Susan Greenfield

Folha de S.Paulo
18/09/2012 – 04h30
Internet pode diminuir a inteligência e a empatia, diz pesquisadora
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

A neurocientista e baronesa britânica Susan Greenfield, 61, faz questão de ser uma voz dissonante em meio à empolgação de muita gente com o potencial das redes sociais e da internet.

Para ela, há razões para acreditar que a vida virtual está criando uma geração de pessoas menos inteligentes e menos capazes de empatia –um ponto de vista que já lhe rendeu desafetos dentro e fora da comunidade científica.

A baronesa Greenfield, que leciona na Universidade de Oxford (Reino Unido), está no Brasil para o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Sua conferência na Sala São Paulo, na capital paulista, acontece hoje. Confira abaixo trechos da entrevista que ela concedeu à Folha.

Folha – Como a sra. começou a se interessar pelo impacto das novas tecnologias sobre o cérebro humano?

Susan Greenfield – Comecei a discutir esse assunto em 2009, na Câmara dos Lordes [órgão do Parlamento britânico do qual ela faz parte], quando houve um debate sobre a regulação do uso da internet e possíveis efeitos nocivos de seu uso sobre crianças.
Como neurocientista, o que eu levei em consideração nesse debate é o fato de que o cérebro humano evoluiu para responder a estímulos muito diferentes dos que estão afetando o desenvolvimento das crianças de hoje. Isso não é um julgamento de valor, é apenas um fato.
E, quando você olha a literatura científica recente, há sinais consideráveis de mudanças, embora obviamente precisemos de mais estudos para entender exatamente o que está acontecendo.
Sabemos, por exemplo, que o uso de redes sociais e de videogames pode ter efeitos bioquímicos muito parecidos com os do vício em drogas no cérebro. No ano passado, um trabalho com tomografias mostrou anormalidades estruturais ligadas a esse tipo de comportamento.
Também há testes mostrando um aumento de problemas de compreensão verbal e um declínio na capacidade de empatia.
É claro que as pessoas podem dizer que se trata de uma correlação, que não necessariamente uma coisa causa a outra. É um argumento válido, mas também é o mesmo argumento que as pessoas usavam nos anos 1950 a respeito da relação entre fumo e câncer de pulmão –até os epidemiologistas mostrarem que a relação realmente envolvia uma causa e um efeito.

Folha – A sra. foi muito criticada por levantar essa hipótese. Esperava reações tão violentas?

Susan – Sim e não. Por um lado, é assim que a ciência funciona, as críticas são esperadas e necessárias. O problema é quando elas se tornam pessoais. Como se diz na Austrália, você tem de chutar a bola, e não o jogador.
E, claro, muita gente está ganhando muito dinheiro com isso e não vai gostar se alguém como eu tenta estragar a festa (risos).

Folha – Também temos visto uma melhora constante nos níveis de QI no mundo todo nas últimas décadas. Isso não significaria que as mudanças tecnológicas também têm efeitos positivos sobre o cérebro?

Susan – De fato, há indícios de que o uso de videogames pode melhorar a memória de curto prazo e a agilidade mental, por exemplo. Isso é verdade, mas não acho que seja a história toda. Velocidade mental, capacidade de processar informações com rapidez, não é a mesma coisa que entendimento ou sabedoria.
O que nós não estamos vendo, apesar dos avanços mensuráveis no QI, é um aumento dos insights sobre a condição humana ou da imaginação, por exemplo.

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20/09/2012 – 05h05
Neurocientista pede mais estudos sobre web em palestra em São Paulo
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

Susan Greenfield, neurocientista da Universidade de Oxford, terminou sua fala ontem (19), durante o ciclo Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, com um manifesto apaixonado em defesa da complexidade mental humana, ameaçada, segundo ela, pela revolução digital.

“Temos de fazer a escolha entre um mundo em que a individualidade e o potencial humanos podem florescer ao máximo e o mundo para o qual talvez estejamos caminhando, no qual a empatia e a capacidade de ter insights, de lidar com metáforas, está diminuindo”, afirmou ela.

Greenfield defendeu o aumento das pesquisas sobre os efeitos da tecnologia, em especial os videogames e as redes sociais da internet, sobre o cérebro, e sobre a preocupação do público a respeito das transformações que essas tecnologias trazem.

Logo no início de sua palestra na Sala São Paulo (região central da capital), Greenfield lembrou com nostalgia o momento em que tomou contato direto, pela primeira vez, com o cérebro humano.

“Você pega aquela massa de tecido, que literalmente cabe na sua mão. Fiquei pensando: o que aconteceria se um pedacinho de cérebro ficasse preso debaixo da minha unha? Será que uma memória, uma esperança ou um amor iriam parar embaixo da minha unha?”, disse.

Leia mais:
http://www.newscientist.com/article/mg21128236.400-susan-greenfield-living-online-is-changing-our-brains.html

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Autor: astangl

http://twitter.com/astangl

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