isso. Tem muito centro espírita aqui na região, pega a minha casa, forma um triângulo. Mas você passa em frente, tem um placa, uma cara completamente burocrática, como se fosse uma repartição pública, sem alarde, sem propaganda, meramente informativo.

O espírita até participa da política, mas não como espírita. Então tem vários elementos que fazem parte do bom espírita que não produzem essa motivação política partidária.

Eu sempre digo, vale para agora, pode ser que daqui a cinco anos pode mudar. Sempre pode vir um novo grupo, com uma nova missão. Sempre isso é possível. Mas até o momento, não.

O que acha do debate se o espiritismo é ou não uma religião cristã?
As classificações das religiões levam muito em conta a linhagem, as famílias, as ramificações, as origens. Se você pegar todas as religiões pentecostais, neopentecostais, a origem está lá no judaísmo, no catolicismo, a reforma, as igrejas históricas, depois as pentecostais, têm ramificações. Desse ponto de vista o espiritismo não se enquadra.

Ele não é uma ramificação de nenhuma corrente do cristianismo. Mesmo porque ele introduz noções básicas que contradizem toda experiência cristã: a reencarnação, que é de origem hindu, a comunicação com os espíritos, que o catolicismo detesta. Tudo isso é absolutamente contrário.

Deste ponto de vista, isso não é cristão. E também tem o fato de que Jesus não é Deus no espiritismo. O kardecismo não acredita na Santíssima Trindade. Deus é algo longe, e Jesus é um ser humano que passou pela terra e que era um espírito de Luz, o mais avançado, o grande modelo, porque é o homem mais virtuoso que passou por aqui.

Mas o fato de Cristo ter sido tomado como principal exemplo pode definir o espiritismo como uma religião cristã, baseada na vida de Jesus Cristo na terra. Então, é tudo uma questão de ponto de vista. Tem elementos a favor e contra. Do ponto de vista institucional, não. Do ponto de vista da doutrina e dos valores, sim, porque eles são essencialmente cristãos.

Se você pegar o candomblé, todos os valores fundamentais do candomblé são completamente diferentes dos valores da cristandade. Quando você pega a religião dos orixás, que é africana, não tem nada a ver com o cristianismo. Para começar não existe punição nem é uma religião de salvação. O que é fundamental no cristianismo.

Outra coisa, não existe a ideia das virtudes. Ou seja, algo que existe no cristianismo, espiritismo, nas religiões de origem judaica. Porque as virtudes são inerentes às suas origens e cada ser humano pode ter uma origem diferente. E essa origem vem da natureza. Aos que se originam da montanha, do rio, do raio, e cada virtude será e vai se constituir em função das qualidades desses elementos dos quais você se origina.

No candomblé, se eu for uma pessoa totalmente maluca, não tem importância, é compreensível porque meu orixá principal é Oxalá, e ele é o orixá do ar. O ar não se molda. Se é uma pessoa que é filha de iemanjá, é uma pessoa instável, toma decisões e volta atrás, porque a onda vai e volta.

É aceitação do ser como ele é?
Sim, o ser como ele é, em função de uma suposta origem que remonta a uma natureza primordial. Para ser um bom religioso, tem de se comportar de acordo com sua origem. Então não temos de ser iguais. Não existe essa ideia das virtudes universais, que são, no catolicismo, fé, esperança e caridade.

E no kardecismo basicamente é a caridade. Imagina, a caridade no candomblé não se aplica jamais. Você tem de agir para aumentar o axé, aumentar o axé é se comportar de acordo com o seu orixá, que é diferente do orixá do outro.

O axé é…
O axé é o poder, a glória, a realização, a energia, é a capacidade de viver, de produzir, de ficar rico, de conquistar. Isso é o axé. E ele é diferente em cada orixá.

Mas o espiritismo, no fundo, não pensa totalmente diferente disso…
Você assistiu ao filme “Nosso Lar”? Ali dá um sentido a isso, uma ideia, o ruim deste mundo é o trabalho manual. A Bíblia já dizia isso, você vai se alimentar com o suor do seu rosto. No filme, o bom é o trabalho intelectual, lá onde mundo é mais avançado que a terra, o trabalho é quase que só científico, altas tecnologias, intelectual, praticamente ali não existe trabalho braçal.

Não demanda mais força muscular. Por isso os espíritos de luz são sempre pessoas avançadas intelectualmente, porque os espíritos que são inferiores vão para os mundos de sofrimento, de muito trabalho, então é essa a ideia do rural contra o urbano, do manual contra o intelectual, tudo isso faz parte do século 19, que é quando começa toda tradição espírita.

As máquinas que substituem os teares manuais, o vapor que substitui o trabalho muscular, tudo isso é um pouco da nossa história recente. Isso tudo vai sendo captado pelo Kardec e, depois, evidentemente, pelos seus seguidores. O livro “Nosso Lar”, de André Luiz, de meados do século 20, isso já está muito bem pensado pelos espíritas.

Você chegou a ver sessões de ectoplasma, de materialização?
Eu sou de uma época em que o espiritismo ainda era tratado com uma grande curiosidade. Até no livro eu transcrevi um pedacinho de uma reportagem da “Folha da Manhã”, porque o espiritismo era apresentado em sessões, em saraus. Eram um acontecimento, pessoas chiques faziam sessões espíritas em casas, com convidados. Eu vi duas ou três sessões com apresentação de materialização, de ectoplasma.

Quando foi isso?
Anos 50, meados dos anos 50, devia ter em torno de nove, dez anos. Nesta época, em que assisti as primeiras sessões espíritas. Era uma coisa muito bonita.

Você imagina que naquela época não existia televisão no interior. O cinema era muito precário. Então, de repente, aparecia uma coisa que era um espetáculo plástico, muito bonito, o ambiente todo em penumbra, com uma música clássica, bonita, sempre emocionante.

Era algo que acontecia inesperadamente. De repente um corpo começava a se formar. Começava a sair um filete de luz do ouvido, do nariz, às vezes da palma da mão. E ia se formando.

Materializava espírito?
Às vezes uma cabeça, às vezes o corpo inteiro, mas durava muito pouco também. Mas isso desapareceu, não se faz mais, por causa da influência do Chico Xavier, que era contra, porque isso ensejava muita coisa fajuta. Muita gente se aproveitava e fazia charlatanismo.

Tinha circo, conheci um, que era chamado Real Joana D’Arc Circus, que o grande chamariz deles era um cara que fazia duas coisas. Fazia hipnotismo, hipnotizava gente da plateia, e fazia materialização espiritual no circo. E isso então ensejava muito crítica, descobria-se que era um truque, isso desmoralizava o kardecismo.

As que você assistiu eram charlatanismo ou reais?
As pessoas que faziam eram muito honestas e acreditavam muito nisso. Então eu não tinha razão para duvidar. E hoje estou muito distante daquilo tudo para tecer qualquer hipótese de fraude.

Não sei, era uma manifestação religiosa e pronto. A mesma coisa que eu ir num terreiro e dizer que o transe da pessoa é falso ou verdadeiro. Aquilo é um rito, você aceita. Mas era muito bonito, e as pessoas se emocionavam muito, a mesma coisa que as cartas (psicografadas), qualquer médium que faz psicografia.

Então, você participou de sessões de materialização.
É, eu disse que ia nas sessões de poesia, então duas ou três vezes eu vi materializações. Era bem bonito. No dia seguinte, o padre ficava sabendo, e fazia uma longa homilia, contra, até sabia quem tinha ido lá, não chamava pelo nome, porque os padres nunca chamam ninguém pelo nome. Mas isso acaba porque é o fim do espiritismo como ciência, porque você já não precisava provar nada, que era a visão do Chico.

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Crítica: Sociólogo analisa espiritismo e seu enraizamento no Brasil
29/09/2012

RAFAEL CARIELLO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em “Os Mortos e os Vivos”, o sociólogo Reginaldo Prandi oferece ao leitor uma breve introdução ao kardecismo, a “religião discreta” da classe média brasileira, e à umbanda, essa versão miscigenada e menos “letrada” do espiritismo no Brasil.

Ambas as crenças dizem muito do país, como nos mostra Prandi, com mão leve, em seu texto. O livro é publicado pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha.

O autor prefere sempre sugerir a estabelecer correspondências explícitas entre o espiritismo e características da sociedade brasileira.

Mas é impossível não perceber as disputas por status, o anseio da elite e das classes médias por “modernização”, as relações de classe e os preconceitos de cor na história contada por Prandi.

Apesar de se referir à crença imemorial em entidades invisíveis, o “espiritualismo” é sobretudo um fenômeno moderno.

Foi em meados do século 19, diz o autor, que a prática de comunicação com os espíritos se tornou moda na Europa e nos EUA. Muitos de seus praticantes acreditavam que seria possível recorrer à ciência para explicar essas relações mediúnicas.

Esse caráter moderno, cientificista, foi exaltado por Allan Kardec ao fundar o espiritismo, que se valia também de outra ideia característica da modernidade, a de progresso, associada às reencarnações dos espíritos.

A nova doutrina de origem francesa encontrou terreno fértil no Brasil, único país onde veio a se constituir em religião completa e autônoma.

Talvez por seu caráter “modernizador”, o espiritismo exerceu forte atração sobre homens ilustres da sociedade carioca. O cronista João do Rio registrava entre seus seguidores, no início do século 20, membros das Forças Armadas, advogados, professores e jornalistas.

A escolaridade elevada é ainda hoje uma marca dos kardecistas. Mais de 30% deles têm o curso superior completo –nível atingido por 9% dos católicos, e por 4% dos evangélicos pentecostais.

Se o espiritismo é uma prática da classe média, inclusive de muitos que se declaram católicos, a umbanda, surgida do encontro do kardecismo com os rituais das religiões afro-brasileiras, é adotada sobretudo por pessoas da classe média baixa.

No kardecismo, a sabedoria de um espírito-guia é associada ao seu elevado grau de escolaridade.

Consta que a fundação da umbanda teria sido iniciativa de dissidentes de um grupo kardecista, grupo este que “rejeitava a presença de guias analfabetos negros e caboclos, porque os considerava espíritos inferiores”.

Assim como seus integrantes, os guias dessa nova religião brasileira passaram a ter origens mais abrangentes: indígenas ou caboclos, escravos ou pretos velhos, boiadeiros, nobres e ciganos.

OS MORTOS E OS VIVOS
AUTOR Reginaldo Prandi
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 25 (116 págs.)

 

Susan Greenfield

Folha de S.Paulo
18/09/2012 – 04h30
Internet pode diminuir a inteligência e a empatia, diz pesquisadora
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

A neurocientista e baronesa britânica Susan Greenfield, 61, faz questão de ser uma voz dissonante em meio à empolgação de muita gente com o potencial das redes sociais e da internet.

Para ela, há razões para acreditar que a vida virtual está criando uma geração de pessoas menos inteligentes e menos capazes de empatia –um ponto de vista que já lhe rendeu desafetos dentro e fora da comunidade científica.

A baronesa Greenfield, que leciona na Universidade de Oxford (Reino Unido), está no Brasil para o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Sua conferência na Sala São Paulo, na capital paulista, acontece hoje. Confira abaixo trechos da entrevista que ela concedeu à Folha.

Folha – Como a sra. começou a se interessar pelo impacto das novas tecnologias sobre o cérebro humano?

Susan Greenfield – Comecei a discutir esse assunto em 2009, na Câmara dos Lordes [órgão do Parlamento britânico do qual ela faz parte], quando houve um debate sobre a regulação do uso da internet e possíveis efeitos nocivos de seu uso sobre crianças.
Como neurocientista, o que eu levei em consideração nesse debate é o fato de que o cérebro humano evoluiu para responder a estímulos muito diferentes dos que estão afetando o desenvolvimento das crianças de hoje. Isso não é um julgamento de valor, é apenas um fato.
E, quando você olha a literatura científica recente, há sinais consideráveis de mudanças, embora obviamente precisemos de mais estudos para entender exatamente o que está acontecendo.
Sabemos, por exemplo, que o uso de redes sociais e de videogames pode ter efeitos bioquímicos muito parecidos com os do vício em drogas no cérebro. No ano passado, um trabalho com tomografias mostrou anormalidades estruturais ligadas a esse tipo de comportamento.
Também há testes mostrando um aumento de problemas de compreensão verbal e um declínio na capacidade de empatia.
É claro que as pessoas podem dizer que se trata de uma correlação, que não necessariamente uma coisa causa a outra. É um argumento válido, mas também é o mesmo argumento que as pessoas usavam nos anos 1950 a respeito da relação entre fumo e câncer de pulmão –até os epidemiologistas mostrarem que a relação realmente envolvia uma causa e um efeito.

Folha – A sra. foi muito criticada por levantar essa hipótese. Esperava reações tão violentas?

Susan – Sim e não. Por um lado, é assim que a ciência funciona, as críticas são esperadas e necessárias. O problema é quando elas se tornam pessoais. Como se diz na Austrália, você tem de chutar a bola, e não o jogador.
E, claro, muita gente está ganhando muito dinheiro com isso e não vai gostar se alguém como eu tenta estragar a festa (risos).

Folha – Também temos visto uma melhora constante nos níveis de QI no mundo todo nas últimas décadas. Isso não significaria que as mudanças tecnológicas também têm efeitos positivos sobre o cérebro?

Susan – De fato, há indícios de que o uso de videogames pode melhorar a memória de curto prazo e a agilidade mental, por exemplo. Isso é verdade, mas não acho que seja a história toda. Velocidade mental, capacidade de processar informações com rapidez, não é a mesma coisa que entendimento ou sabedoria.
O que nós não estamos vendo, apesar dos avanços mensuráveis no QI, é um aumento dos insights sobre a condição humana ou da imaginação, por exemplo.

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20/09/2012 – 05h05
Neurocientista pede mais estudos sobre web em palestra em São Paulo
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

Susan Greenfield, neurocientista da Universidade de Oxford, terminou sua fala ontem (19), durante o ciclo Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, com um manifesto apaixonado em defesa da complexidade mental humana, ameaçada, segundo ela, pela revolução digital.

“Temos de fazer a escolha entre um mundo em que a individualidade e o potencial humanos podem florescer ao máximo e o mundo para o qual talvez estejamos caminhando, no qual a empatia e a capacidade de ter insights, de lidar com metáforas, está diminuindo”, afirmou ela.

Greenfield defendeu o aumento das pesquisas sobre os efeitos da tecnologia, em especial os videogames e as redes sociais da internet, sobre o cérebro, e sobre a preocupação do público a respeito das transformações que essas tecnologias trazem.

Logo no início de sua palestra na Sala São Paulo (região central da capital), Greenfield lembrou com nostalgia o momento em que tomou contato direto, pela primeira vez, com o cérebro humano.

“Você pega aquela massa de tecido, que literalmente cabe na sua mão. Fiquei pensando: o que aconteceria se um pedacinho de cérebro ficasse preso debaixo da minha unha? Será que uma memória, uma esperança ou um amor iriam parar embaixo da minha unha?”, disse.

Leia mais:
http://www.newscientist.com/article/mg21128236.400-susan-greenfield-living-online-is-changing-our-brains.html