Punir mais só piora crime e agrava a insegurança

ENTREVISTA DA 2ª – MASSIMO PAVARINI

Punir mais só piora crime e agrava a insegurança
Castigo mais duro, herança dos EUA de Reagan, transforma criminoso leve em profissional, diz professor de Bolonha

“É UM PECADO , uma ideia louca” a noção de que penas maiores de prisão aumentem a segurança. “Acontece o contrário. Penas maiores produzem mais insegurança”, diz o italiano Massimo Pavarini, 62, professor da Universidade de Bolonha e considerado um dos maiores penalistas da Europa. Ele dá um exemplo: “Quanto mais se castiga um criminoso leve, mais profissional ele será quando voltar ao crime”.

Folha de São Paulo, 31 de agosto de 2009

MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Ligado ao pensamento de esquerda, Massimo Pavarini diz que essa ideia de punir mais teve como origem os EUA de Ronald Reagan, nos anos 80, e difundiu-se pelo mundo “como uma doença”. A eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA pode ser um sinal de que esse ideário se esgotou, acredita. Pavarini esteve em São Paulo na última semana para participar do congresso do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), onde deu a seguinte entrevista:

FOLHA – O sr. diz que o direito penal está em crise porque o discurso pró-punição está desacreditado e a ideia de ressocialização não funciona. O que fazer?
MASSIMO PAVARINI
– O cárcere parecia um invento bom no final de 1700, quando foi criado, mas hoje não demonstra mais êxito positivo. O que significa êxito positivo? Significa que o Estado moderno pode justificar a pena privativa de liberdade. Sempre se fala que o direito penal tem quatro finalidades:
serve para educar, produzir medo, neutralizar os mais perigosos e tem uma função simbólica, no sentido de falar para as pessoas honestas o que é o bem, o que é o mal e castigar o mal.
Após dois séculos de investigação, todas as pesquisas dizem que não temos provas de que a prisão efetivamente seja capaz de reabilitar. Isso acontece em todos os lugares do mundo.

FOLHA – O que fazer, então?
PAVARINI
– As prisões já não produzem suficientemente medo para limitar a criminalidade. Todos os criminólogos são céticos. O direito penal fracassou em todas as suas finalidades. Não conheço nenhum teórico otimista. Isso não significa que não possa haver alternativas. Há um movimento internacional em busca de penas alternativas. O que se imagina é que, se a prisão fracassou, a pena alternativa pode ter êxito punitivo. Há penas alternativas há três décadas e, se alguma pode surtir efeito, foi em algum momento específico, que não pode ser reproduzido em um lugar com história e recursos econômicos diferentes.

FOLHA – Numa conferência, o sr. disse que o Estado neoliberal, que começou na Inglaterra e nos EUA, não pensa mais em ressocializar o preso, mas em neutralizá-lo. Por que morreu a ideia de recuperar o preso?
PAVARINI
– Já se sabia que não dá para ressocializar o preso. O problema é outro. Existe uma obra bem famosa dos anos 70, chamada “Nothing Works” [nada funciona]. O livro foi escrito quando [Ronald] Reagan era governador da Califórnia [1967-1975]. Ele criou uma equipe de cientistas, de todas as cores políticas, e deu-lhes um montão de dinheiro. A pergunta era muito simples: você pode mostrar que o modelo de ressocialização dos presos tem um êxito positivo? Os cientistas pesquisaram muito e no final escreveram “nothing works”. A prisão não funciona nos EUA, na Europa nem na América Latina. Nada funciona se você pensa que a prisão pode reabilitar. Não pode. O cárcere tem o papel de neutralizar seletivamente quem comete crimes.

FOLHA – Ele cumpre esse papel?
PAVARINI
– Pode cumprir. O problema é que a neutralização do inimigo, a forma como o neoliberal vê o delinquente, significa o fim do Estado de direito. O primeiro problema é que você não sabe quantos são os inimigos. Essa é a loucura.
Os EUA prendem 2,75 milhões todos os dias. Mais de 5% da população vive nas prisões. São 750 presos por 100 mil habitantes. Há ainda os que cumprem penas alternativas. Esses são 5 milhões. Portanto, são 7,5 milhões na América os que estão penalmente controlados. Aqui no Brasil são 300 presos por 100 mil habitantes.

FOLHA – Há teóricos que dizem que nos EUA as prisões se converteram em um sistema de controle social.
PAVARINI
– Sim, isso ocorre. O setor carcerário nos EUA é quase tão forte quanto as fábricas de armas. Muitas prisões são privadas. É um bom negócio. O paradoxo dos EUA é que em 75, quando Reagan começa a buscar a Presidência, os EUA tinham 100 presos por 100 mil habitantes. Após 30 anos, a taxa multiplicou-se por oito. Os EUA não tinham uma tradição de prender muito. Prendiam menos do que a Inglaterra.

FOLHA – O senso comum diz que os presos crescem exponencialmente porque aumentou a violência.
PAVARINI
– Isso é muito complicado. Se a pergunta é “existe uma relação direta entre aumento da criminalidade e aumento da população presa?”, qualquer criminólogo do mundo, eu creio, vai dizer não. Os EUA não têm uma criminalidade brutal. Ela é comparável à criminalidade europeia. Eles têm um problema específico: o número elevado de casas com armas de fogo curtas. Um assalto vira homicídio.

FOLHA – Por que prendem tanto?
PAVARINI
– Os EUA prendem não tanto pelo crime, mas por medo social. Essa é a questão. A origem do medo social é bastante complexa, mas para mim tem uma relação mais forte com a crise do Estado de bem-estar social do que com o aumento da criminalidade. É um problema de inclusão social. Os neoliberais dizem que não dá para incluir todas as pessoas que não têm trabalho, os inválidos, os que estão fora do mercado. Os criminosos são os primeiros dessa categoria. Uma regra que ajudou a aumentar a população carcerária foi retirada do beisebol: três faltas e você está fora. Em direito penal isso significa que após três delitos, que podem ser pequenos, você está preso. Você está fora porque não temos paciência para tratá-lo. Vamos eliminá-lo.

FOLHA – Eliminar é o papel principal das prisões, então?
PAVARINI
– É um dos papéis. O direito penal é cada vez mais duro, as sentenças são mais longas, “life sentence” [prisão perpétua] é mais frequente, aplica-se a pena de morte.

FOLHA – Como essa ideia neoliberal funciona onde há muita exclusão?
PAVARINI
– Vou dizer algo que parece piada: quando os EUA dizem uma coisa, essa coisa é muito importante. Podem ser coisas brutais, grosseiras, mas quem diz são os EUA. Como imaginar que na Itália e na França, que têm ótimos vinhos, os jovens preferem Coca-Cola?
Não se entende. É o poder dos EUA que explica isso. A ideia de como castigar, porque castigar e quem castigar faz parte de uma visão de mundo. Se a América tem essa visão de mundo, isso se reproduz no mundo.

FOLHA – É por essa razão que cresce o número de presos no mundo?
PAVARINI
– Isso é um absurdo.
Dos 180 e poucos países do mundo, não passam de 10, 15 os que têm reduzido o número de presos. Na Itália, temos 100 presos por 100 mil habitantes.
Há 30 anos, porém, eram 25 por 100 mil. Aumentou quatro vezes em três décadas. Isso acontece na Ásia, na África, em países que não se pode comparar com os EUA e a Europa.
Creio que é uma onda do pensamento neoliberal, que se converte em políticas de direito penal mais severo. É engraçado que os EUA, nos anos 50 e 60, eram os mais progressistas em política penal, gastavam um montão de dinheiro com penas alternativas. Mas hoje as pessoas acham que o direito penal que castiga mais tem mais eficiência. Isso é desastroso. Nos EUA, o número de presos cresce também porque há um negócio penitenciário.

FOLHA – O que há de errado com esse tipo de negócio?
PAVARINI
– Os EUA têm cerca de 15% dos presos em cárceres privatizados. É uma ótima solução para a empresa que dirige a prisão. Ela sempre vai querer ter um montão de presos, é claro, para ganhar mais dinheiro, e isso nem sempre é a melhor política. É um negócio perverso.
Os empresários financiam lobistas que vão difundir o medo.
É um desastre. Mas pode ser que tudo isso mude. Obama parece ter uma visão oposta à dos neoliberais e já demonstra isso na saúde pública, um tema ligado à inclusão social. O difícil é que não há uma ideia suficientemente forte para se opor ao pensamento neoliberal sobre as penas. A esquerda não tem uma ideia para contrapor. Os políticos sabem que, se não têm um discurso duro contra o crime, eles perdem votos.

FOLHA – No Brasil, os políticos e a população defendem o aumento das penas. Penas maiores significam mais segurança?
PAVARINI
– Isso é um pecado, uma ideia louca, absurda. Acontece o contrário. Penas maiores produzem mais insegurança. É claro, um país não pode neutralizar todos os criminosos. Nos EUA, eles podem colocar na prisão o garoto que vende maconha. Prende por um, dois, cinco anos, e ele vai virar um criminoso profissional. Quanto mais se castiga um criminoso leve, mais profissional ele será quando voltar ao crime. Há mais de um século se diz que a prisão é a universidade do crime. É verdade. Mas, se um político diz “vamos buscar trabalho para esse garoto”, ele não ganha nada.

FOLHA – No Estado de São Paulo, o mais rico do país, faltam 55 mil vagas nos presídios e as prisões são muito precárias. Por que um Estado rico tem presídios tão ruins?
PAVARINI
– Há uma regra econômica que diz que a prisão, em qualquer lugar do mundo, deve ter uma qualidade de sobrevivência inferior à pior qualidade de vida em liberdade. Como aqui há favelas, as prisões têm de ser piores do que as piores favelas. A prisão tem de oferecer uma diferenciação social entre o pobre bom e o pobre delinquente. Claro que São Paulo poderia oferecer um presídio que é uma universidade, mas isso seria intolerável. O presídio ruim tem função simbólica.

FOLHA – Em São Paulo, o número de presos cresce à razão de 6.000 por mês. Faz sentido construir um presídio novo por mês?
PAVARINI
– Mais cárceres significam mais presos. Se você tem mais presídios, você castiga mais. Por isso os países promovem moratórias, decidem não construir mais presídios.

FOLHA – Políticos dizem que mais presídios melhoram a segurança.
PAVARINI
– A única coisa que você pode dizer é que mais presídios significa mais população presa. Há milhões de pessoas que delinqúem diariamente, e os presos são uma minoria. O sistema penal é seletivo, não pode castigar todos. As pessoas dizem que o crime não compensa, mas o crime compensa muito. O sistema não tem eficiência para castigar todos.
Quando você aumenta muito a população carcerária, algo precisa ser feito. Na Itália, há cada cada quatro, cinco anos há anistia. Entre os nórdicos, quando um juiz condena um preso, ele precisa saber a quantidade de vagas na prisão. Se não há vaga, outro preso precisa sair. O juiz indica quem sai. Porque é preciso responsabilizar o Poder Judiciário e a polícia pelos presídios. O cárcere tem de ser destinado aos mais perigosos. Uma prisão de merda custa 250 por dia na Itália. Não faz sentido usar algo tão caro para qualquer criminoso.

 

 

Yuval Noah Harari

Autor de ‘Homo Deus’ mapeia as graves implicações da tecnologia

MARCELO LEITE
ENVIADO ESPECIAL A LONDRES

12/11/2016 02h00 – Folha de São Paulo

Merece respeito um jovem historiador israelense que se põe a escrever uma “breve história da humanidade”, dá ao livro o título de “Sapiens” e vende mais de 2 milhões de cópias dele.

Dois anos depois, Yuval Noah Harari, 40, lança “Homo Deus “” Uma Breve História do Amanhã”, obra que chega às livrarias do país na próxima semana. Nela, ele se propõe a mapear as tendências das tecnologias e suas graves implicações para a humanidade nos próximos 200 anos.

Alguns dirão que o sucesso lhe subiu à cabeça. Neste caso, contudo, o dito não deve ser tomado como reprimenda, porque o livro consegue provocar reflexões avançadas sobre as consequências dos poderes “divinos” que a biotecnologia e a inteligência artificial vão conferindo aos homens e mulheres do século 21.

Fã da série de TV “Black Mirror”, que trata de distopias propiciadas pela tecnologia da informação, Harari acha um desatino que as pessoas abram mão tão facilmente de seus dados e privacidade para os aplicativos monopolísticos de relacionamento, vendas ou busca. Diz que só mantém uma página em rede social por razões comerciais, não para angariar “amigos”.

Para ele, a idolatria da informação, ou Big Data, pode substituir o humanismo liberal e tornar-se a “religião” do século 21, com grave ameaça para aquilo que a ciência não consegue explicar com seus algoritmos: a consciência. Mas ressalta que “Homo Deus” não faz profecias pessimistas sobre o mundo.

Ele prefere que o livro seja visto como uma convocação às armas da filosofia: “Se você não gosta dessas possibilidades, então faça algo a respeito”. Por exemplo, escrever um livro “” ou dois.

*

Folha – Começando pela pergunta final de seu livro: será que todos os organismos são algoritmos e a vida não passa de processamento de dados?

Yuval Noah Harari – Segundo o que sei sobre o establishment científico hoje, a resposta é “sim”. Se você perguntar aos biólogos, eles podem dizer que, num nível pessoal, acreditam em Deus e que existem almas, coisas assim. Mas quando vão ao laboratório ou escrevem para um periódico científico, a vida é mesmo apenas processamento de dados e todos os organismos são só algoritmos.

Creio que hoje essa é a ortodoxia científica. Eu não necessariamente acho que isso seja verdade, ou que todos os cientistas, como indivíduos, pensem assim, mas no establishment esse é o dogma.

Mas qual é a sua própria opinião a respeito?

Minha opinião é que a ideia de organismos como simples algoritmos tem sido bem-sucedida, especialmente na biotecnologia. Mas acho que existe aí uma grande lacuna nessa visão: a consciência, as experiências subjetivas.

Não temos nenhum modelo científico bom para explicá-las, e é por isso que sou cético quanto a essa visão da vida ser realmente verdadeira. Pode ser que em 20 ou 30 anos tenhamos um modelo da consciência em termos de processamento de dados.

Penso que podemos estar na posição em que a física estava no final do século 19, os físicos estavam convencidos de que realmente entendiam a realidade física e de que só restavam algumas coisas pequenas para resolver. Mas aí vieram revoluções tremendas com a teoria da relatividade e a mecânica quântica.

Acho que o mesmo pode acontecer com a biologia no século 21. Só existem algumas coisinhas como a consciência que não podemos explicar e, bum, uma revolução acontece nas próximas décadas.

Se eu tivesse de indicar a ideia central de seu livro “Homo Deus”, eu diria que a tecnologia está ganhando poderes para transformar crenças em realidades, portanto há que ter cuidado com aquilo em que se acredita. É isso mesmo?

É um excelente resumo do livro. Vai contra a ideia muito comum no século 21 de que a ascensão da tecnologia e da ciência tornaram menos importantes coisas como ideologia, religião, mitologia e ficção. Uma das ideias centrais do livro é que não, é exatamente o oposto.

Essas novas tecnologias dão poderes às ideologias e ficções humanas, coisas que as pessoas podiam imaginar, mas não tornar realidade.

As pessoas vêm sonhando com a imortalidade por milhares de anos, mas sempre foi só uma história religiosa, mitológica. Com o advento da biotecnologia, mais e mais gente está pensando que de fato podemos tornar essa fantasia mitológica uma realidade na Terra, primeiro para prolongar a vida e, eventualmente, superar a velhice e a morte.

Acho que as pessoas estão um pouco precipitadas, e otimistas, nas suas estimativas. Pensadores como Ray Kurzweil estão dizendo que em 30 anos pelo menos as pessoas ricas poderiam prolongar a vida indefinidamente e que hoje alguns de nós fazem parte do grupo de pessoas imortais.

Acho que 2050 é cedo demais. Mas, no longo prazo, digamos dois séculos, não creio que isso esteja além dos poderes humanos.

O sr. se refere ao prolongamento da vida fisiológica, ou pensa nalgum tipo de upload da mente humana em máquinas?

Essas são as duas grandes opções. Há a opção de usar engenharia biotecnológica e talvez conectar corpos e computadores diretamente para prolongar a existência física do corpo humano e do cérebro para além dos 150 anos.

A outra opção é preservar apenas a consciência, de alguma forma fazer seu upload em um computador. Gente muito séria nesses dois campos está dizendo que isso pode ser feito.

Minha grande dúvida é nosso entendimento do que seja mente ou consciência. Sem entender isso não se pode alcançar a imortalidade. E até aqui houve exatamente zero de progresso na tentativa de desenvolver consciência em computadores. Confunde-se inteligência com consciência.

Um de meus receios é que, antes, os humanos adquiriram controle sobre o mundo exterior. Aprendemos a reformatar a realidade física e ecológica fora de nós, mas não entendemos bem como o sistema ecológico funciona. Isso resultou na ruptura dele.

Receio que o mesmo possa acontecer no século 21, mas com o mundo interno. Ganharemos mais poderes para manipular o interior de nossos corpos, de nossos cérebros, mas, por não entendermos o ecossistema mental interno, o resultado será um desastre.

A biotecnologia e a inteligência artificial prometem dar poderes divinos à humanidade. O normal é se referir a isso como “brincar de Deus”, mas o sr. prefere falar em “tornar-se Deus”, daí “Homo Deus”. Deve-se entender que sua argumentação seria como que uma bioética turbinada?

Falo de tornar-se Deus e não de brincar de Deus porque não se trata de brincadeira, é para valer. É preciso lembrar o que os deuses eram nas mitologias tradicionais: não ideias abstratas, e sim seres com capacidades muito concretas. Se fizermos uma lista, os humanos já possuem muitas dessas capacidades e estão desenvolvendo mais e mais delas.

Se você ler o Velho Testamento, verá que muito do que o Deus dos hebreus deveria realizar era zelar pela produção agrícola, garantir que os campos fossem férteis. Os cientistas, hoje, estão se saindo muito melhor do que o Deus do Velho Testamento.

Outra capacidade que o Deus da Bíblia tinha era a de criar vida de acordo com seus desejos. Neste século nós já estamos no ramo de modificar vida e mesmo de criar formas de vida que o próprio Deus nunca conseguiu criar.

O livro adverte que os desenvolvimentos delineados pelo sr. não devem ser tomados como profecias, mas sim como cenários. Várias passagens, no entanto, dão a entender que esses cenários vão necessariamente acontecer. Críticas como as suas à biotecnologia e à inteligência artificial poderiam impedir a humanidade de tomar esse rumo?

Há alguns desenvolvimentos que são inevitáveis. Quando se considera o progresso da biotecnologia, acho inevitável que no século 21 isso vá continuar e que a humanidade ganhe imensos novos poderes para remodelar a vida.

Isso no nível mais fundamental. Além dele, começam a aparecer opções e escolhas. A tecnologia não é determinista. Pode-se usar biotecnologia para propósitos diferentes.

Para dar um exemplo do passado: há muitas décadas temos a capacidade de transplantar órgãos, e as pessoas imaginavam que o resultado seria um mercado livre para órgãos humanos.

Embora a gente veja alguns desses fenômenos perturbadores, em lugares como a China e a Coreia do Norte, no geral se pode dizer que isso não aconteceu, embora a tecnologia e fortíssimos incentivos de mercado estivessem presentes. Os humanos ainda têm a capacidade ética e política de impedir o que consideram os piores usos da tecnologia.

“Novas tecnologias matam deuses antigos e dão origem a deuses novos”, diz o livro. Por que é que necessitamos substituir a religião do humanismo, como o sr. diz, por uma nova religião, e não por uma ética secular, baseada em evidências, de baixo para cima?

Quando falo em dar vida a novos deuses não penso em reviver algum tipo de politeísmo antigo, ou hinduísmo.

De meu ponto de vista, o próprio humanismo não está baseado em evidências, também é um tipo de religião, de história de ficção. As ideias centrais do humanismo são apenas invenções humanas, basta pensar na ideia de que todos têm direitos iguais à vida e à liberdade, e assim por diante –são histórias que inventamos, não está nas leis da natureza ou no DNA.

Não me inclino a dizer que isso seja ruim. Histórias são essenciais para unificar as pessoas e tornar uma sociedade funcional.

Algumas histórias são melhores que as outras. Digo que se pode medir o valor de uma história por quanto sofrimento ela causa ou alivia. No século 20, se compararmos as histórias do liberalismo e do humanismo com as do nazismo e do comunismo, veremos que, de longe, as primeiras são muito melhores.

Só não acho que sejam histórias relevantes no século 21, por causa das imensas mudanças na tecnologia que trarão mudanças na sociedade e na economia. Vamos precisar de uma nova história, de uma nova ideologia ou uma nova religião, se quiser, muito mais bem adaptada para a sociedade do século 21.

Há uma seção no livro dedicada a desmontar a noção de livre arbítrio, mas daí o sr. afirma que a maior ameaça ao liberalismo e ao humanismo não é essa ideia filosófica de que não existe livre-arbítrio, e sim as tecnologias que vão aboli-lo. O sr. está de luto pelo liberalismo?

De certo modo, sim. O liberalismo está como a história dominante por dois ou três séculos, e em vários sentidos foi uma história muito melhor do que qualquer outra que a humanidade tenha inventado. Não acho que devamos ficar contentes com o fato de que o humanismo liberal esteja mais difícil de se manter.

Devemos ser realistas, porém. Com a ascensão de novas tecnologias, agarrar-se a noções do século 18, como a de livre-arbítrio, não vai nos ajudar muito. Nenhum sistema, nem mesmo a Igreja ou a KGB, ainda que coletando e analisando informação sobre você, podia entender o que se passa dentro de você.

Estamos chegando em um ponto em que teremos conhecimento biológico e capacidade de computação para criar algoritmos para entender os humanos melhor que eles podem entender a si próprios.

O algoritmo vai levar em conta seu DNA, sua pressão arterial, sua função cerebral, tudo, para entender seus sentimentos e escolhas muito melhor do que você. Ele poderá dizer: você quer isso e eu posso dizer por quê.

Isso é diferente dos grandes cenários tipo Big Brother do século 20. O medo do liberalismo era que algum sistema exterior, algum ditador, fosse esmagar sua individualidade. Agora o grande perigo é o oposto, que o indivíduo vá se desintegrar a partir de dentro.

Do ponto de vista científico, não há indivíduo. O ser humano é uma coleção de subsistemas biológicos. Vai desintegrar-se e ser substituído por essa coleção de subsistemas, que poderia ser compreendida e manipulada de fora.

Se isso soa muito abstrato ou teórico, eis um exemplo: os aparelhos Kindle. Antes, quando se queria escolher um livro para ler, ia-se à livraria. Ninguém sabia quem você era nem lhe recomendava nada.

Agora a Amazon faz isso por você, e vai se tornar cada vez melhor nisso. Se você conectar um Kindle a software de reconhecimento facial ou a sensores biométricos no seu corpo, estaremos muito perto do ponto em que a Amazon poderia saber o impacto emocional exato de cada sentença que você ler no livro.

Com esse conhecimento, ela será capaz de dizer não apenas o que fazer na vida, mas também pressionar seus botões emocionais e manipulá-lo numa extensão muito maior que qualquer ditador com que pudéssemos sonhar.

No final do livro o sr. lança outra questão –se a inteligência é mesmo mais valiosa que a consciência. Minha conclusão é que ele foi escrito com consciência e a favor da consciência. Na superfície parece um livro muito pessimista, mas também pode ser visto como uma convocação às armas –as armas da filosofia.

Eu enfatizo repetidamente que não se trata de um livro de profecias, porque ninguém sabe com que o mundo se parecerá em um século. Ele traça diferentes possibilidades.

Num certo sentido, é mesmo uma convocação às armas: se você não gosta dessas possibilidades, então faça algo a respeito. Ainda há tempo para pensar sobre essas questões e moldar nosso futuro.

É responsabilidade de historiadores, filósofos e pensadores pensar nas possibilidades mais negativas e assustadoras. Se você questionar o povo do Vale do Silício sobre como será o futuro, eles vão pintar esse lindo quadro de como a vida será boa com todas essas tecnologias. Eles têm um poder tremendo e um monte de dinheiro para pôr nesses sonhos.

O livro aponta a mudança do clima causada pelo homem como possível barreira para a conversão desenfreada da vida econômica e social em algoritmos, mas só de passagem. Por que chamar a atenção aos poderes criados pela tecnologia humana e não tanto para suas limitações?

Para muitas pessoas a mudança do clima pode ser a maior ameaça no século 21, e certamente não estamos fazendo o bastante a respeito disso. Isso porque hoje o único meio de parar a mudança do clima é frear o crescimento econômico, e não há governo na Terra disposto ou capaz de fazer isso.

Qualquer governo que fizer, no Brasil, na China, na Índia, cairá do poder em alguns poucos dias ou meses. Haverá uma revolução ou cairá pelo voto. No momento não há como parar a mudança do clima, e as repercussões para a maior parte das pessoas poderiam ser horrendas.

Não pus foco nisso como tópico principal do livro porque acredito que no longo prazo, no prazo realmente longo, mesmo que a maioria das pessoas sofram com a mudança do clima, ela não destruirá a humanidade nem impedirá o progresso de tecnologias como inteligência artificial e bioengenharia.

Na realidade, só vai acelerá-las, da mesma maneira que em tempo de guerra muitas restrições são deixadas de lado. A época da Segunda Grande Guerra foi um tempo de grande inovação tecnológica. Pense no Projeto Manhattan. Quando a sobrevivência está em causa, faz-se tudo o que for necessário para sobreviver.

Creio que a mudança do clima terá um efeito similar. No momento em que se atingir o ponto de ebulição, quando se tornar uma verdadeira crise, ela dará um incentivo ainda mais forte para explorar novas tecnologias, na esperança de que isso nos ajudará a superar a crise.

Quanto maior for a crise, mais os seres humanos estarão dispostos a deixar de lado restrições éticas e políticas e a seguir em direções extremas. Suspeito que o resultado será que a maioria das pessoas no mundo sofrerá enormemente, mas que pelo menos uma pequena elite será capaz de sobreviver e terá sob seu comando fantásticas novas tecnologias, muito além de tudo que conhecemos hoje.

Para a evolução de longo prazo da vida, na Terra e mesmo além dela, a coisa realmente mais importante serão as novas tecnologias e não a mudança do clima. Nesse sentido será parecido com Segunda Guerra Mundial que causou enorme sofrimento, mas no final a humanidade conseguiu atravessá-la, e o que herdamos de verdade dela são todas essas novas tecnologias que remodelaram o mundo, como aviões a jato, armas nucleares, radares etc.

“Homo Deus” é na verdade um livro sobre o longo prazo, o futuro da vida, e não sobre o futuro de médio prazo das sociedades humanas. Se eu fosse escrever um livro sobre como o mundo estaria em, digamos, 2050, aí daria muito mais atenção para a mudança do clima do que dei para a inteligência artificial.

Pretende escrever um livro desses?

Primeiro, ainda não tenho planos concretos para um próximo livro. Tento deixar que meus livros se escrevam a si próprios, não começo com uma ideia definida, vou escrever uma história do mundo. Escrevo coisas, dou conferências, aí as coisas começam a se acumular e, ei, isso pode já ser um livro em gestação.

Além disso, acho muito mais difícil falar do médio prazo, num sentido paradoxal. Se você tentar prever desenvolvimentos e eventos particulares, é quase impossível. Qual será a potência política dominante em 20 anos? EUA, China? Não sei, há tantas coisas que podem mudar e acontecer.

Já se você perguntar, num nível mais fundamental, o que vai influenciar o mercado de trabalho, aí posso ter mais confiança para dizer que a inteligência artificial o transformará inteiramente. As coisas mais fundamentais são na realidade mais fáceis de prever.

 O repórter especial MARCELO LEITE viajou a Londres a convite da Companhia das Letras.

CRÍTICA

Obra exagera cenário distópico, mas explora bem questões futuras

HÉLIO SCHWARTSMAN
COLUNISTA DA FOLHA

12/11/2016 02h00

“Homo Deus”, do historiador israelense Yuval Noah Harari, é um livro surpreendente desde o subtítulo: uma breve história do amanhã. Num mundo onde até o passado é incerto, é arriscado fazer previsões sobre o futuro.

O histórico de acertos dos profetas, sejam eles utópicos, distópicos ou preocupados apenas com a tecnologia, também recomenda ceticismo. Não vivemos no paraíso socialista, nem sob o tacão do Big Brother e ainda estou à espera de um carro aéreo como o dos Jetsons.

Harari tira isso de letra e ainda produz uma obra extremamente informativa, deliciosamente bem-escrita e que levanta alguns dos mais sérios problemas da humanidade para as próximas décadas. Tudo isso mobilizando conceitos de história, filosofia, biologia, psicologia etc. Curiosamente, Harari consegue ser, ao mesmo tempo, utópico e distópico.

O autor inicia a obra navegando sob o vento do otimismo. Fala como vencemos ou estamos perto de vencer as chagas que nos assombram: fome, doença e guerra.

“Pela primeira vez na história, mais pessoas morrem hoje por comer demais do que por comer de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do que são mortas por soldados, terroristas e criminosos somados”, escreve Harari.

É só a ponta do iceberg. A tecnologia não vai parar e, como uma espécie ambiciosa, nossos próximos alvos serão a imortalidade, a felicidade e a divindade.

Sim, parece exagerado, mas Harari, redefinindo um pouco esses termos, consegue mostrar de forma razoavelmente convincente um certo sentido neles. Não é impossível que desenvolvamos tecnologia para o homem viver até os 150 anos. Talvez sejamos capazes de fazer download de nossas consciências, a derrota da morte.

A felicidade é ainda mais fácil de atingir, seja por pílulas ou engenharia genética.

Quanto à divindade, nossa tecnologia atual já entrega muito mais do que os poderes atribuídos aos deuses pelos antigos, aí incluído Jeová no Antigo Testamento. Os avanços que virão nos tornarão cada vez mais o Homo Deus, título do livro.

Mas o mundo nunca é tão simples. A partir deste ponto, Harari prepara sua guinada distópica.

Convém qualificar esse “distópico”. O historiador não se considera um profeta. Pretende apenas apontar tendências. Paradoxalmente, quanto mais sucesso um autor como Harari tiver em mostrar problemas, de modo que se possa preveni-los, menos preciso o livro se torna.

Ciência e tecnologia correspondem a um modo de pensar. Nos últimos séculos, a ideologia que prosperou, à custa das velhas religiões, foi o humanismo liberal, a ideia de que a vida humana está acima de tudo e que são os valores que criamos que dão sentido à existência.

Harari aposta que o humanismo não resistirá ao avanço tecnológico. Ele será dinamitado, à medida que ficar mais claro que noções basilares para a ética humanista, como livre-arbítrio e autonomia, não são mais sólidas do que os deuses dos antigos.

Esses conceitos que fundam instituições como a democracia, o mercado, a Justiça, estão prestes a ser implodidos também pela popularização de programas de computador que nos conhecem melhor do que nós mesmos.

O robozinho da Amazon sabe bem os livros que eu gostarei e provavelmente comprarei. Logo saberá como reajo emocionalmente a cada passagem das obras. Inteligência e consciência já não são um par indissociável, e as máquinas estão ficando mais inteligentes do que o homem.

Esse é provavelmente o ponto mais fraco do livro. Não estou tão convencido de que o humanismo vá sucumbir ao dataísmo, possível religião do futuro na visão de Harari.

Ele parece menosprezar a incrível capacidade humana de acreditar no que bem deseja, apesar de evidências em contrário. A persistência das religiões e a eleição de Donald Trump são ótimos exemplos disso.

Há pontos em que ele chega a ser superficial. O estilo límpido de Harari, que torna a leitura fluida, esconde controvérsias e sutilezas argumentativas em torno desses complexos problemas.

O autor vai mais longe em seus cenários “distópicos”. Para o autor, nós delegaremos voluntariamente aos computadores as decisões mais importantes sobre nossas vidas, porque eles o farão melhor do que nós. Isso talvez não seja um mal, mas é definitivamente um mundo pós-liberal.

A igualdade também poderá sofrer estresse. Harari vislumbra um cenário em que uma pequena elite terá recursos para adquirir melhoramentos genéticos e talvez a imortalidade, enquanto a grande massa de pessoas se contenta com muito menos.

Talvez consigam experimentar um pouco da felicidade em drogas, mas apenas se a elite não considerar que esses humanos, já não necessários para os processos produtivos e para a guerra, já perderam a razão de existir.

“Homo Deus” talvez peque pela hipérbole, mas é certamente uma obra que vale a pena ler.

Homo Deus: uma breve história do amanhã
EDITORA Companhia das Letras
AUTOR Yuval Noah Harari
TRADUÇÃO Paulo Geiger
PREÇO R$ 54,90 (448 págs.)

Redes sociais formam ‘bolhas políticas’

Link – Estadão
BRUNO CAPELAS E MATHEUS MANS – O ESTADO DE S. PAULO
26 Março 2016 | 17h 52 ­ Atualizado: 26 Março 2016 | 17h 52

Desconhecidos do público, algoritmos selecionam conteúdos conforme a atividade dos usuários e podem limitar debate de ideias na internet

Antes de os brasileiros a favor e contra a nomeação do ex­presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil invadirem as ruas nas últimas semanas, grande parte deles manifestou seus pontos de vista nas redes sociais. Em seus perfis, compartilharam suas opiniões políticas, convocaram amigos para manifestações, travaram discussões e recorreram a medidas extremas, como deixar de seguir
amigos de longa data.

O que a maior parte dos usuários não sabe é que toda essa atividade é um “prato cheio” para os algoritmos, uma série de códigos baseados em inteligência artificial que estão entranhados no Facebook e em outros sites. Com base no que “aprende” sobre cada usuário, ele mostra mais conteúdos que “acha” que o usuário vai gostar.

Segundo especialistas consultados pelo Estado, a tecnologia que ajuda o usuário a encontrar mais conteúdo relevante na internet está criando uma “bolha” em torno das pessoas. No caso das disputas políticas, o efeito é claro: o usuário sempre tem a impressão de que está certo, já que só tem contato com aqueles que compartilham de sua visão.

Usar algoritmos em sites não é uma novidade. Eles ganharam fama em 1996, quando Sergey Brin e Larry Page, cofundadores do Google, escreveram um código para exibir primeiro as páginas da internet mais relevantes para uma determinada pesquisa. Sites com menor importância e menos links ficavam no fim da lista. A tecnologia ­ que atualmente leva em conta dezenas de outros fatores ­ deu origem ao
maior buscador de sites da internet.

Com o sucesso do Google, outras companhias da internet criaram algoritmos. No caso das redes sociais, o Facebook passou a exibir postagens dos usuários mediante sua relevância a partir do fim dos anos 2000. A tecnologia foi um dos fatores determinantes para seu sucesso.

Caixa­preta.
Assim como outras empresas, o Facebook nunca revelou em detalhes como seu algoritmo funciona. Pelo que se sabe, ele considera ações dentro do site: ao curtir, compartilhar, comentar ou bloquear conteúdos, o algoritmo “aprende” e passa a exibir apenas o que considera relevante para aquela pessoa. O restante fica no final do feed de notícias ­ ou, simplesmente, é ignorado.

“O algoritmo e o usuário coproduzem o feed”, explica o professor de ciência da informação da Universidade de Michigan, Christian Sandvig. “O computador te observa e aprende com o que você clica. Ao mesmo tempo, você decide como responder ao que ele mostra a você.”

Segundo o Facebook, o algoritmo ajuda o usuário a aproveitar melhor o conteúdo publicado na rede. “O volume de conteúdo criado e compartilhado é proporcional ao número de usuários. Assim, o algoritmo é uma forma de permitir que cada pessoa tenha acesso ao que julga mais importante”, disse a empresa, em nota. Atualmente, o Facebook é a rede social mais popular do mundo, com 1,59 bilhão de pessoas conectadas.

Na prática, se uma pessoa gosta mais de culinária do que esportes, ela interage de maneira positiva com postagens sobre o assunto. Ao compreender esta preferência, o algoritmo exibirá para este usuário as publicações relacionadas em primeiro lugar. Conteúdos sobre esportes ficarão, automaticamente, em segundo plano.

“O Facebook tende a filtrar aquilo que é socialmente relevante para um grupo. Isso dá a sensação de que toda a rede social concorda com você”, comenta a professora e pesquisadora de mídias sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Raquel Recuero.
Além da maçã.
Enquanto o algoritmo se restringe aos gostos pessoais, os efeitos não são nocivos. As coisas mudam de forma, entretanto, quando o conjunto de códigos começa a influenciar na visão política das pessoas. A “bolha política” já foi comprovada por diversos estudos. Um deles ­ realizado em novembro de 2010 pela Universidade da Califórnia, com aval do Facebook ­ simulou as eleições presidenciais americanas e concluiu que cerca de 340 mil pessoas mudaram de voto após verem uma postagem positiva sobre um
candidatos no topo do feed de notícias. “Seria bastante simples para uma rede social como o Facebook manipular uma eleição”, diz Sandvig.

No Brasil, nenhum estudo foi realizado para entender a influência do Facebook na política. Porém, usuários da rede social já sentiram na pele os efeitos da “bolha” ao longo das últimas semanas.

O administrador de empresas Radyr Papini, 37 anos, é a favor do impeachment da presidente Dilma e compartilha uma média de cinco posts contra o governo por dia. Ele afirma que, em seu feed de notícias, “95% das postagens são contra a presidente”. Do outro lado, a situação se repete. O estudante de matemática Gustavo Sales, 22 anos, bloqueou a maior parte dos amigos que são favoráveis ao
impeachment. Ele notou uma mudança clara em seu feed. “Agora, nunca vejo pessoas apoiando o impeachment.”

Limitação.
Esta sensação de que todos compartilham da mesma opinião causa problemas. A ausência de debate é um deles. “A experiência, sobretudo no Facebook, não permite que todo usuário seja escutado”, afirma Fábio Malini, coordenador do laboratório de estudos sobre internet e cultura da Universidade Federal do Espírito Santo. Outro fator é o “efeito manada”, que tem consequências nos mundos virtual e real: ao ver posições parecidas com a sua, as pessoas reforçam suas opiniões e se sentem mais estimuladas a protestar.

A solução para essa “bolha” ainda não está clara e a tarefa deve ficar mais difícil no futuro, à medida que outros sites adotam algoritmos. Nas últimas semanas, Twitter e Instagram anunciaram que vão abandonar a cronologia das publicações em favor desses códigos.

“É importante que as pessoas estejam conscientes desse processo algorítmico de seleção”, alerta Pedro Domingos, autor do livro The Master Algorithm e professor de ciências da computação da Universidade de Washington. “No futuro, ele será usado por outros serviços, que ainda nem imaginamos.”

mudança climática

Aviso do Painel sobre Risco Climático : Pior ainda está por vir

By JUSTIN GILLIS (NYTimes – Tradução via Google Translate)

YOKOHAMA , Japão – A mudança climática já está a ter efeitos radicais em todos os continentes e em todo os oceanos do mundo , disseram cientistas na segunda-feira, e avisaram que o problema era provável que cresça substancialmente pior , a menos que as emissões de gases de efeito são colocados sob controle.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática , um grupo das Nações Unidas que resume periodicamente a ciência do clima , concluiu que calotas polares estão derretendo , o gelo marinho no Ártico está em colapso, o abastecimento de água estão sob estresse , ondas de calor e fortes chuvas estão se intensificando , recifes de corais estão morrendo , e os peixes e muitas outras criaturas estão migrando para os pólos ou em alguns casos vão extintos.

Os oceanos estão subindo a um ritmo que ameaça as comunidades costeiras e estão se tornando mais ácidos como eles absorvem parte do dióxido de carbono emitido por carros e usinas de energia, que é matar algumas criaturas ou nanismo seu crescimento, o relatório.

A matéria orgânica congelada no solo do Ártico desde a civilização começou antes , agora está derretendo , permitindo a decair em gases de efeito estufa que causam o aquecimento mais , disseram os cientistas. E o pior ainda está por vir , os cientistas disseram na segunda de três relatórios que são esperados para transportar um peso considerável no próximo ano como nações tentam chegar a acordo sobre um novo tratado climático global.
Em particular, o relatório enfatizou que a oferta de alimentos do mundo está em risco considerável – uma ameaça que pode ter consequências graves para as nações mais pobres .

“Ninguém neste planeta vai ser intocada pelos impactos da mudança climática”, Rajendra K. Pachauri, presidente do painel intergovernamental , disse em uma coletiva de imprensa na segunda-feira a apresentação do relatório .

O relatório estava entre as mais preocupante ainda emitido pelo painel científico. O grupo, juntamente com Al Gore, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007 por seus esforços para esclarecer os riscos da mudança climática. O relatório é o trabalho final de várias centenas de autores , detalhes dos rascunhos deste e do último relatório da série, que será lançado em Berlim em abril, vazaram nos últimos meses.

O relatório tenta projetar como os efeitos irá alterar a sociedade humana nas próximas décadas. Embora o impacto do aquecimento global pode realmente ser moderado por fatores como a mudança econômica ou tecnológica, o relatório constatou , as interrupções são, todavia, susceptíveis de ser profundo. Isso será especialmente verdade se as emissões são autorizados a continuar em um ritmo galopante , disse o relatório.

Ele citou o risco de morte ou ferimentos em larga escala , os danos prováveis ​​para a saúde pública , o deslocamento de pessoas e potenciais migrações em massa .

“Ao longo do século 21, os impactos da mudança climática são projetadas para desacelerar o crescimento econômico, redução da pobreza tornar mais difícil, erodir ainda mais a segurança alimentar , e prolongar existente e criar novas armadilhas da pobreza , este último particularmente nas áreas urbanas e emergentes pontos quentes da fome “, o relatório declarou .

O relatório também citou a possibilidade de conflitos violentos por terra , água ou outros recursos , para que as alterações climáticas podem contribuir indiretamente ” , exacerbando os motoristas bem estabelecidas desses conflitos , como a pobreza e choques econômicos . ”

Os cientistas enfatizaram que a mudança climática não é apenas um problema do futuro distante, mas está acontecendo agora.

Estudos descobriram que partes da região do Mediterrâneo estão secando por causa da mudança climática, e alguns especialistas acreditam que as secas lá têm contribuído para a desestabilização política no Oriente Médio e Norte da África .
Em grande parte do oeste americano , montanha neve acumulada está em declínio , ameaçando o abastecimento de água para a região, os cientistas disseram no relatório. E a neve que cai está derretendo no início do ano , o que significa que há menos água melt para aliviar os verões secos . No Alasca, o colapso do gelo do mar está permitindo que grandes ondas para atacar a costa , causando erosão tão rápida que ele já está obrigando comunidades inteiras a se deslocar.

” Agora estamos no ponto em que há tanta informação, tanta evidência , que não podemos mais alegar ignorância “, disse Michel Jarraud , secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, disse na entrevista coletiva.

O relatório foi rapidamente recebido em Washington , onde o presidente Obama está tentando usar seu poder executivo sob o Clean Air Act e outras leis para impor novos limites significativos sobre as emissões de gases de efeito do país. Ele enfrenta determinada oposição no Congresso.

” Há aqueles que dizem que não podemos dar ao luxo de agir”, disse o secretário de Estado, John Kerry em um comunicado. ” Mas espera é verdadeiramente exorbitantes. Os custos da inacção são catastróficos . ”

Em meio a todos os riscos os especialistas citados , eles conseguiram encontrar um ponto brilhante . Desde o painel intergovernamental emitiu seu último grande relatório , em 2007 , ele foi encontrado uma evidência crescente de que os governos e empresas de todo o mundo estão fazendo grandes planos para adaptar a perturbações climáticas , assim como alguns conservadores nos Estados Unidos e um pequeno número de cientistas continuam a negar que existe um problema.

“Eu acho que lidar efetivamente com a mudança climática é apenas vai ser algo que as grandes nações fazer”, disse Christopher B. Field, co- presidente do grupo de trabalho que redigiu o relatório e um cientista da terra na Instituição Carnegie para a Ciência , em Stanford , na Califórnia Falar de adaptação ao aquecimento global já foi evitado em alguns setores , com o fundamento de que seria desviar a atenção da necessidade de reduzir as emissões . Mas nos últimos anos temos visto uma mudança de pensamento , incluindo a investigação de cientistas e economistas que defendem que ambas as estratégias devem ser perseguidos ao mesmo tempo.

Um exemplo flagrante da mudança ocorreu recentemente no estado de Nova York, onde a Comissão de Serviço Público ordenou Consolidated Edison , a concessionária de energia elétrica que serve Nova York e alguns subúrbios , para gastar US $ 1 bilhão de atualizar seu sistema para evitar danos futuros de inundações e outras perturbações meteorológicas.

O plano é uma reação aos apagões provocados pelo furacão Sandy . Con Ed levantará paredes cheias , enterrar algum equipamento vital e realizar um estudo sobre se os riscos climáticos emergentes exigem ainda mais mudanças . Outras utilidades do estado enfrentam exigências semelhantes , e os reguladores de serviços públicos em todo os Estados Unidos estão discutindo a possibilidade de seguir o exemplo de Nova York.

Mas com um fracasso global para limitar gases de efeito estufa , o risco está a aumentar , que as mudanças climáticas nas próximas décadas poderia sobrecarregar tais esforços de adaptação , o painel concluiu . Ele citou um risco particular que, em um clima mais quente , os agricultores não será capaz de manter-se com a demanda crescente de fast- food .

 

” Quando a oferta cai abaixo da demanda, alguém não tem comida suficiente”, disse Michael Oppenheimer , cientista climático da Universidade de Princeton que ajudou a escrever o novo relatório. ” Quando algumas pessoas não têm comida , você tem fome. Sim, eu estou preocupado. ”

As pessoas mais pobres do mundo , que tiveram praticamente nada a ver com a causa do aquecimento global , vai estar no topo da lista das vítimas como rupturas climáticas intensificam , disse o relatório. Ele citou uma estimativa do Banco Mundial de que os países pobres precisam de até US $ 100 bilhões por ano para tentar compensar os efeitos da mudança climática , pois eles estão começando agora , na melhor das hipóteses , alguns bilhões de dólares por ano em tal ajuda dos países ricos .

A cifra de US $ 100 bilhões, embora incluídos no relatório principal de 2.500 páginas, foi removido de um de 48 páginas sumário executivo para ser lido por líderes políticos mais importantes do mundo . Foi entre as mudanças mais significativas feitas como o resumo sofreu revisão final , durante uma sessão de edição de vários dias em Yokohama.

A edição veio depois de vários países ricos, incluindo os Estados Unidos , as perguntas sobre a língua levantada , de acordo com várias pessoas que estavam na sala no momento, mas não quiseram ser identificadas porque as negociações eram privados . A linguagem é controversa porque os países pobres são esperados para renovar a sua demanda por ajuda neste mês de setembro , em Nova York, em uma reunião de cúpula de líderes mundiais , que tentarão avançar sobre um novo tratado para limitar gases de efeito estufa .

Muitos países ricos argumentam que US $ 100 bilhões por ano é uma exigência realista , que seria, essencialmente, obrigá-los a duplicar os seus orçamentos para a ajuda externa , em um momento de dificuldades econômicas em casa. Esse argumento tem alimentado um sentimento crescente de indignação entre os líderes dos países mais pobres , que se sentem os seus povos estão pagando o preço por décadas de consumo ocidental perdulários .

Duas décadas de esforços internacionais para limitar as emissões têm rendido pouco resultado , e não está claro se as negociações em Nova York esta queda vai ser diferente. Embora as emissões de gases de efeito estufa começaram a diminuir ligeiramente em muitos países ricos, incluindo os Estados Unidos , esses ganhos estão sendo inundados pelas emissões provenientes dos crescentes potências econômicas como a China ea Índia.

Para os países mais pobres do mundo , a comida não é o único problema, mas pode ser a mais aguda. Várias vezes nos últimos anos, as perturbações climáticas nas principais regiões produtoras de ter ajudado a lançar a oferta ea demanda fora de equilíbrio , contribuindo para aumentos de preços que inverteu décadas de ganhos contra a fome no mundo , pelo menos temporariamente.

O aviso sobre a oferta de alimentos no novo relatório é muito mais acentuada no tom do que qualquer anteriormente emitido pelo painel. Isso reflete um crescente corpo de pesquisa sobre quantos são culturas sensíveis às ondas de calor e estresse hídrico. O relatório disse que a mudança climática já estava arrastando para baixo a produção de trigo e milho em uma escala global, em comparação com o que seria de outra maneira .

David B. Lobell , um cientista da Universidade de Stanford, que publicou grande parte das pesquisas recentes e ajudou a escrever o novo relatório, disse em uma entrevista que, no entanto, muito pouco trabalho a ser feito para compreender o risco , muito menos contra ele com uma melhor colheita variedades e técnicas de cultivo . “É uma quantidade surpreendentemente pequena de esforço para as apostas “, disse ele .

Timothy Gore , analista da Oxfam , o grupo antipobreza que enviou observadores ao processo em Yokohama, elogiou o novo relatório como pintar um quadro claro das consequências de um planeta em aquecimento . Mas ele alertou que sem maiores esforços para limitar o aquecimento global e para se adaptar às mudanças que se tornaram inevitáveis ​​”, o objetivo que temos em Oxfam de assegurar que cada pessoa tem comida suficiente para comer poderia ser perdida para sempre. “

Resenha Castells

PODER QUE HUMILHA SERÁ PODER CONTESTADO
Por Jorge Félix | Para o Valor, de São Paulo

Capitalismo informacional transforma, de modo irreversível, o exercício da cidadania

VALOR ECONÔMICO, Caderno EU & CULTURA, 20-08-2013

[Agência Brasil / Agência Brasil

[Todas as manifestações surgiram de algum fato banal ou aparentemente ordinário mal interpretado pela imprensa e, principalmente, por governos]

Tão logo as manifestações populares ocuparam as ruas de várias capitais, em junho, o nome de Manuel Castells passou a ser lembrado por muitos que tentam compreender os novos movimentos sociais. Nenhuma surpresa. Diretor do Instituto Interdisciplinar de Internet na Universidade Aberta da Catalunha, o sociólogo espanhol é um dos acadêmicos mais citados no mundo. Surpreendente mesmo é a sociologia, depois de passar décadas sob a pecha de uma ciência em decomposição, ver universidades fecharem seus departamentos ou reduzirem orçamentos para pesquisa na área e até levar Anthony Giddens a sair em sua defesa, testemunhar um sociólogo chegar ao século XXI como o grande intérprete dos novos tempos. Pois é isso que é Castells. Seu “Redes de Indignação e Esperança” torna-se indispensável para quem está nas ruas ou para quem quer, ou precisa, entendê-las em toda sua complexidade. No entanto, antes de abrir o livro, é preciso explicar porque o autor alcançou tal estatura.

No Brasil, Castells é muito citado e pouco lido além das fronteiras da universidade. São convenientes algumas informações sobre a construção de seu pensamento a respeito do capitalismo pós-internet. A empreitada começou na década de 1970. Nessa fase, com uma coloração marxista – que iria empalidecer no futuro, mas, de forma alguma, seria abandonada na essência -, iniciou sua reputação acadêmica com estudos sobre urbanismo. Seu livro “A Questão Urbana” (Ed. Paz e Terra) até hoje é referência no tema da especulação imobiliária e o conluio desta com os poderes municipais. Mas é com a trilogia “A Era da Informação” (Ed. Paz e Terra) formada pelo famoso “A Sociedade em Rede” seguido de “O Poder da Identidade” e “Fim de Milênio”, publicados aqui em 1999, que Castells ganha maior amplitude como formulador de teses e conceitos que hoje o fazem referencial.

O que Castells antecipou do que o planeta vê hoje nas ruas? Simplesmente, tudo. Uma releitura atenta da trilogia à luz dos movimentos Primavera Árabe, Comboio da Liberdade, Occupy Wall Street, Los Indignados ou Passe Livre e Mídia Ninja constata a justiça feita por Anthony Giddens quando o comparou ao Max Weber de “Economia e Sociedade”.

[O “contrapoder” sempre existiu, mas agora é exercido pelos movimentos sociais municiados pela força da comunicação]

Com base em uma metodologia historicista, Castells analisa a passagem do capitalismo industrial para um processo definido por ele como informacionalismo. Enquanto no capitalismo industrial as fontes de energia determinavam o ritmo de “modernização”, no capitalismo informacional a produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimento, de processamento da informação e de comunicação em símbolos.

O leitor deve, a esta altura, estar inclinado a trancar Castells atrás dos portões da universidade. Aos poucos, porém, perceberá quanto suas categorias explicam a prática. O capitalismo informacional cria, segundo ele, um “tempo intemporal”, um “espaço de fluxos”, uma nova divisão do trabalho, com consequências cruéis para quem vive (ou pretende ainda viver) de salário, um enfraquecimento do Estado, elimina a família patriarcal e alimenta o crime globalizado. Feminismo, ambientalismo, envelhecimento populacional, sexualidade, religião são temas visitados por Castells, como se em 1996, quando escreveu, já quisesse interpretar a imensa variedade de bandeiras dos manifestantes materializados pelas redes sociais.

“A repentina aceleração do tempo histórico, aliada à abstração do poder em uma rede de computadores, vem desintegrando os mecanismos atuais de controle social e de representação política”, alertou Castells há 17 anos. A releitura da trilogia, hoje, espanta pela precisão com que o sociólogo antecipa os tempos atuais. Quando a novidade na comunicação mediada por computadores era o e-mail, ele previa a conversa on-line, que ainda estava em “pesquisas incipientes”, e a chamou de “um telefone que escreve”. A tudo isso definiu como “a virtualidade real” ou, também em suas palavras, “a sociedade interativa”, que deixaria o espaço cibernético a partir da “grande fusão: a multimídia como ambiente simbólico”. Ao contrário de outros pesquisadores da época, ele considerou o vídeo “on demand” e os games como os grandes protagonistas desse novo sistema. São eles, escreveu, “que darão forma de maneira considerável aos usos, percepções e, em última analise, às consequências sociais da multimídia”.

Em 1.644 páginas, Castells errou em apenas uma linha – literalmente. Sua hipótese era que “devagar, mas com toda certeza, as práticas comerciais com cartão de crédito e números de contas bancárias desenvolverão redes separadas, enquanto a internet se expandirá como uma ágora eletrônica global”. Nada comprometedor para quem oferece, em exposição histórica de tamanho fôlego, um diagnóstico do capitalismo constituído a partir da década de 1980 com a junção das redes com a crença de que uma economia desregulamentada e com total liberdade para o capital resultaria em geração de riqueza, igualdade e desenvolvimento econômico.

Ao descrever o “cassino global” do “funcionamento em tempo real” do mercado financeiro, Castells retorna à sua base marxista e filia-se ao economista francês François Chesnais, expoente da tese da financeirização da economia. É aí que Castells encontra explicações para sustentar parte do conceito do seu capitalismo informacional e para explicar como os desdobramentos dessa lógica serviram de combustível para a crise de 2007/2008 e moldaram a indignação das ruas. Em resumo: a sociedade em rede hipertrofiou o capital financeiro, foi impulsionada por aquilo que Antônio Cândido chama de “platibanda liberalóide” e, agora, traz o grande desafio de reinventar a democracia.

Em “Redes de Indignação e Esperança”, Castells segue o itinerário intelectual de sua trilogia, mas também, sobretudo, de seu livro “Poder e Comunicação” (Ed. Fundação Calouste Gulbenkian), embora em “A Sociedade em Rede” já antecipe, ao analisar os fatos da Praça da Paz Celestial, na China, em 1989, o poder de mobilização pela infovia. Outros exemplos pioneiros que Castells oferece do que ocorre hoje é a utilização política da rede, no início da década de 1990, por grupos fundamentalistas cristãos, milícias americanas e zapatistas mexicanos. Ele mesmo se espanta e crava um ponto de exclamação ao fim de uma frase: “Um debate acirrado sobre o problema dos sem-teto (com participação eletrônica dos próprios sem-teto!) foi um dos resultados mais divulgados desse experimento no início dos anos 1990 [nos Estados Unidos]”.

Tudo que Castells registra agora é apenas a materialização de sua teoria do fim do século passado. Mas essa seria uma forma simplista de definir seu novo livro. Seu trabalho é resultado de ampla investigação empírica e teórica e um diálogo com uma imensa bibliografia. Seu objetivo é analisar o que há em comum entre todas essas experiências de revolta. Castells aponta como causa básica para a união global dos indignados “a humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político ou cultural” nas últimas décadas.

E por que só agora? Síntese: o capitalismo informacional, depois de alterar os modos de produção e de comunicação no século passado, transforma, de maneira irreversível, o exercício da cidadania. O “contrapoder” sempre existiu, mas agora é exercido pelos movimentos sociais municiados pela poderosa ferramenta da comunicação autônoma, livre do controle dos que detêm o poder institucional. As redes sociais, vedetes dessa nova configuração, são apenas um componente do processo comunicativo. É preciso, na visão indignada de Castells, construir “comunidades livres no espaço urbano, uma vez que o espaço público institucional está ocupado pelos interesses das elites dominantes e suas redes”, incluindo aí a imprensa institucionalizada. A proximidade é condição imprescindível para a construção da comunidade. A proximidade também é um mecanismo psicológico para a superação do medo e explicação da violência de grupos como os Black Blocs. Castells repete Elias Canetti, autor de “Massa e Poder” (Cia das Letras), para quem as pessoas superam o medo quando juntas.

Em todos os países onde os movimentos prosperaram, a violência das forças policiais despertou solidariedade e abriu caminho para grupos defensores da luta armada. Todas as manifestações surgiram de algum fato banal ou aparentemente ordinário mal interpretado pela imprensa e, principalmente, por governos. Em Túnis, começou com um vendedor de frutas que se autoimolou por fogo para recuperar sua barraca confiscada por fiscais. Aqui, foram os 20 centavos da tarifa de ônibus. Entre as similaridades, estão as tentativas de governos de censurar a web. Assim como a polícia do Rio de Janeiro ensaiou impedir a transmissão de fotos do acampamento diante do prédio onde mora o governador Sérgio Cabral, o governo do Egito arriscou cortar a internet. Falhou. Afinal de contas, “a internet é a linha de vida da economia global interconectada”. Sete dias sem internet custaram ao Egito mais de 4% do PIB.

Fica a recomendação do autor: jamais menosprezar o que surge na rede e interpretar manifestações individuais como pequenas ou insignificantes porque, em minutos, a solidariedade fecha a rede e faz de um mínimo fato algo relevante politicamente, pois tudo é movido pela emoção. As manifestações permanecem ativas no “espaço de fluxo” e retornam rapidamente. O Egito, neste aspecto, é o melhor exemplo.

Castells é implacável com a imprensa e aponta seus sucessivos erros em todos os países, igualando-se à classe política em termos de perda de credibilidade. O primeiro manifesto divulgado pelos “Indignados” na Espanha, lembra,”não teve o apoio de nenhum partido político, sindicato ou associação civil e foi ignorado pela mídia”. O fato de o Jornal Nacional, da Rede Globo, ser obrigado a explicar porque seu principal âncora estava diante de um estádio de futebol em Fortaleza no dia da maior manifestação de rua da história do país é apenas a repetição de um equívoco mundial.

Esse erro coletivo, porém, alimentou a tendência à autocomunicação, vizinha da autorrepresentação. Castells cita Javier Toret, pesquisador de tecnopolítica e criador do Indymedia sob o slogan “Não odeie a mídia, torne-se ela”. O Indymedia é um dos coletivos internacionais similares ao Mídia Ninja, experiências baseadas no poder de a mensagem construir o meio. A crise de representação destituiu o “formador de opinião”, o jornalista como único intermediário da notícia e sua função de organizador das mensagens em meio ao “jornalismo de multidão”. Até mesmo o Facebook foi posto em cheque, por ser uma plataforma com proprietários. Como a rede de Mark Zuckerberg identifica pessoas com um software de reconhecimento facial, era acusado de ter baixa segurança, pois a empresa poderia quebrar a privacidade dos manifestantes “caso intimada por autoridades”. Essa suspeita, a princípio, soou como radicalismo – antes do caso Edward Snowden.

Castells ajuda a entender indagações feitas aos movimentos. A ausência de liderança se explica porque, segundo ele, os novos movimentos são contra a adoção de padrões da sociedade que está sendo contestada. Hierarquia é compreendida na concepção de Sérgio Buarque de Holanda, isto é, como sinônimo de algum privilégio. Os movimentos são marcados também por privilegiarem “o processo”, em vez do “produto” ou “resultado” das manifestações. Por isso, são horizontais, apartidários e raramente são programáticos (exceto contra ditaduras). São voltados para a mudança dos valores da sociedade e propõem a democracia deliberativa direta. Nessa ruptura, surgem, inclusive, moedas virtuais, como a do Occupy Wall Street. A primeira consequência de tudo isso é a mudança da agenda, mas talvez a mais relevante, no caso do Brasil, ainda esteja por vir com a alteração de critérios para o voto. Nos outros países foi assim e Castells explica por quê: as redes estão mudando a mente das pessoas.

“REDES DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – Movimentos Sociais na Era da Internet”
Manuel Castells. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Editora: Zahar. 276 págs., R$ 49,90

Links Manuel Castells

Entrevistas e textos com Manuel Castells

castells

 

29/06/2013 – o globo – Manuel Castells: ‘O povo não vai se cansar de protestar’ por Mauricio Meireles

28/06/2013 – isto é – Manuel Castells: “Dilma é a primeira líder mundial a ouvir as ruas” por Daniela Mendes

12/06/2013 – revista galileu – O ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista por Alexandre Matias

12/06/2013 – correio do povo – Lições de Castells sobre indignação por Juremir Machado

10/06/2013 – terra – Não basta apenas criticar na internet, diz sociólogo Manuel Castells por Lucas Rohãn

03/06/2013 – folha – Não basta um manifesto nas redes sociais para mobilizar as pessoas por Roberto Dias

28/11/2012 – outras palavras – Castells vê “expansão do não-capitalismo” por Paul Mason

03/08/2012 – outras palavras – Castells quer tecer alternativas por Francisco Guaita, da RT-TV

18/07/2011 – outras palavras – Castells propõe outra democracia por Daniela Frabasile