Redes sociais formam ‘bolhas políticas’

Link – Estadão
BRUNO CAPELAS E MATHEUS MANS – O ESTADO DE S. PAULO
26 Março 2016 | 17h 52 ­ Atualizado: 26 Março 2016 | 17h 52

Desconhecidos do público, algoritmos selecionam conteúdos conforme a atividade dos usuários e podem limitar debate de ideias na internet

Antes de os brasileiros a favor e contra a nomeação do ex­presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil invadirem as ruas nas últimas semanas, grande parte deles manifestou seus pontos de vista nas redes sociais. Em seus perfis, compartilharam suas opiniões políticas, convocaram amigos para manifestações, travaram discussões e recorreram a medidas extremas, como deixar de seguir
amigos de longa data.

O que a maior parte dos usuários não sabe é que toda essa atividade é um “prato cheio” para os algoritmos, uma série de códigos baseados em inteligência artificial que estão entranhados no Facebook e em outros sites. Com base no que “aprende” sobre cada usuário, ele mostra mais conteúdos que “acha” que o usuário vai gostar.

Segundo especialistas consultados pelo Estado, a tecnologia que ajuda o usuário a encontrar mais conteúdo relevante na internet está criando uma “bolha” em torno das pessoas. No caso das disputas políticas, o efeito é claro: o usuário sempre tem a impressão de que está certo, já que só tem contato com aqueles que compartilham de sua visão.

Usar algoritmos em sites não é uma novidade. Eles ganharam fama em 1996, quando Sergey Brin e Larry Page, cofundadores do Google, escreveram um código para exibir primeiro as páginas da internet mais relevantes para uma determinada pesquisa. Sites com menor importância e menos links ficavam no fim da lista. A tecnologia ­ que atualmente leva em conta dezenas de outros fatores ­ deu origem ao
maior buscador de sites da internet.

Com o sucesso do Google, outras companhias da internet criaram algoritmos. No caso das redes sociais, o Facebook passou a exibir postagens dos usuários mediante sua relevância a partir do fim dos anos 2000. A tecnologia foi um dos fatores determinantes para seu sucesso.

Caixa­preta.
Assim como outras empresas, o Facebook nunca revelou em detalhes como seu algoritmo funciona. Pelo que se sabe, ele considera ações dentro do site: ao curtir, compartilhar, comentar ou bloquear conteúdos, o algoritmo “aprende” e passa a exibir apenas o que considera relevante para aquela pessoa. O restante fica no final do feed de notícias ­ ou, simplesmente, é ignorado.

“O algoritmo e o usuário coproduzem o feed”, explica o professor de ciência da informação da Universidade de Michigan, Christian Sandvig. “O computador te observa e aprende com o que você clica. Ao mesmo tempo, você decide como responder ao que ele mostra a você.”

Segundo o Facebook, o algoritmo ajuda o usuário a aproveitar melhor o conteúdo publicado na rede. “O volume de conteúdo criado e compartilhado é proporcional ao número de usuários. Assim, o algoritmo é uma forma de permitir que cada pessoa tenha acesso ao que julga mais importante”, disse a empresa, em nota. Atualmente, o Facebook é a rede social mais popular do mundo, com 1,59 bilhão de pessoas conectadas.

Na prática, se uma pessoa gosta mais de culinária do que esportes, ela interage de maneira positiva com postagens sobre o assunto. Ao compreender esta preferência, o algoritmo exibirá para este usuário as publicações relacionadas em primeiro lugar. Conteúdos sobre esportes ficarão, automaticamente, em segundo plano.

“O Facebook tende a filtrar aquilo que é socialmente relevante para um grupo. Isso dá a sensação de que toda a rede social concorda com você”, comenta a professora e pesquisadora de mídias sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Raquel Recuero.
Além da maçã.
Enquanto o algoritmo se restringe aos gostos pessoais, os efeitos não são nocivos. As coisas mudam de forma, entretanto, quando o conjunto de códigos começa a influenciar na visão política das pessoas. A “bolha política” já foi comprovada por diversos estudos. Um deles ­ realizado em novembro de 2010 pela Universidade da Califórnia, com aval do Facebook ­ simulou as eleições presidenciais americanas e concluiu que cerca de 340 mil pessoas mudaram de voto após verem uma postagem positiva sobre um
candidatos no topo do feed de notícias. “Seria bastante simples para uma rede social como o Facebook manipular uma eleição”, diz Sandvig.

No Brasil, nenhum estudo foi realizado para entender a influência do Facebook na política. Porém, usuários da rede social já sentiram na pele os efeitos da “bolha” ao longo das últimas semanas.

O administrador de empresas Radyr Papini, 37 anos, é a favor do impeachment da presidente Dilma e compartilha uma média de cinco posts contra o governo por dia. Ele afirma que, em seu feed de notícias, “95% das postagens são contra a presidente”. Do outro lado, a situação se repete. O estudante de matemática Gustavo Sales, 22 anos, bloqueou a maior parte dos amigos que são favoráveis ao
impeachment. Ele notou uma mudança clara em seu feed. “Agora, nunca vejo pessoas apoiando o impeachment.”

Limitação.
Esta sensação de que todos compartilham da mesma opinião causa problemas. A ausência de debate é um deles. “A experiência, sobretudo no Facebook, não permite que todo usuário seja escutado”, afirma Fábio Malini, coordenador do laboratório de estudos sobre internet e cultura da Universidade Federal do Espírito Santo. Outro fator é o “efeito manada”, que tem consequências nos mundos virtual e real: ao ver posições parecidas com a sua, as pessoas reforçam suas opiniões e se sentem mais estimuladas a protestar.

A solução para essa “bolha” ainda não está clara e a tarefa deve ficar mais difícil no futuro, à medida que outros sites adotam algoritmos. Nas últimas semanas, Twitter e Instagram anunciaram que vão abandonar a cronologia das publicações em favor desses códigos.

“É importante que as pessoas estejam conscientes desse processo algorítmico de seleção”, alerta Pedro Domingos, autor do livro The Master Algorithm e professor de ciências da computação da Universidade de Washington. “No futuro, ele será usado por outros serviços, que ainda nem imaginamos.”

mudança climática

Aviso do Painel sobre Risco Climático : Pior ainda está por vir

By JUSTIN GILLIS (NYTimes – Tradução via Google Translate)

YOKOHAMA , Japão – A mudança climática já está a ter efeitos radicais em todos os continentes e em todo os oceanos do mundo , disseram cientistas na segunda-feira, e avisaram que o problema era provável que cresça substancialmente pior , a menos que as emissões de gases de efeito são colocados sob controle.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática , um grupo das Nações Unidas que resume periodicamente a ciência do clima , concluiu que calotas polares estão derretendo , o gelo marinho no Ártico está em colapso, o abastecimento de água estão sob estresse , ondas de calor e fortes chuvas estão se intensificando , recifes de corais estão morrendo , e os peixes e muitas outras criaturas estão migrando para os pólos ou em alguns casos vão extintos.

Os oceanos estão subindo a um ritmo que ameaça as comunidades costeiras e estão se tornando mais ácidos como eles absorvem parte do dióxido de carbono emitido por carros e usinas de energia, que é matar algumas criaturas ou nanismo seu crescimento, o relatório.

A matéria orgânica congelada no solo do Ártico desde a civilização começou antes , agora está derretendo , permitindo a decair em gases de efeito estufa que causam o aquecimento mais , disseram os cientistas. E o pior ainda está por vir , os cientistas disseram na segunda de três relatórios que são esperados para transportar um peso considerável no próximo ano como nações tentam chegar a acordo sobre um novo tratado climático global.
Em particular, o relatório enfatizou que a oferta de alimentos do mundo está em risco considerável – uma ameaça que pode ter consequências graves para as nações mais pobres .

“Ninguém neste planeta vai ser intocada pelos impactos da mudança climática”, Rajendra K. Pachauri, presidente do painel intergovernamental , disse em uma coletiva de imprensa na segunda-feira a apresentação do relatório .

O relatório estava entre as mais preocupante ainda emitido pelo painel científico. O grupo, juntamente com Al Gore, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007 por seus esforços para esclarecer os riscos da mudança climática. O relatório é o trabalho final de várias centenas de autores , detalhes dos rascunhos deste e do último relatório da série, que será lançado em Berlim em abril, vazaram nos últimos meses.

O relatório tenta projetar como os efeitos irá alterar a sociedade humana nas próximas décadas. Embora o impacto do aquecimento global pode realmente ser moderado por fatores como a mudança econômica ou tecnológica, o relatório constatou , as interrupções são, todavia, susceptíveis de ser profundo. Isso será especialmente verdade se as emissões são autorizados a continuar em um ritmo galopante , disse o relatório.

Ele citou o risco de morte ou ferimentos em larga escala , os danos prováveis ​​para a saúde pública , o deslocamento de pessoas e potenciais migrações em massa .

“Ao longo do século 21, os impactos da mudança climática são projetadas para desacelerar o crescimento econômico, redução da pobreza tornar mais difícil, erodir ainda mais a segurança alimentar , e prolongar existente e criar novas armadilhas da pobreza , este último particularmente nas áreas urbanas e emergentes pontos quentes da fome “, o relatório declarou .

O relatório também citou a possibilidade de conflitos violentos por terra , água ou outros recursos , para que as alterações climáticas podem contribuir indiretamente ” , exacerbando os motoristas bem estabelecidas desses conflitos , como a pobreza e choques econômicos . ”

Os cientistas enfatizaram que a mudança climática não é apenas um problema do futuro distante, mas está acontecendo agora.

Estudos descobriram que partes da região do Mediterrâneo estão secando por causa da mudança climática, e alguns especialistas acreditam que as secas lá têm contribuído para a desestabilização política no Oriente Médio e Norte da África .
Em grande parte do oeste americano , montanha neve acumulada está em declínio , ameaçando o abastecimento de água para a região, os cientistas disseram no relatório. E a neve que cai está derretendo no início do ano , o que significa que há menos água melt para aliviar os verões secos . No Alasca, o colapso do gelo do mar está permitindo que grandes ondas para atacar a costa , causando erosão tão rápida que ele já está obrigando comunidades inteiras a se deslocar.

” Agora estamos no ponto em que há tanta informação, tanta evidência , que não podemos mais alegar ignorância “, disse Michel Jarraud , secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, disse na entrevista coletiva.

O relatório foi rapidamente recebido em Washington , onde o presidente Obama está tentando usar seu poder executivo sob o Clean Air Act e outras leis para impor novos limites significativos sobre as emissões de gases de efeito do país. Ele enfrenta determinada oposição no Congresso.

” Há aqueles que dizem que não podemos dar ao luxo de agir”, disse o secretário de Estado, John Kerry em um comunicado. ” Mas espera é verdadeiramente exorbitantes. Os custos da inacção são catastróficos . ”

Em meio a todos os riscos os especialistas citados , eles conseguiram encontrar um ponto brilhante . Desde o painel intergovernamental emitiu seu último grande relatório , em 2007 , ele foi encontrado uma evidência crescente de que os governos e empresas de todo o mundo estão fazendo grandes planos para adaptar a perturbações climáticas , assim como alguns conservadores nos Estados Unidos e um pequeno número de cientistas continuam a negar que existe um problema.

“Eu acho que lidar efetivamente com a mudança climática é apenas vai ser algo que as grandes nações fazer”, disse Christopher B. Field, co- presidente do grupo de trabalho que redigiu o relatório e um cientista da terra na Instituição Carnegie para a Ciência , em Stanford , na Califórnia Falar de adaptação ao aquecimento global já foi evitado em alguns setores , com o fundamento de que seria desviar a atenção da necessidade de reduzir as emissões . Mas nos últimos anos temos visto uma mudança de pensamento , incluindo a investigação de cientistas e economistas que defendem que ambas as estratégias devem ser perseguidos ao mesmo tempo.

Um exemplo flagrante da mudança ocorreu recentemente no estado de Nova York, onde a Comissão de Serviço Público ordenou Consolidated Edison , a concessionária de energia elétrica que serve Nova York e alguns subúrbios , para gastar US $ 1 bilhão de atualizar seu sistema para evitar danos futuros de inundações e outras perturbações meteorológicas.

O plano é uma reação aos apagões provocados pelo furacão Sandy . Con Ed levantará paredes cheias , enterrar algum equipamento vital e realizar um estudo sobre se os riscos climáticos emergentes exigem ainda mais mudanças . Outras utilidades do estado enfrentam exigências semelhantes , e os reguladores de serviços públicos em todo os Estados Unidos estão discutindo a possibilidade de seguir o exemplo de Nova York.

Mas com um fracasso global para limitar gases de efeito estufa , o risco está a aumentar , que as mudanças climáticas nas próximas décadas poderia sobrecarregar tais esforços de adaptação , o painel concluiu . Ele citou um risco particular que, em um clima mais quente , os agricultores não será capaz de manter-se com a demanda crescente de fast- food .

 

” Quando a oferta cai abaixo da demanda, alguém não tem comida suficiente”, disse Michael Oppenheimer , cientista climático da Universidade de Princeton que ajudou a escrever o novo relatório. ” Quando algumas pessoas não têm comida , você tem fome. Sim, eu estou preocupado. ”

As pessoas mais pobres do mundo , que tiveram praticamente nada a ver com a causa do aquecimento global , vai estar no topo da lista das vítimas como rupturas climáticas intensificam , disse o relatório. Ele citou uma estimativa do Banco Mundial de que os países pobres precisam de até US $ 100 bilhões por ano para tentar compensar os efeitos da mudança climática , pois eles estão começando agora , na melhor das hipóteses , alguns bilhões de dólares por ano em tal ajuda dos países ricos .

A cifra de US $ 100 bilhões, embora incluídos no relatório principal de 2.500 páginas, foi removido de um de 48 páginas sumário executivo para ser lido por líderes políticos mais importantes do mundo . Foi entre as mudanças mais significativas feitas como o resumo sofreu revisão final , durante uma sessão de edição de vários dias em Yokohama.

A edição veio depois de vários países ricos, incluindo os Estados Unidos , as perguntas sobre a língua levantada , de acordo com várias pessoas que estavam na sala no momento, mas não quiseram ser identificadas porque as negociações eram privados . A linguagem é controversa porque os países pobres são esperados para renovar a sua demanda por ajuda neste mês de setembro , em Nova York, em uma reunião de cúpula de líderes mundiais , que tentarão avançar sobre um novo tratado para limitar gases de efeito estufa .

Muitos países ricos argumentam que US $ 100 bilhões por ano é uma exigência realista , que seria, essencialmente, obrigá-los a duplicar os seus orçamentos para a ajuda externa , em um momento de dificuldades econômicas em casa. Esse argumento tem alimentado um sentimento crescente de indignação entre os líderes dos países mais pobres , que se sentem os seus povos estão pagando o preço por décadas de consumo ocidental perdulários .

Duas décadas de esforços internacionais para limitar as emissões têm rendido pouco resultado , e não está claro se as negociações em Nova York esta queda vai ser diferente. Embora as emissões de gases de efeito estufa começaram a diminuir ligeiramente em muitos países ricos, incluindo os Estados Unidos , esses ganhos estão sendo inundados pelas emissões provenientes dos crescentes potências econômicas como a China ea Índia.

Para os países mais pobres do mundo , a comida não é o único problema, mas pode ser a mais aguda. Várias vezes nos últimos anos, as perturbações climáticas nas principais regiões produtoras de ter ajudado a lançar a oferta ea demanda fora de equilíbrio , contribuindo para aumentos de preços que inverteu décadas de ganhos contra a fome no mundo , pelo menos temporariamente.

O aviso sobre a oferta de alimentos no novo relatório é muito mais acentuada no tom do que qualquer anteriormente emitido pelo painel. Isso reflete um crescente corpo de pesquisa sobre quantos são culturas sensíveis às ondas de calor e estresse hídrico. O relatório disse que a mudança climática já estava arrastando para baixo a produção de trigo e milho em uma escala global, em comparação com o que seria de outra maneira .

David B. Lobell , um cientista da Universidade de Stanford, que publicou grande parte das pesquisas recentes e ajudou a escrever o novo relatório, disse em uma entrevista que, no entanto, muito pouco trabalho a ser feito para compreender o risco , muito menos contra ele com uma melhor colheita variedades e técnicas de cultivo . “É uma quantidade surpreendentemente pequena de esforço para as apostas “, disse ele .

Timothy Gore , analista da Oxfam , o grupo antipobreza que enviou observadores ao processo em Yokohama, elogiou o novo relatório como pintar um quadro claro das consequências de um planeta em aquecimento . Mas ele alertou que sem maiores esforços para limitar o aquecimento global e para se adaptar às mudanças que se tornaram inevitáveis ​​”, o objetivo que temos em Oxfam de assegurar que cada pessoa tem comida suficiente para comer poderia ser perdida para sempre. “

Resenha Castells

PODER QUE HUMILHA SERÁ PODER CONTESTADO
Por Jorge Félix | Para o Valor, de São Paulo

Capitalismo informacional transforma, de modo irreversível, o exercício da cidadania

VALOR ECONÔMICO, Caderno EU & CULTURA, 20-08-2013

[Agência Brasil / Agência Brasil

[Todas as manifestações surgiram de algum fato banal ou aparentemente ordinário mal interpretado pela imprensa e, principalmente, por governos]

Tão logo as manifestações populares ocuparam as ruas de várias capitais, em junho, o nome de Manuel Castells passou a ser lembrado por muitos que tentam compreender os novos movimentos sociais. Nenhuma surpresa. Diretor do Instituto Interdisciplinar de Internet na Universidade Aberta da Catalunha, o sociólogo espanhol é um dos acadêmicos mais citados no mundo. Surpreendente mesmo é a sociologia, depois de passar décadas sob a pecha de uma ciência em decomposição, ver universidades fecharem seus departamentos ou reduzirem orçamentos para pesquisa na área e até levar Anthony Giddens a sair em sua defesa, testemunhar um sociólogo chegar ao século XXI como o grande intérprete dos novos tempos. Pois é isso que é Castells. Seu “Redes de Indignação e Esperança” torna-se indispensável para quem está nas ruas ou para quem quer, ou precisa, entendê-las em toda sua complexidade. No entanto, antes de abrir o livro, é preciso explicar porque o autor alcançou tal estatura.

No Brasil, Castells é muito citado e pouco lido além das fronteiras da universidade. São convenientes algumas informações sobre a construção de seu pensamento a respeito do capitalismo pós-internet. A empreitada começou na década de 1970. Nessa fase, com uma coloração marxista – que iria empalidecer no futuro, mas, de forma alguma, seria abandonada na essência -, iniciou sua reputação acadêmica com estudos sobre urbanismo. Seu livro “A Questão Urbana” (Ed. Paz e Terra) até hoje é referência no tema da especulação imobiliária e o conluio desta com os poderes municipais. Mas é com a trilogia “A Era da Informação” (Ed. Paz e Terra) formada pelo famoso “A Sociedade em Rede” seguido de “O Poder da Identidade” e “Fim de Milênio”, publicados aqui em 1999, que Castells ganha maior amplitude como formulador de teses e conceitos que hoje o fazem referencial.

O que Castells antecipou do que o planeta vê hoje nas ruas? Simplesmente, tudo. Uma releitura atenta da trilogia à luz dos movimentos Primavera Árabe, Comboio da Liberdade, Occupy Wall Street, Los Indignados ou Passe Livre e Mídia Ninja constata a justiça feita por Anthony Giddens quando o comparou ao Max Weber de “Economia e Sociedade”.

[O “contrapoder” sempre existiu, mas agora é exercido pelos movimentos sociais municiados pela força da comunicação]

Com base em uma metodologia historicista, Castells analisa a passagem do capitalismo industrial para um processo definido por ele como informacionalismo. Enquanto no capitalismo industrial as fontes de energia determinavam o ritmo de “modernização”, no capitalismo informacional a produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimento, de processamento da informação e de comunicação em símbolos.

O leitor deve, a esta altura, estar inclinado a trancar Castells atrás dos portões da universidade. Aos poucos, porém, perceberá quanto suas categorias explicam a prática. O capitalismo informacional cria, segundo ele, um “tempo intemporal”, um “espaço de fluxos”, uma nova divisão do trabalho, com consequências cruéis para quem vive (ou pretende ainda viver) de salário, um enfraquecimento do Estado, elimina a família patriarcal e alimenta o crime globalizado. Feminismo, ambientalismo, envelhecimento populacional, sexualidade, religião são temas visitados por Castells, como se em 1996, quando escreveu, já quisesse interpretar a imensa variedade de bandeiras dos manifestantes materializados pelas redes sociais.

“A repentina aceleração do tempo histórico, aliada à abstração do poder em uma rede de computadores, vem desintegrando os mecanismos atuais de controle social e de representação política”, alertou Castells há 17 anos. A releitura da trilogia, hoje, espanta pela precisão com que o sociólogo antecipa os tempos atuais. Quando a novidade na comunicação mediada por computadores era o e-mail, ele previa a conversa on-line, que ainda estava em “pesquisas incipientes”, e a chamou de “um telefone que escreve”. A tudo isso definiu como “a virtualidade real” ou, também em suas palavras, “a sociedade interativa”, que deixaria o espaço cibernético a partir da “grande fusão: a multimídia como ambiente simbólico”. Ao contrário de outros pesquisadores da época, ele considerou o vídeo “on demand” e os games como os grandes protagonistas desse novo sistema. São eles, escreveu, “que darão forma de maneira considerável aos usos, percepções e, em última analise, às consequências sociais da multimídia”.

Em 1.644 páginas, Castells errou em apenas uma linha – literalmente. Sua hipótese era que “devagar, mas com toda certeza, as práticas comerciais com cartão de crédito e números de contas bancárias desenvolverão redes separadas, enquanto a internet se expandirá como uma ágora eletrônica global”. Nada comprometedor para quem oferece, em exposição histórica de tamanho fôlego, um diagnóstico do capitalismo constituído a partir da década de 1980 com a junção das redes com a crença de que uma economia desregulamentada e com total liberdade para o capital resultaria em geração de riqueza, igualdade e desenvolvimento econômico.

Ao descrever o “cassino global” do “funcionamento em tempo real” do mercado financeiro, Castells retorna à sua base marxista e filia-se ao economista francês François Chesnais, expoente da tese da financeirização da economia. É aí que Castells encontra explicações para sustentar parte do conceito do seu capitalismo informacional e para explicar como os desdobramentos dessa lógica serviram de combustível para a crise de 2007/2008 e moldaram a indignação das ruas. Em resumo: a sociedade em rede hipertrofiou o capital financeiro, foi impulsionada por aquilo que Antônio Cândido chama de “platibanda liberalóide” e, agora, traz o grande desafio de reinventar a democracia.

Em “Redes de Indignação e Esperança”, Castells segue o itinerário intelectual de sua trilogia, mas também, sobretudo, de seu livro “Poder e Comunicação” (Ed. Fundação Calouste Gulbenkian), embora em “A Sociedade em Rede” já antecipe, ao analisar os fatos da Praça da Paz Celestial, na China, em 1989, o poder de mobilização pela infovia. Outros exemplos pioneiros que Castells oferece do que ocorre hoje é a utilização política da rede, no início da década de 1990, por grupos fundamentalistas cristãos, milícias americanas e zapatistas mexicanos. Ele mesmo se espanta e crava um ponto de exclamação ao fim de uma frase: “Um debate acirrado sobre o problema dos sem-teto (com participação eletrônica dos próprios sem-teto!) foi um dos resultados mais divulgados desse experimento no início dos anos 1990 [nos Estados Unidos]”.

Tudo que Castells registra agora é apenas a materialização de sua teoria do fim do século passado. Mas essa seria uma forma simplista de definir seu novo livro. Seu trabalho é resultado de ampla investigação empírica e teórica e um diálogo com uma imensa bibliografia. Seu objetivo é analisar o que há em comum entre todas essas experiências de revolta. Castells aponta como causa básica para a união global dos indignados “a humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político ou cultural” nas últimas décadas.

E por que só agora? Síntese: o capitalismo informacional, depois de alterar os modos de produção e de comunicação no século passado, transforma, de maneira irreversível, o exercício da cidadania. O “contrapoder” sempre existiu, mas agora é exercido pelos movimentos sociais municiados pela poderosa ferramenta da comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional. As redes sociais, vedetes dessa nova configuração, são apenas um componente do processo comunicativo. É preciso, na visão indignada de Castells, construir “comunidades livres no espaço urbano, uma vez que o espaço público institucional está ocupado pelos interesses das elites dominantes e suas redes”, incluindo aí a imprensa institucionalizada. A proximidade é condição imprescindível para a construção da comunidade. A proximidade também é um mecanismo psicológico para a superação do medo e explicação da violência de grupos como os Black Blocs. Castells repete Elias Canetti, autor de “Massa e Poder” (Cia das Letras), para quem as pessoas superam o medo quando juntas.

Em todos os países onde os movimentos prosperaram, a violência das forças policiais despertou solidariedade e abriu caminho para grupos defensores da luta armada. Todas as manifestações surgiram de algum fato banal ou aparentemente ordinário mal interpretado pela imprensa e, principalmente, por governos. Em Túnis, começou com um vendedor de frutas que se autoimolou por fogo para recuperar sua barraca confiscada por fiscais. Aqui, foram os 20 centavos da tarifa de ônibus. Entre as similaridades, estão as tentativas de governos de censurar a web. Assim como a polícia do Rio de Janeiro ensaiou impedir a transmissão de fotos do acampamento diante do prédio onde mora o governador Sérgio Cabral, o governo do Egito arriscou cortar a internet. Falhou. Afinal de contas, “a internet é a linha de vida da economia global interconectada”. Sete dias sem internet custaram ao Egito mais de 4% do PIB.

Fica a recomendação do autor: jamais menosprezar o que surge na rede e interpretar manifestações individuais como pequenas ou insignificantes porque, em minutos, a solidariedade fecha a rede e faz de um mínimo fato algo relevante politicamente, pois tudo é movido pela emoção. As manifestações permanecem ativas no “espaço de fluxo” e retornam rapidamente. O Egito, neste aspecto, é o melhor exemplo.

Castells é implacável com a imprensa e aponta seus sucessivos erros em todos os países, igualando-se à classe política em termos de perda de credibilidade. O primeiro manifesto divulgado pelos “Indignados” na Espanha, lembra,”não teve o apoio de nenhum partido político, sindicato ou associação civil e foi ignorado pela mídia”. O fato de o Jornal Nacional, da Rede Globo, ser obrigado a explicar porque seu principal âncora estava diante de um estádio de futebol em Fortaleza no dia da maior manifestação de rua da história do país é apenas a repetição de um equívoco mundial.

Esse erro coletivo, porém, alimentou a tendência à autocomunicação, vizinha da autorrepresentação. Castells cita Javier Toret, pesquisador de tecnopolítica e criador do Indymedia sob o slogan “Não odeie a mídia, torne-se ela”. O Indymedia é um dos coletivos internacionais similares ao Mídia Ninja, experiências baseadas no poder de a mensagem construir o meio. A crise de representação destituiu o “formador de opinião”, o jornalista como único intermediário da notícia e sua função de organizador das mensagens em meio ao “jornalismo de multidão”. Até mesmo o Facebook foi posto em cheque, por ser uma plataforma com proprietários. Como a rede de Mark Zuckerberg identifica pessoas com um software de reconhecimento facial, era acusado de ter baixa segurança, pois a empresa poderia quebrar a privacidade dos manifestantes “caso intimada por autoridades”. Essa suspeita, a princípio, soou como radicalismo – antes do caso Edward Snowden.

Castells ajuda a entender indagações feitas aos movimentos. A ausência de liderança se explica porque, segundo ele, os novos movimentos são contra a adoção de padrões da sociedade que está sendo contestada. Hierarquia é compreendida na concepção de Sérgio Buarque de Holanda, isto é, como sinônimo de algum privilégio. Os movimentos são marcados também por privilegiarem “o processo”, em vez do “produto” ou “resultado” das manifestações. Por isso, são horizontais, apartidários e raramente são programáticos (exceto contra ditaduras). São voltados para a mudança dos valores da sociedade e propõem a democracia deliberativa direta. Nessa ruptura, surgem, inclusive, moedas virtuais, como a do Occupy Wall Street. A primeira consequência de tudo isso é a mudança da agenda, mas talvez a mais relevante, no caso do Brasil, ainda esteja por vir com a alteração de critérios para o voto. Nos outros países foi assim e Castells explica por quê: as redes estão mudando a mente das pessoas.

“REDES DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – Movimentos Sociais na Era da Internet”
Manuel Castells. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Editora: Zahar. 276 págs., R$ 49,90

Links Manuel Castells

Entrevistas e textos com Manuel Castells

castells

 

29/06/2013 – o globo – Manuel Castells: ‘O povo não vai se cansar de protestar’ por Mauricio Meireles

28/06/2013 – isto é – Manuel Castells: “Dilma é a primeira líder mundial a ouvir as ruas” por Daniela Mendes

12/06/2013 – revista galileu – O ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista por Alexandre Matias

12/06/2013 – correio do povo – Lições de Castells sobre indignação por Juremir Machado

10/06/2013 – terra – Não basta apenas criticar na internet, diz sociólogo Manuel Castells por Lucas Rohãn

03/06/2013 – folha – Não basta um manifesto nas redes sociais para mobilizar as pessoas por Roberto Dias

28/11/2012 – outras palavras – Castells vê “expansão do não-capitalismo” por Paul Mason

03/08/2012 – outras palavras – Castells quer tecer alternativas por Francisco Guaita, da RT-TV

18/07/2011 – outras palavras – Castells propõe outra democracia por Daniela Frabasile

Entrevista com Marina

Agenda estratégica do país cabe nos 20 centavos, diz Marina
Por Daniela Chiaretti | De São Paulo (Valor)

 

“Nestes vinte centavos, que é o símbolo deste protesto, estão incluídos o hospital que não funciona, o problema da segurança e a falta de canais para que se saiba qual é a agenda estratégica do país”, diz Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e eventual candidata à Presidência da República pelo Rede Sustentabilidade.

Nos últimos dois anos, Marina deu 260 palestras que reuniram algo próximo a 170 mil pessoas, sendo que os jovens são metade deste público – 90% deles universitários, 10% secundaristas. Fala a eles sobre sua visão dos protestos que ganharam ruas no mundo – e agora no Brasil -, do novo sujeito político que está surgindo, do impacto transformador da internet em todos os setores. “Não sei porque as pessoas achavam que só a política ia ficar do mesmo jeito”, diz. Estes movimentos, acredita, são multicêntricos e podem ser o começo de um rearranjo no processo político. “Os antigos partidos políticos vão ter que se repensar.”

Marina sugere que recursos do petróleo sejam utilizados para melhorar o sistema de transporte público e a vida de milhões que vivem nas cidades. “Dizem que as passeatas estão impedindo as pessoas de ir e vir. Mas quem é que assegura o direito de ir e vir quando se fica uma hora no trânsito?”, rebate. A seguir, trechos da entrevista que concedeu ao Valor:

Valor: Agora, com a tarifa mais baixa, o que acontece?

Marina Silva: Venho dizendo há muito tempo que era só uma questão de tempo para que essas mobilizações virtuais transbordassem para o presencial.

Valor: Por quê?

Marina: Porque está surgindo um novo sujeito politico no mundo, e no Brasil não é diferente. Ele é uma característica deste tempo, que combina a grande quantidade de informação a que as pessoas têm acesso com a grande possibilidade de comunicação entre elas. E isso vai transformar a política. Todos os setores da sociedade estão sofrendo a influência da internet. Os negócios estão sendo transformados, os sistemas educativos, a produção de conhecimento, os meios de comunicação. Não sei por que as pessoas achavam que só a política ia ficar do mesmo jeito.

Valor: Qual é esse rearranjo?

Marina: As organizações políticas que temos surgiram a partir da revolução francesa e da revolução americana e nos trouxeram até aqui. Só que agora são insuficientes para responder aos 7 bilhões de seres humanos no planeta e ao surgimento da internet. Vai haver um novo rearranjo no que concerne à visão do processo político e ao processo em si, que não será mais verticalizado, mas cada vez mais horizontalizado. E no que concerne às estruturas, que terão que ter mais flexibilidade para comportar esta ação política baseada na mobilidade.

Valor: Como a senhora vê estes novos movimentos?

Marina: Neste momento temos uma crise econômica, social, ambiental, política e de valores, uma crise civilizatória. Estes movimentos não têm um centro único, são multicêntricos. E têm um núcleo estagnado. Há uma quantidade muito grande de pessoas que começam a sair desta estagnação e ir para a borda que está se movimentando.

Valor: O Brasil entrou na agenda deste processo global?

Marina: Sim. Desde 2009 venho falado sobre isso. Está surgindo um novo sujeito politico e um novo ativismo. E este ativismo não é mais dirigido pelo partido, pelo sindicato, pelas ONGs, pelas organizações estudantis e nem pelas lideranças carismáticas. Este novo ativismo é o que chamo de ativismo autoral. A diferença é que ele não tem centro, é multicêntrico Não tem lideranças fixas, as lideranças são móveis. Não tem aquela lógica de coluna, de porto seguro, de arco que empurra o movimento, como a gente tinha no ativismo dirigido, onde os partidos eram a coluna, o porto onde se ancoravam as mobilizações. A melhor metáfora para este ativismo autoral é o de uma âncora.

Valor: A senhora pode explicar melhor?

Marina: No porto você precisa estar atracado: tinha que estar ligado ao partido, ao sindicato, à central, à UNE (União Nacional dos Estudantes), à ONG ou à liderança carismática. No ativismo autoral, as pessoas têm âncoras. Estes movimentos têm várias bandeiras, mas há algo em estado de latência que é o desejo de melhorar a qualidade da representação política e o desejo de melhorar e ampliar a quantidade da participação. É o que chamo de democratizar a democracia.

Valor: Qual a liga destes movimentos?

Marina: Algo que os une é melhorar a representação e ampliar a participação. Mas cada um, como é livre, baixa a âncora ou levanta a âncora. Se está ou não concordando com aquela causa, vai à luta, vai à praça. Há uma liberdade, uma mobilidade. Não existe a velha forma do comando e se pode negociar pelo conjunto porque é um processo horizontal e com grande quantidade de pessoas. É por isso que há uma dificuldade grande dos que não conseguem perceber isso, de conversar com esses movimentos. Você não pode falar por um grupo achando que fala por todos. Nesta borda não tem centro, uma hora você é arco, outra hora é flecha; uma hora você lidera, outra hora é liderado. Neste momento me sinto liderada por este novo sujeito político e espero que se consiga fazer do Brasil a referência que poderia ser, de uma nova economia, que faça o deslocamento para modelos sustentáveis.

Valor: A redução da tarifa pode parar o movimento nas ruas?

Marina: Isso é algo que a gente precisa ver. Não são apenas os 20, 30 ou 40 centavos. O que está colocado é uma demanda por protagonismo político. As pessoas não querem mais continuar na posição em que foram colocadas pelos grandes partidos, que monopolizam a política. Não querem mais ficar como meros espectadores. Querem se reconectar com a potência da transformação política. Só que agora este novo sujeito político é autor, mobilizador e protagonista daquilo em que acredita.

“Não sei se o dinheiro do BNDES deveria ir para o JBS ou se poderia atender a outras demandas da sociedade”

Valor: O que as manifestações nas ruas estão dizendo?

Marina: Estão dizendo: vocês foram eleitos para me representar e estão nos substituindo, nós estamos retomando a prerrogativa de quem não está se sentindo legitimamente representado.

Valor: As pesquisas mostram que há um descontentamento com os partidos e com as instituições. Como a senhora, que tem o discurso da nova forma de fazer política, acredita que se canaliza este pessoal para a politica institucional, porque é ela que governa?

Marina: O que está acontecendo no mundo é o que chamo de democratizar a democracia. Temos que aprender que, em alguns momentos, em vez de ter uma reação reativa, pode-se ter uma reação de descontinuidade produtiva.

Valor: O que é isso?

Marina: É quando se introduz um freio a algumas práticas estagnadoras do processo de transformação – ao que significa mais do mesmo – e se começa a introduzir novos elementos que podem criar novas possibilidades.

Valor: Vivemos esse momento?

Marina: Não só o Brasil, é um momento do mundo. A borda quer se movimentar e questiona o centro estagnado, do poder pelo poder, o dinheiro pelo dinheiro. Na minha opinião há um desejo de se reconectar com a potência política. Qual o risco? A fragmentação, de não se conectar com a ideia de interesse coletivo. A fragmentação não levará a nada.

Valor: Como evitá-la?

Marina: Tem que encontrar a união na diversidade. Aprender a lidar com a ideia dos paradoxos. Isso pode ter uma força produtiva, criativa e livre para um novo boom civilizatório, que é o que espero que seja. A minha perspectiva é de longo prazo, de mantenedora de utopias. Estou vendo esta movimentação desde 1996, tenho percebido estas mudanças, tenho percebido que tem uma borda que está se descolando.

Valor: Isso já aconteceu antes?

Marina: Já vivemos isso em outros momentos da História. Existem aqueles que têm uma atitude arrogante e autoritária, de querer desqualificar ou assimilar. Estamos em processo de construção e desconstrução. Mas o processo politico é único, não existe repetição. Você se torna um conservador quando começa a querer administrar o sucesso na política. Quando quer transformar o ato criativo em uma fórmula e repetir esta fórmula para se manter no sucesso. A política é um ato único, produtivo, criativo e livre. E neste momento nós vivemos a beleza destes atos no mundo inteiro. E serão assim se imprimirem cada vez mais a cultura de paz, a ideia de interesse público, de interesse coletivo. No mundo inteiro as pessoas estão prospectando novas formas de realização para a democracia.

Valor: As demandas são muitas nas passeatas. Como evitar que termine em frustração?

Marina: Os jovens no Chile se mobilizaram e tiveram vitórias em relação às questões da educação. Ali surgiu um novo sujeito politico. Mesmo com tudo o que está acontecendo nos países da primavera árabe, não vai ser mais como antes. Essas movimentações têm algo que não pode ser medido no imediato.

Valor: Os protestos têm qualidade política?

Marina: No país do futebol, próximo à Copa do Mundo e em plena Copa das Confederações, as pessoas dizem claramente: “Queremos que o dinheiro do país seja investido em educação, em saúde, em segurança”. Isso é um avanço, tem qualidade política. Podem dizer: “Ah, mas vai passar e não vai dar em nada.” Talvez este novo sujeito politico tenha mais potência para as grandes transformações positivas do que tiveram as grandes mobilizações do ABC paulista que nos trouxeram até aqui, com os ganhos e as derrotas que tivemos. Porque os que eram transformadores e revolucionários, depois se tornaram conservadores. Esse novo sujeito político é desse tempo, da mesma forma que os sonhadores da década de 70, 80, 90 como foi o Lula, como foi o Florestan (Fernandes), como foi Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Marilena Chauí e tanta gente que foi a sustentação daqueles movimentos. E muita gente era conservador e ficava tentando reter a corrente de água, se colocavam contra. Mas existiram aqueles que contribuíram para que algo pudesse surgir.

Valor: Como se decifram este movimento?

Marina: Nesse momento, há necessidade de um olhar de aprendizagem, de desconstrução das nossas verdades e certezas, e de humildade. No século 21, com a internet, com a quebra da intermediação da informação, não é possível manter o monopólio da política. É preciso um novo arranjo em que os processos de tomada de decisão sejam mais flexíveis e horizontalizados.

Valor: Depois da tarifa de transporte ter baixado, o que sobra nestes movimentos no Brasil?

Marina: Não é o que sobra, é o que continua. Continuará com certeza a latência que está por trás do que levou milhares e milhares de pessoas às ruas. Elas não estão indo só pela tarifa, mas para dizer que não querem ser meros espectadores. Isso está acontecendo há algum tempo. As pessoas estão achando que podem continuar combinando em suas alcovas os interesses do país e os manifestantes estão dizendo que não querem mais estes segredos na República. É isso que está sendo dito.

Valor: Como dá liga com a política institucional que se tem hoje?

Marina: Infelizmente os partidos foram se tornando projetos de poder pelo poder, achando que estão no controle. Veja as pesquisas: 84% da população não queria mudanças no Código Florestal. Não se deu ouvido. Fizeram uma mobilização de 1,5 milhão de pessoas contra o Renan (Calheiros), não deram a mínima bola e até desqualificavam: “Isso é coisa no virtual, na internet, não vale”. E eu repetia: vai transbordar. Agora há que haver uma elaboração no acolhimento de tudo isso que está acontecendo. O Brasil é o lugar onde é possível que a força transformadora dessa borda que está aí se movimentando seja uma mutação e não uma ruptura abrupta.

“Transporte público não opõe quem tem dinheiro a quem não tem; todos estão ávidos por poder deixar o carro em casa”

Valor: O que é isso?

Marina: Uma mutação possibilitadora. Quando começamos o processo da Rede Sustentabilidade dizíamos que não é apenas um partido novo, é um novo partido que terá que ser horizontal, que não terá a velha fórmula estagnada e verticalizada e que tem que ser uma ferramenta para tentar contribuir com este novo sujeito politico que surge. Acho que os antigos partidos políticos vão ter que se repensar. Para mim, que estou há mais de 30 anos nesta borda, existe uma certa leveza.

Valor: Por quê?

Marina: Eu me sinto representada por esta borda que está se movimentando.

Valor: O que é ativismo móvel?

Marina: Não tem como ser paralisado, tem mobilidade. Vivemos um momento de agregação dispersiva, pessoas que vão se agregando em cima de ideais maiores e mais difusos. As pessoas querem ética na política, querem um mundo melhor. Isso possibilita uma agregação, mas que é dispersiva.

Valor: Por que dispersiva?

Marina: Porque ao estar integrados a estes grandes ideais, as pessoas se dispersam para as suas causas. E isso faz uma dispersão agregadora. Imantadas por este ideal as pessoas vão se agregando, uma em torno das outras. Eu pude ver esta agregação dispersiva e esta dispersão agregadora agora. Vejo no mundo inteiro e agora no Brasil.

Valor: Mas como tudo é muito espontâneo, há falta de controle e espaço para oportunismo e violência, que podem fazer tudo recuar.

Marina: Pois é. Mas esse é um processo que está em disputa para ganhar uma forma, que espero seja de uma cultura de paz. Este sujeito político novo está surgindo agora. O modelo que está aí estagnado levou 400 anos para ser o que é, e estão cobrando que este novo movimento já tenha as respostas? Os jovens, quando vão às praças na Espanha dizem “Nós ainda não temos respostas, mas já temos uma certeza: o que está aí não dá conta do nosso futuro”. Neste momento é preciso humildade de saber, como alguém já disse, que a verdade não está com nenhum de nós, mas entre nós. Todo organismo, para existir, precisa preservar algo. A democracia e suas instituições têm algo para ser preservado, mas têm algo para ser modificado. E não entender a necessidade dessa mudança é colocar em xeque as coisas boas que devem ser preservadas.

Valor: Os governos atenderam à demanda da tarifa. Como a senhora analisa esta atitude?

Marina: Temos que ter um aprendizado disso. Uma coisa é uma demanda objetiva que pode até ser atendida. Mas tem um tesouro muito maior para ser trabalhado, que é o que está em estado de latência. Se formos capazes de entender, todos nós, esta latência que está aí, vamos sair maiores e melhores para a democracia do que antes deste movimento aflorar. Alguém não se engane que vai dar os vinte centavos e “Pelo amor de Deus, saiam da rua, vão pra casa”, e isso está resolvido. Não é isso, pelo contrário. Tem uma riqueza enorme para ser trabalhada, porque este novo sujeito político é protagonista. É melhor procurar entender o que pode ser produzido a partir daí.

Valor: Como melhorar o transporte público em uma cidade como São Paulo? Com pedágio urbano? Esse tema opõe ricos e pobres?

Marina: Transporte público de qualidade não opõe quem tem dinheiro a quem não tem. Pelo contrário. As pessoas estão ávidas por poder deixar o carro na garagem e ir com segurança ao trabalho, ao parque, ao cinema. As pessoas sabem que em outros lugares do mundo isso acontece. Porque o imposto sobre petróleo não pode ser utilizado para melhorar o sistema de transporte? Porque este dinheiro não pode melhorar a vida das pessoas nas cidades? 84% das pessoas vivem em cidades. Não é uma demanda difusa, difícil de ser alcançada e poderia beneficiar milhões. Dizem que as passeatas estão impedindo as pessoas de ir e vir. Quem é que assegura o direito de ir e vir quando se fica uma hora no trânsito, porque em vez de botar dinheiro para transporte público se incentiva sem nenhuma contrapartida a indústria automobilística para encher cada vez mais as cidades de carros?

Valor: Nos últimos 10 anos a prioridade tem sido incluir pessoas no consumo, na cultura, em mais educação. Mas o Tesouro não é um buraco sem fundo…

Marina: Mas pode fazer escolhas estratégicas. Eu não sei se o dinheiro do BNDES deveria ir para a JBS ou se poderia ir para outras ações. Onde é feita a discussão? O orçamento público deve levar em conta as demandas da sociedade por bens e serviços que possam melhorar a qualidade de vida. É isso o que as pessoas estão dizendo. Nestes vinte centavos, que é o símbolo deste protesto, estão incluídos o hospital que não funciona, o problema da segurança e a falta de canais para que se saiba qual é a agenda estratégica do país. Porque se tem políticas de curto prazo só para alongar o prazo dos políticos? As pessoas estão dizendo: façam políticas de longo prazo em seus curtos prazos políticos. Não é o momento de se preocupar com as próximas eleições, mas com as próximas gerações.

Valor: Porque a senhora não está nestes protestos? Pensou em ir?

Marina: Eu estou nestes protestos. Eles estão em mim. Há muitos anos estou andando este Brasil inteiro, no ano passado dei 129 palestras e vejo que está surgindo este novo sujeito político. Agora, se vou no protesto, vou como mais um. Minha escolha de não estar ali é para não ter nenhuma atitude de instrumentalização ou seria incoerente com o que estou dizendo. Que este ativismo é autoral, que não é dirigido pelo partido, nem pelo sindicato nem pelos líderes carismáticos. As pessoas têm que parar de se iludir que existem salvadores da Pátria. Existem homens e mulheres que juntos se dispõem a construir a Pátria.

Valor: Nas manifestações se recolheram assinaturas para o Rede?

Marina: Não quisemos fazer isso por respeito a este ativismo autoral, estamos colhendo assinaturas nos espaços adequados. Seria uma contradição. Este partido não é para ter os movimentos a serviço dele, mas para contribuir com eles. Não pode ser goela abaixo.

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Leia mais em:

http://www.valor.com.br/politica/3169768/agenda-estrategica-do-pais-cabe-nos-20-centavos-diz-marina#ixzz2WtWKB3mB

 

 

Alguns links

Abaixo alguns textos, entrevistas e vídeos q podem ajudar a pensar sobre o q estamos vendo nas redes e nas ruas

Entrevistas e textos com Manuel Castells – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2013/06/30/links-manuel-castells/

Representações – Hermano Vianna – http://oglobo.globo.com/cultura/representacoes-8765603

Entrevista de Marina – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2013/06/21/entrevista-com-marina/

Gilberto Gil – http://oglobo.globo.com/pais/gilberto-gil-sobre-protestos-sera-volta-do-monstro-8749016

Quanto valem 20 centavos? – eliane brum – http://revistaepoca.globo.com//Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/quanto-valem-20-centavos.html

A hora e vez do Brasil (Página22) – http://www.pagina22.com.br/index.php/2013/06/a-hora-e-vez-do-brasil/

Grillo, uma mudança na gramática política- http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/1239797-grillo-revolucao-ou-bolha.shtml

Cidadania digital – redes de democracia colaborativa – https://cienciadaabelha.wordpress.com/2011/10/19/cidadania-digital/

Cidadãos 365 dias por ano – http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,cidadaos-365-dias-por-ano,542532,0.htm

P2P: um projeto também para a Democracia? – http://outraspalavras.net/2013/04/16/p2p-um-projeto-tambem-para-a-democracia/

Alemanha: os Piratas querem chegar ao Parlamento – http://outraspalavras.net/outrasmidias/?p=12338

Pedro Abramovay “Wikidemocracia, a reforma política – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1506201107.htm

Mudar o mundo sem tomar o poder – entrevista com John Holloway – http://www.johnholloway.com.mx/2011/08/16/entrevista-caros-amigos/

#DemocraciayPunto es wikigobierno y wikilegislaciones, 1 de 4 mecanismos que hacen posible una verdadera democracia