ECO 92 X RIO+20

ESPECIAL ECO 92 X RIO+20

Folha de São Paulo, terça-feira, 05 de junho de 2012

Baixe aqui o pdf completo do caderno c/ fotos e infográficos (PDF)

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Indice

Sem clima para utopia

Mídia – Nelson de Sá: Uma guerra entre ricos e novos-ricos
Depoimento – Fernando Rodrigues: Cúpula aconteceu sob telhas de amianto e ninguém sabia o que era ‘ONG’
Personalidade: Voz que calou o mundo há 20 anos volta ao Brasil
Raio-X
Frase
Opinião – Fabio Feldmann: É hora de reconhecer a crise e dar respostas
Cada grupo tem a sua ideia de economia verde
Frases
Ecologia de mercado ou decrescimento?
O velho PIB e a riqueza desmedida
Frases
A monja e os economistas: ONU quer felicidade interna bruta para todos
A revolução silenciosa do vento
A indústria apresenta sua lição de casa
Indicadores verdes são a próxima meta
Empresas se preparam para conferência
Construção civil precisa puxar a mudança
Quem torna o imóvel ‘inteligente’ é o morador
Vamos ter comida para 9 bilhões?
É muita água na cerveja
Frase
Raspas e restos me interessam
Entrevista Maria Cecilia L. dos Santos: A arte de fazer nada virar alguma coisa
Frase
Retalho fashion combate importação de trapos
Entrevista – Kenny Bruno: Da maquiagem verde ao ‘reino da baboseira’
Frases
Falta projeto para manter a floresta em pé
Frase
Xingu aproveita Rio+20 E faz evento contra usina
Opinião Cassio Leite Vieira: Questão do clima é vista como um dogma
Saiba mais: A superioridade do homem na mira
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ECO 92 X RIO+20

Sem clima para utopia

Há 20 anos, a retórica ambientalista seduzia com a promessa do novo; como repetir o êxito daquele encontro em um mundo em crise nada propenso a discutir o futuro?

ANDREA VIALLI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Vinte anos depois da Eco-92, o Rio de Janeiro se prepara para ser palco de um novo encontro de líderes internacionais, que discutirão como conciliar preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

A conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20, é a quarta filha de uma série de cúpulas da ONU sobre ambiente iniciada em 1972, em Estocolmo, Suécia.

Depois, vieram a Eco-92, que resultou em vários acordos importantes, como as convenções sobre mudanças climáticas, biodiversidade e a Agenda 21.

Em 2002, foi realizada a Rio+10, em Johannesburgo, África do Sul, com o intuito de fazer um balanço dos avanços obtidos até então. Agora, a Rio+20 promete uma agenda ainda mais ampla -o que já vem sendo alvo de críticas.

O tema central da conferência é a transição para a economia verde, que propõe a adoção de um novo sistema produtivo, com base na baixa emissão de poluentes, na eficiência no uso dos recursos naturais e na erradicação da pobreza. O segundo tema que será discutido é governança global: como os países se organizarão, em termos de acordos, protocolos e instituições, para colocar esse novo modelo em prática.

O governo brasileiro e a ONU esperam repetir o sucesso da Eco-92, quando 108 chefes de Estado e 17 mil ativistas de ONGs colocaram o Rio de Janeiro sob os holofotes da mídia mundial. Segundo o Itamaraty, mais de 130 países confirmaram presença e o Rio se prepara para abrigar 50 mil visitantes.

As atividades paralelas à conferência começam no dia 13 de junho e estão espalhadas por uma dezena de locais, como Aterro do Flamengo, Forte de Copacabana e Píer Mauá. O Riocentro, mesmo local que abrigou a Eco-92, sediará a cúpula propriamente dita, com os chefes de Estado, de 20 a 22 de junho.

Apesar das ambições do governo de atrair o maior número de chefes de Estado para a Rio+20, é notório que a conferência ocorre em um momento geopolítico crítico. Com 7 bilhões de pessoas, nunca se falou tanto nos limites físicos do planeta. No entanto, falta vontade política para discutir o futuro.

“As lideranças dos países ricos estão mais preocupadas em resolver seus problemas econômicos deflagrados pela grave crise que teve início em 2008, no mercado imobiliário americano, com reflexos posteriores nos países europeus”, afirma Maurice Strong, ex-secretário-geral da Eco-92 e hoje professor da Universidade de Pequim.

Ao mesmo tempo, potências emergentes, como Brasil, China, Rússia e Índia, saboreiam o crescimento e a nova importância que ganharam no contexto mundial.

Aos 83 anos e prestes a carimbar o passaporte rumo à Rio+20, Strong é enfático: a cúpula não produzirá tantos acordos relevantes como produziu a Eco-92.

“A Rio+20 atrairá muita gente e muita atenção, mas questões políticas e econômicas vão dificultar que obtenhamos progresso. Não será dessa vez que veremos nascer novos acordos”, diz.

Em 1992, o cenário era bem diferente. O fim da Guerra Fria, cujo símbolo foi a queda do Muro de Berlim, em 1989, deixou o mundo menos polarizado e mais aberto a novas ideias. A retórica ambientalista ganhou força com a publicação do Relatório Brundtland, de 1987, que definiu o desenvolvimento sustentável como “aquele que atende as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras se desenvolverem”.

PEGADA MAIOR

Hoje, mais do que em 1992, a ciência comprova o agravamento da crise ambiental. No campo das mudanças climáticas, já é dado como certo que a temperatura vai subir mais de 2 graus centígrados, por causa da concentração de CO2 na atmosfera.

A demanda por recursos naturais dobrou desde a década de 1960 e a biodiversidade encolheu 30% em todo o mundo entre 1970 e 2008, vítima do avanço das atividades humanas, como agricultura, pesca e mineração, sobre florestas e oceanos.

“A ciência traz evidências de que não estamos em uma situação muito confortável. No entanto, é alto o risco de que a Rio+20 produza um documento final fraco, sem objetivos concretos”, diz o ex-ministro do Meio Ambiente Rubens Ricúpero.

A percepção de que os resultados da conferência serão enfraquecidos vem da posição do governo, que tenta dar mesmo peso às questões sociais, ambientais e econômicas -o “tripé” da sustentabilidade.

Além disso, o “Rascunho Zero”, esboço do documento final da cúpula, não se aprofunda em nenhum tema específico. Há muitos itens entre colchetes (o que indica falta de consenso) e poucas sugestões concretas.

Um dos poucos pontos próximos de um acordo global é a criação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, um conjunto de metas sociais e ambientais a serem perseguidas a partir de 2020.

O Brasil, anfitrião, defende que o mérito da Rio+20 será traçar um plano de ação rumo à economia verde para o próximos anos. “Teremos um documento político, reafirmando o compromisso dos países rumo a um desenvolvimento inclusivo e com tecnologias limpas”, diz o embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe do Brasil. “A Rio+20 vai marcar mais o início de processos do que a conclusão deles”, diz.


CR$ 2.000

Para comemorar a Eco-92, o governo Collor lançou uma moeda de prata no valor de 2.000 cruzeiros; vendida hoje por R$ 100 no site do Banco Central, tem na face a figura de um beija-flor e no verso a imagem do Pão de Açúcar.

5,5 BILHÕES

Em 1992, um relógio colocado na sede da cúpula no Riocentro contabilizava a população mundial e a quantidade de terra disponível no planeta para cultivo de alimentos.

MÍDIA – NELSON DE SÁ

Uma guerra entre ricos e novos-ricos

O momento mais intenso de cobertura na preparação da Rio+20 se deu em torno da decisão de Dilma Rousseff sobre o Código Florestal.

A campanha pelo veto integral vazou dos perfis e sites das ONGs ambientalistas para a imprensa. Um dia antes, um artigo do cineasta Fernando Meirelles correu mundo, do inglês “Guardian” ao indiano “Hindu” e à francesa “Le Nouvel Observateur”, sob enunciados como “Dilma, salve a Amazônia!”.

Antes ainda, o “New York Times” deu longa reportagem dizendo ser uma decisão que “definiria” o governo Dilma, enquanto o “Financial Times” anunciava a chegada do “Dia D” ou “Dia G, Green Day, da presidente Dilma”.

No fim, o veto foi parcial, levando à condenação por WWF e Greenpeace, dizendo não ser “o bastante para proteger a Amazônia ou a reputação de Dilma”. A menos engajada Union of Concerned Scientists saudou o veto às “partes mais perigosas”.

Na cobertura, “FT”, “Los Angeles Times” e outros ecoaram as críticas ambientalistas, mas o “NYT” enfatizou o veto a “partes importantes” como a anistia aos desmatadores. “Le Monde” e outros foram na mesma linha. A BBC viu “solução muito usada no Brasil: tente deixar todo mundo mais ou menos satisfeito e adie o difícil para depois”.

A cobertura da Rio+20 já não vinha positiva, nos meios ocidentais. Até então, o fato de maior atenção havia sido o alto custo dos hotéis, dado como motivo para a ausência do Parlamento Europeu.

Citando também a recusa do americano Barack Obama, do britânico David Cameron e da alemã Angela Merkel em comparecer, a AP destacou que “a maior conferência da história da ONU parece estar terminando em chamas”.

Se os países desenvolvidos em crise decidiram evitar a Rio+20, os emergentes a abraçaram, inclusive o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o presidente russo, Vladimir Putin. O estatal “China Daily” publica artigos em série, sempre simpáticos à conferência _e ao engajamento de Pequim com o tema.

E o “Times of India”, jornal de maior circulação no mundo, destacou na reta final que o grupo Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) ganhou apoio dos demais países em desenvolvimento na defesa de “responsabilidade comum, mas diferenciada”, no debate sobre clima -em contraponto à Europa, que quer igual responsabilidade para velhos e novos poluidores.

Em meio aos anódinos artigos institucionais do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, publicados no “NYT”, e do chanceler Antonio Patriota, no “CD”, a Rio+20 se desenha como uma guerra entre ricos e emergentes.

NELSON DE SÁ é articulista da Folha.

DEPOIMENTO – FERNANDO RODRIGUES

Cúpula aconteceu sob telhas de amianto e ninguém sabia o que era ‘ONG’

A julgar pelos títulos de 20 anos atrás, os jornais de hoje correm grande risco de praticar autoplágio ao cobrir a Rio+20

O que mais me chamava a atenção no Rio há 20 anos eram algumas ruas limpas e esvaziadas para a passagem de comboios com autoridades estrangeiras. A prefeitura gastou US$ 1 bilhão para embelezar a cidade, que teve 360 mil buracos tapados e 600 km de ruas recapeadas.

A pobreza ficou menos aparente. A média diária de mendigos recolhidos a abrigos pulou de 1.500 para 3.000. Era outro Rio de Janeiro, Estado governado por Leonel Brizola (1922-2004). Parece que faz um século.

A segurança era máxima. Em muitas esquinas havia soldados, portando metralhadoras. Nos entroncamentos mais importantes, tanques de guerra faziam parte da paisagem. No topo deles sempre havia um soldado só com a cabeça de fora, de capacete, como se esperasse um ataque a qualquer instante.

Esse grande aparato militar talvez seja a maior diferença imagética da Eco-92 para a Rio+20. Agora não haverá tanques nas ruas.

De maneira geral, houve inúmeros avanços tecnológicos (câmeras monitoram partes da cidade em tempo real). O Brasil e o Rio passam por um momento político-econômico mais confortável. O país já absorveu uma certa “cultura” sobre o ambiente.

Durante a Eco-92, o Brasil e os brasileiros eram neófitos quando o tema era a preservação do planeta. Algumas palavras começavam a ficar mais populares. Apareciam nos telejornais. Ganhavam sentidos diversos na bem-humorada gíria carioca. Biodiversidade, publicou a Folha, não era mais apenas a variedade dos seres vivos. A proprietária de uma loja de sucos no local do evento explicava assim seus produtos: “Queríamos fazer alguma coisa de biodiversidade, com grande variedade de frutas”.

Jornais se referiam a ONGs por extenso: “organização não governamental”. Havia até explicação sobre pronúncia: podia ser “ongue”, ou soletrando, “ó-ene-gê”.

Apesar de ser inverno, a temperatura na conferência era sempre alta por causa das telhas de amianto que cobriam o local.

Fernando Gabeira, ativista a favor do ambiente, repórter daFolha na Eco-92, notou como era “politicamente incorreto” fazer uma conferência sobre proteção do planeta num ambiente coberto por um material proibido em muitos países por ser considerado cancerígeno. Ainda assim, escreveu Gabeira, “a única preocupação era com o calor do inverno brasileiro, capaz de confirmar as projeções apocalípticas do efeito estufa”.

COLLOR E CACHOEIRA

Essa preocupação com temas laterais ao evento continua a existir. Há 20 anos, na semana em que teve início a Eco-92 foi instalada a CPI do Collorgate, que resultou no impeachment do então presidente, Fernando Collor de Mello. Infeliz na política, mas craque no marketing, Collor transferiu seu governo, com ministros a tiracolo, para o Rio por alguns dias.

Agora, há outra rumorosa investigação sobre os negócios de Carlinhos Cachoeira com políticos de vários partidos, todos suspeitos de envolvimento com lavagem de dinheiro e jogo ilegal.

Outra similaridade inescapável era o ceticismo sobre resultados da Eco-92. Idêntico ao atual. Eis títulos de reportagens daquele ano: “Conflito sobre ecologia e recessão polariza debate no Rio”, “Grupo dos ricos chega rachado aos debates da Cúpula da Terra” e “Governos ainda desprezam alerta de cientistas sobre o efeito estufa”.

A julgar pelos títulos de 20 anos atrás, os jornais de hoje correm grande risco de praticar autoplágio ao publicar notícias sobre a Rio+20.

JURUNA E PAIAKAN

Havia também dificuldade para fazer com que o noticiário árido sobre os acordos negociados na Eco-92 vencesse a disputa por espaço com outros temas de apelo mais pop.

O dalai-lama veio ao pré-encontro, da sociedade civil, antes daquela conferência. Sua importância para salvar o planeta do aquecimento era perto de zero. Mas abriu-se uma pendenga diplomática.

A delegação da China só aceitava participar depois que o dalai-lama deixasse o solo brasileiro. O Itamaraty se esfalfou até conseguir sincronizar a saída de um para a chegada dos demais.

Quando se analisa esse episódio hoje, percebe-se que a importância era pequena. Mas exigiu muito suor da diplomacia local e ocupou espaço na mídia -em detrimento de assuntos diretamente relacionados aos acordos que eram negociados.

Para azar da depauperada imagem do país e do desespero dos organizadores brasileiros, estourou em 1992 um escândalo envolvendo o índio Paulinho Paiakan. Ele era acusado de estuprar e torturar uma estudante de 18 anos.

Enquanto isso, nos corredores do Riocentro apareceu outro índio, Mário Juruna, que antes havia sido deputado. Seu objetivo era um só: vender a pele de onça que levava para cima e para baixo.

Sob as telhas de amianto do Riocentro, tecnologia era algo ainda distante em 1992. A estatal de telefonia Telerj anunciou investimento de US$ 15 milhões para melhorar as telecomunicações da cidade. Mas foram instaladas apenas 3.000 linhas fixas e 1.100 celulares. Para a empresa, tratava-se de “um serviço de Primeiro Mundo”.

Não era de Primeiro Mundo. Ainda assim, a Eco-92 não foi um fracasso total, mas ficou longe de ser um sucesso. Mais ou menos como deve ocorrer com a Rio+20.


A CONFERÊNCIA NA WEB

Siga a cobertura da Rio+20 na página especialfolha.com/riomais20 e no blog folha.com/entrecolchetes, de Claudio Angelo. O site traz reportagens sobre o encontro no Rio, a programação e a localização dos eventos oficiais e paralelos na cidade, fotos, teste de conhecimentos e a cronologia ilustrada das principais mudanças pelas quais o mundo passou de 1992 até hoje.

ACERVO FOLHA

Leia reportagens sobre a Eco-92, publicadas na em junho daquele ano, e a cobertura da Rio+10, realizada na África do Sul, em agosto de 2002.

acervo.folha.com.br

FERNANDO RODRIGUES é repórter da Sucursal de Brasília e integrou a equipe que fez a cobertura da Eco-92.

PERSONALIDADE

Voz que calou o mundo há 20 anos volta ao Brasil

A ativista canadense Severn Cullis-Suzuki tinha só 12 anos quando falou na Eco-92 e deixou os líderes de boca aberta com suas palavras contundentes; ela diz que virá à Rio+20 e que não mudaria nada naquele discurso histórico

RENATA MENDES GONÇALVES
SILVIO MOURA
DO BANCO DE DADOS

“Sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções, mas quero que saibam que vocês também não têm.”

A frase é uma de muitas que voltaram a atenção do mundo para Severn Cullis-Suzuki, então com 12 anos, durante a Eco-92. A menina fez um dos discursos mais categóricos daquela conferência, que deixou os líderes de governo mudos e virou um clássico da luta ambiental.

Mãe de Ganhlaans, 2 anos, e Tiisaan, 5 meses, Severn continua defendendo causas ligadas a ambiente e educação à frente da Fundação David Suzuki, criada por seu pai. Ela virá ao Rio para participar de eventos paralelos à conferência, como o ciclo de palestras TedXRio+20, no Forte de Copacabana.

Nesta entrevista exclusiva à Folha, ela relembra aquela sua atuação precoce, diz temer o aquecimento global e estar atenta ao que ocorre no Brasil, como a construção da usina de Belo Monte.

Folha – Como surgiu a ideia de participar da Eco-92?

Severn Cullis-Suzuki – O discurso para os líderes mundiais foi a chance perfeita de mostrar nossa ideia. Tínhamos formado o clube ECO (Environmental Children’s Organization) e, em casa, fazíamos projetos locais.

Após um tempo, ouvimos sobre a Eco-92, no Rio, e decidimos ir. Mas éramos crianças, como fazer isso? Angariamos fundos com a nossa comunidade, que nos apoiou para enviar nosso grupo [ela, Vanessa Sultie, Morgan Geisler e Michelle Quigg] ao Rio com mais três adultos.

Minha mãe nos registrou como ONG e, por isso, tivemos estande no Fórum Global. Lá falávamos com todos que podíamos. E, aos poucos, fomos convidados para eventos. Até que um funcionário do Unicef nos chamou e disse que tínhamos uma hora para chegar ao Riocentro [palco dos principais discursos da Eco-92] se quiséssemos falar com os chefes de Estado.

Por que você foi a escolhida para fazer o discurso?

No banco de trás do táxi, eu e meus amigos decidimos que eu falaria. Juntamos os discursos e definimos a versão final. Aí, até chegar ao salão principal, passamos correndo pela segurança. Foi assustador! Mas eu estava empolgada, pois tínhamos um discurso forte. Por incrível que pareça, conseguimos fazer o que nos propusemos.

Como é pensar sustentabilidade hoje e há 20 anos?

No final dos anos 80, a questão ambiental tinha grande importância. Aí veio a Eco-92. Depois, perdeu força. Hoje, ao contrário de 92, a esfera política está mais conservadora, em especial após a crise financeira de 2008.

Mas a preocupação ambiental é mais real e tem força, como a mudança climática. Outra diferença é que temos uma poderosa tecnologia que permite a ativistas comunicar e disseminar informações rapidamente. Essas pessoas têm a ferramenta para ajudar e inspirar a verdadeira mudança no século 21.

Se tivesse 12 anos hoje, mudaria algo no discurso de 92? A propósito, você virá à Rio+20?

Apesar de ter sido mãe pela segunda vez e de ser difícil conciliar tudo, irei à Rio+20. Tenho feito muito pela sustentabilidade nesses 20 anos. Mas o que falei em 92 é o mais lembrado. Por quê? Todos se sensibilizam com uma criança falando a verdade para as autoridades. Não mudaria nada daquele discurso.

Como vê a política mundial sobre sustentabilidade e a atuação dos políticos do Brasil?

O nosso sistema econômico precisa refletir as realidades humanas e ecológicas. Hoje trabalha-se no sentido contrário. Medimos o progresso pelo PIB [Produto Interno Bruto], que pouco reflete nossa qualidade de vida. Precisamos mudar isso.

O Brasil tem reservas naturais importantes para o mundo, como a Amazônia. É preocupante que a usina de Belo Monte esteja a todo vapor, bem na época em que a floresta, pulmão do planeta, deveria ser mais valorizada. O mundo deve dar valor a esse capital ecológico.

O que podemos fazer pelo ambiente? O que você faz?

A sociedade e o governo devem mudar para nos ajudar a ter uma vida mais sustentável. Hoje é difícil. Nosso sistema está voltado para atos totalmente insustentáveis.

As pessoas podem fazer muito, como coleta seletiva e reciclagem. Mas digo a elas: reduzam sua pegada ecológica e sejam políticos. Se isso significa perguntar sobre algo que você esteja preocupado ou iniciar uma conversa, ótimo. Precisamos exercer nossos direitos democráticos e ter liberdade para informar, protestar e fazer com que nossas vozes sejam ouvidas.

Como imagina a vida dos seus dois filhos daqui a 20 anos?

Ah, essa é a questão! Moro numa remota comunidade [ilhas Queen Charlotte], no oeste do Canadá. Plantamos e pescamos porque tentamos ser autossustentáveis. Tento firmar com os meninos o contato com a terra e o mar. No futuro, espero que eles possam comer bons alimentos e ter a qualidade de vida de hoje. E que vivam sem medo das mudanças ambientais.

Acredito que só o amor por nossos filhos pode virar a maré. A questão do ambiente é o futuro deles. Temos de fazer a conexão entre nossa vida hoje e suas vidas no futuro. Se nós, politicamente, fizermos a conexão, mudaremos tudo. Eu tenho que acreditar nisso.

RAIO-X

Nome: Severn Cullis-Suzuki

Atuação: ativista, escritora e palestrante; apresenta um programa de TV local sobre água e povos indígenas e participa de uma rede independente de ONGs, a WeCanada, que monitora compromissos assumidos por políticos de seu país

Nascimento: 30 de novembro de 1979, em Vancouver (Canadá)

Formação: graduada em ecologia e biologia evolutiva pela Universidade Yale; pós-graduada em etnobotânica pela Universidade de Victoria

Família: é casada e mãe de dois meninos

Trajetória: filha de ex-professora de Harvard, a escritora Tara Elizabeth Cullis, e do geneticista e ambientalista David Suzuki, Severn fundou aos nove anos a Environmental Children’s Organization, entidade de crianças em defesa do ambiente

Aos 12, discursou na Eco-92. O vídeo ficou conhecido como “The Girl Who Silenced the World for 5 Minutes” (“A Menina Que Calou o Mundo por 5 Minutos”)

Em 2002, atuou na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, na África do Sul, como membro do painel de Kofi Annan

Em 2010, foi protagonista do documentário “Severn, a Voz de Nossas Crianças”, de Jean-Paul Jaud

FOLHA.COM

Veja o vídeo com o discurso completo de Severn Suzuki
folha.com/riomais20
FRASE

“Vocês não podem ressuscitar os animais (…). Se não podem recuperar, parem de destruir. Eu desafio vocês. Por favor, façam suas ações refletirem suas palavras”

SEVERN CULLIS-SUZUKI
na Eco-92

OPINIÃO – FABIO FELDMANN

É hora de reconhecer a crise e dar respostas

As duas últimas décadas trouxeram grandes transformações. Nas comunicações houve praticamente uma revolução com a explosão da internet e da telefonia celular, bem como no desenho geopolítico do mundo.

O Muro de Berlim havia sido demolido há pouquíssimo tempo, os EUA saíam vitoriosos da primeira Guerra do Iraque, em 1991, e o mundo estava superando a Guerra Fria e a bipolaridade que a caracterizava. O movimento ambientalista, por sua vez, ganhava impulso e as suas bandeiras representavam, do seu modo, as novas utopias.

A mobilização da opinião pública em decorrência da divulgação da imagem de satélite sobre a Antártida havia comprovado que o impacto da humanidade sobre o planeta era incontestável, a ponto de a revista “Time” escolher como capa de janeiro de 1989 o “Planeta Ameaçado”.

O relatório da Comissão Brundtland, cujo mandato era avaliar os resultados da primeira grande Conferência de Estocolmo, lançava a ideia do desenvolvimento sustentável e fazia o diagnóstico de problemas socioambientais.

Seu título foi tomado de empréstimo pela Eco-92, de modo que essa veio a se chamar “Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento”.

O Brasil vivia o início da crise que levou ao impeachment do primeiro presidente eleito após a ditadura militar, Fernando Collor, e o combate à inflação galopante continuava o item prioritário na agenda econômica do país.

O desmatamento da Amazônia causava alto impacto na opinião pública internacional, ainda influenciada pela morte do primeiro grande mártir global da luta ambientalista, Chico Mendes.

Esse foi o contexto que levou o Brasil a sediar a Eco-92. Além do protagonismo brasileiro na Conferência de Estocolmo, defendendo que a pobreza seria a grande causa da poluição e que internalizar a dimensão ambiental somente seria possível após alcançarmos um outro patamar de crescimento econômico.

Assegurar, portanto, que o Brasil sediasse a conferência era uma maneira de persuadi-lo a compreender a importância da dimensão planetária inerente à questão ambiental. E, por parte do Brasil, no governo de José Sarney, demonstrar ao mundo que o país não era o vilão devorador da Amazônia e insensível em relação à consciência ambiental.

Vale lembrar que a própria expressão “biodiversidade” tinha surgido há poucos anos por iniciativa do ambientalista norte-americano Thomas Lovejoy e que aquecimento global era assunto exclusivo da comunidade científica.

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) havia sido criado em 1988 e o seu primeiro relatório, divulgado em 1990.

Às vésperas da Rio+20, a esperança de 1992 cedeu lugar ao mau humor desses tempos bicudos que marcam a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos.

A Agenda 21, um dos principais resultados da Eco-92, reflete o otimismo de então, uma vez que a expectativa era que adentraríamos no século 21 na direção do desenvolvimento sustentável. Seria um movimento irreversível.

Em que pesem controvérsias marginais, a ciência tem demonstrado que os limites do planeta estão cada vez mais próximos.

Paradigmático é o estudo publicado na revista “Nature” por uma equipe de cientistas liderados por Johan Rockström, que indica nove limites planetários: mudança climática; taxa de perda da biodiversidade; ciclo do nitrogênio e ciclo do fósforo; destruição da camada estratosférica de ozônio; acidificação dos oceanos; uso global de água doce; mudança no uso da terra; concentração de aerossol atmosférico e poluição química.

Dentre os limites mencionados, o mais urgente é o relacionado à mudança do clima, que exige da humanidade uma redução dramática na emissão de gases efeito estufa, com objetivo de manter o aumento da temperatura média do planeta em até 2°C até o fim do século, como foi definido na COP-15, em Copenhague, em 2009.

A Rio+20, entretanto, traz uma agenda difusa que não enfrenta como deveria os desafios do planeta.

Seus temas principais são “A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável”.

Equivocadamente separa o ambiental do social como se o primeiro não se refletisse dramaticamente no segundo. E continua com uma mentalidade do século 20 que não leva em consideração as mudanças dos últimos 20 anos.

Em última instância, isso decreta o fracasso dessa conferência diante da história.

O Brasil, por sua vez, não tem sido capaz de exercer uma liderança inovadora e progressista que supere essa mentalidade atrasada.

Na Eco-92, a liderança foi exercida pelo secretário-geral Maurice Strong, tirando a exclusividade das decisões do mundo da diplomacia.

Nesses poucos dias que antecedem a Rio+20, espera-se que ela alcance alguns resultados fundamentais. O primeiro é o reconhecimento da urgência que a crise planetária traz e a sinalização de que assumiremos as nossas responsabilidades diante dela.

E, como desdobramento, seremos capazes de dar respostas à altura, a exemplo da criação de um “IPCC do planeta” e metas mensuráveis e verificáveis a serem monitoradas nas próximas décadas.

Os novos tempos são de implementação. E o destino de cada um de nós está atrelado aos resultados da Rio+20.

FABIO FELDMANN é ambientalista. Foi deputado federal pelo PMDB e pelo PSDB e candidato a governador de SP pelo PV.

Cada grupo tem a sua ideia de economia verde

Termo principal usado na pauta da Rio+20 envolve significados controversos, o que leva a impasse nas discussões

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Tema central da Rio+20, a transição da atual economia “marrom” para a “verde” está longe de ser consenso. Grosso modo, a primeira é o sistema produtivo atual, poluente e baseado em combustíveis fósseis; a outra preconiza uma baixa emissão de carbono e um uso mais eficiente dos recursos naturais.

Mas países, organizações sociais e economistas têm visões diferentes sobre o conceito de economia verde e o funcionamento desse novo sistema na prática.

O grande impasse é como a economia vai se reorganizar para enfrentar questões sociais, como o combate à pobreza e a redução das desigualdades em um cenário no qual os limites físicos do planeta ficam mais evidentes.

Com 7 bilhões de habitantes consumindo e aspirando a um padrão de vida mais alto, a capacidade de recuperação do ambiente, base para qualquer atividade econômica, está cada vez mais fragilizada. Ao mesmo tempo, o paradigma de sucesso dos países é o crescimento, trimestre a trimestre, da economia.

A ONU propõe uma espécie de caminho das pedras: um investimento anual de 2% do PIB global em dez setores-chave da economia, nas próximas décadas, bastaria para dar início à mudança em direção à economia verde. E ainda ajudaria a gerar milhões de empregos, na estimativa das Nações Unidas.

A proposta está em um relatório lançado em 2011 pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), que será o ponto de partida para as discussões na conferência.

QUEM PAGA

O montante, equivalente a US$ 1,3 trilhão por ano (R$ 2,6 trilhões), ajudaria a modernizar e “limpar” dez setores: agricultura e pesca; construção, energia, florestas, indústria, turismo, transportes, água e resíduos e metrópoles.

E quem paga essa conta? Segundo o Pnuma, os recursos poderiam sair do cofre tanto dos governos, por meio de incentivos e subsídios, quanto da iniciativa privada, em investimentos diretos. Isso impulsionaria as tecnologias de baixo carbono.

“Parece uma quantia enorme, mas os governos gastam todos os anos cerca de 2% a 3% do PIB global em subsídios que só perpetuam o uso insustentável dos recursos”, afirma Steven Stone, chefe do Departamento de Economia e Comércio do Pnuma.

Ele cita como exemplos os subsídios pagos à indústria de combustíveis fósseis -cerca de R$ 1 trilhão/ano- e à agricultura sem práticas sustentáveis, na faixa de R$ 701 bilhões/ano.

“Se os governos começarem redirecionando esses subsídios danosos e obsoletos para dar suporte à economia verde, seria um grande passo à frente”, diz Stone.

Mas a economia verde está longe de ser consenso. Nas discussões do “Rascunho Zero”, esboço do documento final da Rio+20, muitos países refutam a definição proposta pela ONU. O grupo dos países pobres e em desenvolvimento, o G-77, teme que o mantra da economia verde seja um artifício dos países ricos para vender tecnologia cara aos pobres.

O Brasil endossa a posição do G-77, embora reconheça que possa se beneficiar com a transição para a economia verde, já que tem matriz energética mais limpa que os demais membros do grupo.

“Não há consenso sobre economia verde”, reconhece o embaixador Luiz Alberto Figueiredo, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Rio+20. “Mas nós queremos mostrar que cada país encontrará seu caminho para chegar ao desenvolvimento sustentável. A economia verde é um instrumento para isso”, diz o embaixador.

MERCANTILIZAÇÃO

Nos termos definidos pela ONU, a economia verde tampouco conta com simpatia dos movimentos sociais. A Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20 que será realizado no Aterro do Flamengo, concentra boa parte dos ativistas contrários à ideia.

As ONGs alegam que o conceito proposto nada mais é que uma tentativa de “pintar de verde” o neoliberalismo. Isso sem uma revisão profunda dos padrões predatórios da economia de mercado, como os estímulos ao consumismo, que estão levando o mundo ao esgotamento dos recursos naturais.

Movimentos sociais também não concordam com a proposta de atribuir valor econômico, ou seja, colocar preços em serviços prestados pela natureza, como a produção de água, a regulação do clima pelas florestas e a polinização das lavouras. Essa “precificação” poderia ajudar a remunerar proprietários de terra que preservam áreas de florestas, por exemplo.

A ideia faz parte de uma série de relatórios da ONU sobre a economia da biodiversidade, encabeçados pelo economista indiano Pavan Sukhdev.

“A economia verde ‘ideologizou'”, diz Pedro Ivo, coordenador da Cúpula dos Povos. “Há muita confusão, entre os movimentos sociais, sobre como lidar com serviços da natureza. Mesmo que isso represente fonte de renda para agricultores e povos tradicionais”, diz Ivo.


ALEGRIAS, SABERES E TALENTOS

Uma parceria entre a Receita do Rio e a USP colocará em circulação, durante a Rio+20, “alegrias”, “saberes” e “talentos” -as moedas alternativas desenvolvidas pelo projeto Iconomia e Moedas Criativas. O trabalho, criado pelo economista Gilson Schwartz, foi escolhido pela Unesco como uma das “20 Ideias para Girar o Mundo” a serem apresentadas na conferência.

(AV)

FRASES

Não deveríamos dizer ‘economia verde’, mas simplesmente ‘economia’. É a mesma coisa”

BRICE LALONDE

embaixador francês e coordenador executivo da Rio+20

“Não há como todo mundo continuar crescendo perpetuamente. Isso é algo insustentável”

ADEMAR ROMEIRO

economista e professor da Unicamp


Ecologia de mercado ou decrescimento?

ANDREA VIALLI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
EDUARDO GERAQUE
DE SÃO PAULO

A expressão “economia verde” virou um guarda-chuva que abriga várias teorias.

O termo serve tanto à corrente chamada por seus críticos de “ambientalismo de mercado” -representada pela economia neoclássica, que crê na tecnologia para superar a finitude dos recursos- quanto ao decrescimento, segundo o qual os países devem parar de crescer.

As correntes ligadas à economia ecológica ganharam força na década de 1960 com o romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994).

Roegen foi o primeiro teórico a aplicar as leis da física à economia. Tomou emprestada a lei da entropia, da termodinâmica, para explicar que o sistema econômico não é um moto-perpétuo capaz de alimentar a si mesmo de forma circular, sem perdas. Ao contrário disso, gera rejeitos e poluição.

Roegen influenciou vários economistas nas décadas seguintes ao dizer que a natureza impõe limites físicos ao crescimento contínuo.

Alguns de seus seguidores, como o norte-americano Herman Daly, ex-diretor do Banco Mundial, defende o “estado estacionário” para os países que já alcançaram um alto patamar de renda -Dinamarca, por exemplo. Significa estabilizar produção e população.

Conforme essa corrente, países ricos deveriam buscar o estado estacionário deixando espaço para que os pobres cresçam até um nível suficiente de prosperidade.

Há ainda quem radicalize a ideia do estado estacionário, como o francês Serge Latouche, autor de “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno” (Martins Fontes, 2009, R$ 24,90). Para ele, os países devem parar de crescer. Os pobres ainda podem continuar crescendo -mas pouco, sem buscar um padrão de vida “perdulário”.

A ideia dessa freada brusca pode soar como um impropério em um país como o Brasil, recém-alçado à sexta economia do mundo. Mas o crescimento zero vai acabar chegando ao dia a dia dos países, “por bem ou por mal”, na avaliação do economista Ademar Romeiro, professor da Unicamp.

“Não é uma questão de ser ou não factível. Não há como todo mundo continuar crescendo perpetuamente. Isso é insustentável.”

DESCASAMENTO

Para Ricardo Abramovay, economista e professor da USP, os ganhos de eficiência e tecnologia ajudam, mas estão longe de resolver o problema da finitude dos recursos naturais.

“Nos últimos 20 anos a economia global produziu consumindo 23% menos materiais e emitindo 21% menos carbono”, diz.

No entanto, população e consumo aumentaram exponencialmente, anulando os ganhos de eficiência num processo de ‘descasamento’ (do inglês, “decoupling”). “Isso mostra que é falsa a expectativa de que, graças à tecnologia, poderemos continuar com o pé no acelerador do crescimento.”

O velho PIB e a riqueza desmedida

A Rio+20 pode estimular o lento processo de reforma ou aposentadoria do índice usado desde o pós-guerra e cada vez mais criticado por não medir custos sociais e ambientais do progresso

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O mundo precisa de novas métricas para calcular o desenvolvimento e a riqueza dos países. O PIB (Produto Interno Bruto) não responde mais à complexidade atual. Essa percepção, crescente entre economistas e pesquisadores, colocou o tema nas discussões da Rio+20.

A principal crítica ao PIB é de que ele serve apenas para medir o fluxo da riqueza, sem incluir na conta as chamadas externalidades: custos sociais e ambientais envolvidos na produção dessa riqueza.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ressaltou, em abril, a necessidade de um substituto para o índice. “Precisamos de um novo paradigma econômico que reconheça a paridade entre os três pilares do desenvolvimento sustentável: bem-estar social, econômico e ambiental. Os três definem a felicidade global bruta.”

RÚSTICO E OMISSO

“O PIB é uma medida rústica”, resume o economista Eduardo Giannetti, professor do Insper-SP. “É completamente omisso em relação aos impactos ao meio ambiente e à qualidade de vida das pessoas”, diz Giannetti. “Se você mora longe do trabalho, seus deslocamentos fazem o PIB aumentar. Mas com prejuízos à sua qualidade de vida: horas perdidas no trânsito, poluição”, exemplifica.

Críticas desse tipo existem desde que o PIB passou a ser amplamente utilizado pelos países, a partir dos anos 1940. Até mesmo um de seus formuladores, o economista Simon Kuznets, admitiu as limitações do cálculo.

Mas nos últimos três anos vários estudos importantes voltaram a questionar o indicador e ganharam espaço. Um dos documentos que ajudaram a levantar essa discussão foi “Prosperidade sem Crescimento?”, publicado em 2009, do economista inglês Tim Jackson, que é membro da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do governo britânico.

Na obra, Jackson defende o abandono do mito do crescimento econômico infinito, por causa dos limites físicos da natureza para acompanhar essa expansão. Além disso, na visão de Jackson, mais crescimento econômico não se traduz, necessariamente, em maior bem-estar para as populações.

Também em 2009, um grupo de economistas liderado por dois prêmios Nobel, o americano Joseph Stigliz e o indiano Amartya Sen, foi encarregado pelo então presidente da França, Nicolas Sarkozy, de elaborar uma proposta alternativa de PIB.

O experimento não chegou a formular um novo indicador, mas produziu uma lista de recomendações para tornar o índice mais compatível com os tempos atuais.

TERCEIRO INDICADOR

Na Rio+20, o Brasil pretende defender a criação de indicadores ambientais atrelados ao PIB.

Pela proposta brasileira,o desenvolvimento dos países seria medido com base em três indicadores: o PIB, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que calcula o desempenho na área social, e o novo indicador ambiental.

Segundo o embaixador André Corrêa do Lago, os países em desenvolvimento rejeitam a ideia de tirar o PIB de cena. “Isso divide os países. Uns dizem: ‘Agora que nos tornamos importantes pelo PIB, o PIB não é mais medida?'”.

O Brasil, que faz parte do grupo e se tornou a sexta economia, deve subscrever a posição dos países emergentes.

(ANDREA VIALLI)

FRASES

“Não tenho certeza de que vamos conseguir criar um novo indicador em três meses, porque já houve muita discussão em 30 anos”

BRICE LALONDE

ex-ministro do Ambiente da França e coordenador da Rio+20

“Economia verde é passar da destruição para o conhecimento da natureza. É uma necessidade urgente, incontornável”

RICARDO ABRAMOVAY

economista e professor da USP

A MONJA E OS ECONOMISTAS

ONU quer felicidade interna bruta para todos

HELOÍSA HELVÉCIA
EDITORA DE “EQUILÍBRIO”

A felicidade entrou no debate da Rio+20. A criação de uma alternativa ao PIB capaz de medir o bem-estar dos países é “o assunto da hora”, segundo a antropóloga americana Susan Andrews, coordenadora aqui do projeto FIB (Felicidade Interna Bruta).

Da hora, mas não que seja novo: o conceito de um indicador baseado não só em crescimento econômico, mas em aspectos psicológicos, culturais, ambientais e espirituais foi criado em 1972 pelo então rei do Butão, país budista enfiado no Himalaia.

Sob patrocínio da ONU, o FIB butanês vem sendo recriado por um time de intelectuais, prêmios Nobel incluídos. O grupo fez um questionário que sonda padrão de vida, governança, educação, saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, uso do tempo e bem-estar psicológico.

No Brasil, o FIB é mais do que um indicador, segundo Susan. “É um catalisador de mudança social que tem o potencial de unir poder público, empresas e cidadãos para a felicidade de todos. É pensamento sistêmico na prática”, diz a antropóloga graduada em Harvard, que é também mestre em psicologia e sociologia. E monja.

A monja junta agora ao currículo o título de embaixadora do FIB no Brasil, país para o qual ela veio por ocasião da Eco-92 -e ficou.

Naquele ano, fundou o Parque Ecológico Visão Futuro em Porangaba, a duas horas de São Paulo. É uma das primeiras ecovilas do país.

Tudo ali segue a filosofia de uso de recursos naturais pregada pelo mestre indiano Prabhat Rainjan Sarkar.

Moram e trabalham naqueles 65 hectares de mata 55 pessoas. “Tivemos êxito até certo ponto em servir como um contramagneto para estancar a hemorragia de pessoas das áreas rurais às cidades, provendo emprego digno em uma economia que não danifica o planeta”, ela diz.

O parque usa energia limpa, alimenta seus membros com agricultura orgânica, recicla seu lixo e parte da água do esgoto, oferece “educação holística” e mantém um centro de saúde ayurvédica. É um laboratório socioambiental, mas não se diz “sustentável”.

“A sustentabilidade só acontece se for aplicada simultaneamente em diversas áreas; é uma enorme tarefa.”

É lá no Visão Futuro, com ajuda da Unicamp, que se desenvolve uma adaptação do questionário FIB. Já foram ministrados projetos-piloto em Angatuba, Itapetininga, Campinas (SP), Bento Gonçalves (RS) e Brasília (DF).

“Quando apresentado aos resultados do questionário, o público fica fascinado com essa análise do seu próprio bem-estar e isso gera não apenas discussões, mas ações. Em Itapetininga, a população colaborou para melhorar sua assistência médica; em Brasília, a comunidade de Rajadinha está engajada para melhorar o suprimento de água, limpando o rio local e instalando biodigestores”, conta.

Mas e a aplicação do indicador em escala nacional, global? Segundo disse Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, ao abrir o último encontro sobre o tema, a conferência Rio+20 precisa gerar um “novo paradigma” que não dissocie bem-estar social, econômico e ambiental. Os três, para ele, definem a “felicidade global bruta”.

Susan Andrews acha que a introdução de indicadores mais sistêmicos já é um movimento mundial. “É parte do espírito do tempo.”


A revolução silenciosa do vento

Foi no período da Eco-92 que o Nordeste recebeu o 1º catavento; devagar, a limpa energia eólica aumenta a presença no país e cumpre sua vocação de fonte complementar

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro gerador de energia eólica do Brasil foi instalado há duas décadas, em Fernando de Noronha, quando a Eco-92 discutia ambiente e desenvolvimento. Era menor e mais rudimentar que as turbinas de hoje, mas tirou da escuridão moradores das ilhas, que só contavam com um gerador a diesel.

A energia dos ventos tem presença tímida na matriz energética brasileira -1,26% do total-, mas vem conquistando território sem alarde. Até 2020, deve representar 7%, prevê a EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

Uma combinação de subsídios, redução de impostos como ICMS e IPI, aumento da eficiência dos equipamentos e crise internacional (que trouxe investidores ávidos pelos ventos brasileiros) ajudam a explicar a revolução silenciosa da energia eólica.

O salto veio mesmo em 2011, quando o preço do MWh (megawatt/hora) da energia eólica alcançou R$ 100 e se tornou paritário com o das grandes hidrelétricas (R$ 91). Em 2004, produzir energia eólica custava R$ 300 o MWh. Foi nessa época que o governo começou a subsidiar fontes alternativas, por meio do Proinfa, programa criado após o apagão de 2001.

“A eólica saiu de uma condição subsidiada para a de uma energia competitiva. Agora, é preciso fortalecer a indústria de equipamentos”, diz Elbia Melo, presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).

PRETENSÃO

Hoje existem 71 parques eólicos instalados no Brasil. Eles produzem 1.400 MW de energia. Há mais 55 parques em construção, que devem fornecer mais 1.500 MW. Parece pouco, comparado ao que produz a hidrelétrica de Itaipu, que tem uma potência de 14 mil MW. Mas já supre as necessidades de 12 milhões de pessoas.

“A pretensão da eólica não é substituir os grandes projetos, e sim ser complementar. Uma alternativa às termelétricas, mais poluentes, que entram em operação nos horários de pico”, diz Melo.

A espanhola Iberdrola é uma das empresas que investem no Nordeste, região promissora para a energia dos ventos. Está construindo dez parques na Bahia e no Rio Grande do Norte, em um investimento de R$ 1,2 bilhão.

“A eólica permite conciliar boa rentabilidade, aumento de renda para a população local, empregos qualificados, capacitação e baixo impacto ambiental”, diz Laura Porto, diretora de operações da Força Eólica do Brasil (parceria da Iberdrola com a brasileira Neoenergia).

Além das empresas, as universidades também se movimentam para dar sustentação técnica ao avanço dessa fonte. A Coppe, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), está estruturando o Centro de Tecnologia em Energia Eólica, com um time de 20 pesquisadores.


MELHOROU, MAS AINDA FALTA MUITO

Desde 2004, o investimento em energias renováveis subiu 540%, segundo as Nações Unidas. A produção de energia solar é hoje 300 vezes maior do que era há 20 anos -e a eólica, 60 vezes maior. Essas duas fontes de energia, porém, representam somente 0,3% da oferta mundial.

A indústria apresenta sua lição de casa

Relatório inédito da CNI mostra o que os maiores setores produtivos fizeram em 20 anos para reduzir o choque de sua ação no ambiente

ELIANE TRINDADE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A indústria brasileira não quer mais o papel de vilã. Vinte anos depois da Eco-92, o empresariado chega à Rio+20 com um balanço das principais mudanças rumo à sustentabilidade feitas em 16 setores que somam 90% do PIB.

O levantamento será apresentado no dia 14 em um evento pré-conferência promovido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).

“A indústria fez muito nesses 20 anos, mas não havia sistematizado”, diz Monica Messenberg, diretora de relações institucionais da CNI.

Mudar a cultura e as formas de produção não são coisas que se façam do dia para a noite, explica ela.

“Desde a Eco-92, a indústria levou uma década para começar as mudanças. Por isso, não dá para adiar mais. Temos de começar agora, sair do discurso romântico e trabalhar a questão racional de que uma economia sustentável é viável. E fazer com que esse movimento não seja só um nicho, mas a base.”

O documento é dividido em 16 fascículos setoriais e lista experiências de êxito. No texto, ao qual a Folha teve acesso, estão entre os destaques os setores de papel e celulose, sucroenergético e até alguns que historicamente lideram ranking de poluidores, como o automotivo e de mineração.

“Há empresas que advogam ser verdes e não o são. Por isso, estamos destacando aquelas que efetivamente estão avançando.”

NOVA REVOLUÇÃO

“A palavra-chave é inovação. Vivemos uma nova revolução industrial que tem na sustentabilidade um dos motores”, diz a diretora da CNI.

Os dados da indústria de papel e celulose, por exemplo, mostram que 100% da madeira usada hoje no seu processo de produção sai de florestas plantadas. “É um setor que está na vanguarda, assim como o sucroenergético”, afirma Messenberg.

Tecnologias desenvolvidas a partir da década de 1980 aumentaram em 83% a produtividade por hectare de eucalipto plantado e em 100%, nas florestas de pinus.

O relatório da CNI ressalta ainda que o Brasil é campeão mundial na reciclagem de alumínio há dez anos, com um índice de 97,6% de reaproveitamento das embalagens de bebidas em lata.

Já a indústria sucroalcooleira tem mais a levar à Rio+20 do que o etanol, vedete verde-amarelo entre produtos verdes “made in” Brasil.

O relatório setorial bate bumbo para o fato de as usinas de açúcar e etanol serem hoje autossuficientes em energia. Elas usam o bagaço da cana como fonte de energia e também como adubo.

O aproveitamento de resíduos é um trunfo também na mineração, que sempre esteve na berlinda pelas crateras plantadas no solo país afora.

Segundo a bióloga Cláudia Salles, gerente de assuntos ambientais do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), a reutilização da água no processamento e na extração do minério de ferro no Brasil chega agora a 90%.

“A indústria de mineração é protagonista no desenvolvimento sustentável ao promover o uso eficiente e racional de recursos naturais”, diz a gerente do Ibram.

As mineradoras também avançaram no reaproveitamento de resíduos sólidos. “Rejeito deixou de ser rejeito e virou minério”, diz Salles.

O “milagre” se explica pela inovação e pelo próprio mercado. Além de novas tecnologias na exploração, passou a existir demanda para minérios de baixa qualidade, antes considerados restos.

CARRO DO FUTURO

O setor automotivo nacional vai mostrar na conferência que os veículos leves fabricados hoje no Brasil emitem 28 vezes menos poluentes do que na década de 1980.

“Reduzimos impactos ambientais com ações diretas do fabricante e em toda a cadeia produtiva, mas estamos longe de um produto totalmente compatível com a sustentabilidade”, diz Henry Joseph Jr., presidente da Comissão de Energia e Meio Ambiente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Segundo ele, as montadoras têm consciência de que sustentabilidade não é só filosofia e marketing. “É questão de sobrevivência.”

Joseph diz não ter dúvidas de que o carro do futuro terá motor elétrico. “Mas não temos ainda respostas satisfatórias de como a eletricidade será gerada e transportada.”

O engenheiro estima que o veículo híbrido (parte do motor elétrico e outra de combustão) será comercialmente viável em cinco anos.

A etapa seguinte seria o veículo “plug in”, ligado na tomada para carregar. O terceiro estágio é o carro com geração de eletricidade a bordo. “As outras etapas estão ligadas ao sucesso comercial da primeira”, conclui.


CADÊ O CARRO ELÉTRICO?

A Itaipu Binacional mostra na Rio+20 seu 4º protótipo de veículo elétrico: o Marruá, da Agrale. Foram criadas desde 2009 versões elétricas para Iveco Daily, Fiat Palio Weekend e um micro-ônibus, todas sem produção comercial.

SEIS POR MEIA-DÚZIA

Carros elétricos não são a panaceia para o fim da poluição mundial, segundo o físico José Goldemberg. “Se a energia for produzida por queima de carvão, do ponto de vista ambiental é trocar seis por meia-dúzia”, diz. Por mais que os motoristas não vejam a fumaça saindo do escapamento, ela estará sendo produzida na usina.


Indicadores verdes são a próxima meta

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A CNI trabalha com Ministério do Meio Ambiente e associações dos vários setores na criação de indicadores verdes. A ideia é medir avanços em sustentabilidade.

“Precisamos montar um banco de dados para termos um inventário que retrate a realidade”, diz Monica Messenberg, diretora de relações institucionais da CNI.

Os empresários que participarão da prévia da indústria na Rio+20 devem assumir lá o compromisso de criar indicadores confiáveis por setor produtivo. “Só então vamos começar a ter papo de gente grande, podendo mensurar se há ou não avanço em comparação à média internacional”, diz a diretora da CNI.

A conferência é uma oportunidade para assumir compromissos. “A indústria vai fornecer dados e a participar da construção dessas métricas, fundamentais para se estabelecer metas futuras”, afirma Messenberg.

“Por tudo isso, para nós, a Rio+20 já é um sucesso. Se não estivéssemos na eminência da conferência, provavelmente ainda estaríamos tentando aglutinar setores.”

A CNI participa das discussões capitaneadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para definir metodologias aceitas internacionalmente. A entidade que representa a indústria brasileira auxilia a pesquisa mundial Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB, na sigla em inglês).

A estudo foi iniciado pelo grupo G8 e por cinco grandes economias em desenvolvimento. “A TEEB talvez seja o precursor da economia verde propriamente dita, que vai mensurar todas as variáveis ambientais”, diz Messenberg.

Empresas se preparam para conferência

DE SÃO PAULO

Se há duas décadas as empresas eram o problema se o assunto era ambiente, hoje são vistas como parte da solução. Será intensa a movimentação das entidades empresariais na Rio+20.

O Instituto Ethos fará da Rio+20 o tema de sua conferência anual, entre 11 e 13 de junho, em São Paulo. Palestras do economista indiano Pavan Sukhdev e de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, estão confirmadas.

Segundo Paulo Itacarambi, vice-presidente do Ethos, serão discutidos dez temas ligados à Rio+20. No último dia, os participantes vão escolher três propostas para cada tema. “O resultado será um documento ao governo brasileiro”, diz Itacarambi.

Outro grupo que levará contribuições é a coalizão Basd 2012 (Ação das Empresas para o Desenvolvimento Sustentável, na sigla em inglês). Jorge Soto, diretor da Braskem e coordenador do Basd 2012, diz que as empresas querem propor soluções. “Não é propaganda ‘verde’. Há oportunidades de negócios na nova economia.”

O CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), que reúne 72 grupos empresariais, lançará na Rio+20 o documento “Visão 2050: nova agenda para os negócios”, conjunto de diretrizes para energia, mobilidade, gestão e desenvolvimento humano.

“Existem boas práticas de sustentabilidade nas empresas brasileiras, mas precisam agora ganhar escala, envolver toda a cadeia produtiva”, explica Marina Grossi, presidente do CEBDS.

Construção civil precisa puxar a mudança

Empreendimentos imobiliários sustentáveis ainda são só 1% do mercado brasileiro, mas o setor começa a medir e reduzir suas altas emissões de carbono em todas as fases da cadeia

HELOISA MEDEIROS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Construção civil é uma das atividades de maior pegada ecológica. Por isso mesmo, pretende liderar a mudança para a economia verde.

O setor gera um terço da emissão mundial de gases de efeito estufa. Claro, isso porque usa produtos e insumos responsáveis por emissões altas, como cimento e aço.

“O setor é crítico porque é a convergência de muitas atividades com impactos ambientais significativos”, explica Arab Hoballah, chefe de Consumo e Produção Sustentáveis do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).

No Brasil, a siderurgia responde por 35% das emissões de carbono da indústria, enquanto o cimento responde por 19%. Some-se a isso o consumo de diesel no transporte dos materiais até os canteiros de obras.

“A construção tem potencial para liderar as transformações em direção à maior eficiência e à economia verde, capaz de criar muitos empregos”, crê Hoballah.

No Brasil, então, onde empreendimentos sustentáveis representam 1% do mercado, o potencial é enorme -nos Estados Unidos, esse nicho representa 9% do total.

CICLO DE VIDA

O Conselho Brasileiro de Construção Sustentável levará à Rio+20 a proposta de criação de um painel internacional com empresas, governos, academia e ONGs para definir uma ferramenta capaz de agilizar a avaliação do ciclo de vida de produtos e serviços usados no setor.

A ferramenta (Plataforma Global de Avaliação do Ciclo de Vida Simplificado para Construção Sustentável) pretende universalizar dados sobre impactos ambientais de itens usados em obras.

“Isso talvez permita uma competição na cadeia da construção não só baseada em preço, mas em desempenho ambiental em escala planetária”, afirma o engenheiro Vanderley John, professor da Escola Politécnica da USP.

“Precisamos mover indústria e consumidores para a economia verde. E informação é o caminho”, diz. Hoje, a quantidade de informações sobre esse impacto é limitada, e o acesso é caro e difícil.

“Nos países em desenvolvimento, os dados sobre produtos locais são inexistentes. A carência elimina a chance de escolher fornecedores com base em critérios ambientais. A ausência de informação impede que o mercado promova a sustentabilidade”, avalia Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro da Construção Sustentável.

A entidade propõe um sistema público, aberto e gratuito, que gerencie um conjunto mínimo de dados para ajudar nas decisões de compra.

Segundo Takaoka, isso é importante porque a previsão é que áreas urbanas consumam 80% da energia produzida no mundo em 2030.

O processo de construir, em si, é o que menos gera emissões. Grande parte ocorre nas fases de extração de matéria-prima, fabricação de produtos e transporte.

E, depois, na fase de uso, quando os moradores passam a consumir água e energia e a gerar lixo. “O impacto é como as pessoas viverão nesses edifícios durante sua vida útil, de cerca 80 anos.”

Quase tudo o que é feito para melhorar o desempenho ambiental dos edifícios também traz vantagens econômicas para construtoras, empreendedores e moradores -que vão notar no bolso a redução de despesas de condomínio.

Takaoka diz que o dinheiro que será poupado pode financiar a sustentabilidade, tanto em edifícios novos como em usados. Ele dá o exemplo das empresas que fazem retrofit (reforma com modernização) e cobram honorários com base na economia gerada por redução de consumo. “É uma oportunidade para bancos e incorporadoras.”

SOLUÇÕES COMBINADAS

Não dá mais para construir sem considerar a eficiência energética do imóvel, a redução do consumo de água, o uso de materiais reciclados e a minimização dos impactos ambientais durante a obra.

Mas sustentabilidade passa também pela avaliação das vantagens de reabilitar imóveis que já estão aí, lembra Joana Carla Soares Gonçalves, professora do Laboratório de Conforto Ambiental da FAU-USP e autora do capítulo de construção civil e arquitetura do relatório preparatório para a Rio+20 do Pnuma.

“Em países emergentes como o Brasil, a construção de novos edifícios tem peso significativo, por causa da alta demanda habitacional e de edifícios comerciais que acompanham o crescimento da economia”, explica.

No entanto, segundo ela, é preciso considerar o que já foi feito nos últimos 50 anos.

“Já dispomos de um estoque significativo que precisa ser recuperado e reutilizado, a fim de diminuir o impacto ambiental. Esse ponto é bem reforçado no relatório.”

Tudo pode ajudar no caminho em direção a um negócio mais limpo, mas uma análise que integre as soluções e leve em consideração o desempenho de cada produto e insumo usado na edificação ajudará mais ainda, segundo os empresários.

Para ter uma ideia, o orçamento para a construção de um edifício habitacional típico chega a 2.500 itens, empregados em grandes quantidades. A escolha de produtos e processos mais “limpos” faz uma grande diferença.

Embora ainda no início da mudança, as empresas do setor começam a identificar, medir, reduzir ou compensar suas emissões de carbono, muito em razão de exigências cada vez maiores das legislações de proteção no Brasil e no exterior.

E de olho, também, no interesse dos compradores de imóveis por opções verdes: pesquisa feita pelo Ibope e pela Confederação Nacional da Indústria em maio revelou que o percentual de pessoas preocupadas com o ambiente aumentou de 80%, em 2010, para 94%, em 2011.


4º LUGAR

é a posição ocupada pelo Brasil no ranking mundial de empreendimentos registrados para certificação ambiental, abaixo dos EUA, dos Emirados Árabes e da China.

PREVISÃO

Em um cenário de crescimento elevado, a pegada climática do setor de construção civil quase dobrará para 15,6 toneladas de CO2 até 2030, segundo a estimativa do IPCC (o painel de cientistas da Organização das Nações Unidas sobre o clima).

Quem torna o imóvel ‘inteligente’ é o morador

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Projeto e construção são meios para reduzir o impacto ambiental do imóvel. Mas quem faz a diferença, mesmo, é o morador ou usuário.

“Ele é o elemento-chave para que a sustentabilidade se consolide, pois é quem vai usar as soluções implantadas e investir na manutenção”, observa Roberto de Souza, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações, empresa de consultoria ambiental.

Grandes administradoras de condomínios estão atrás de certificação, de forma a reduzir custos para os moradores e implantar operações mais sustentáveis nos edifícios já existentes.

“Em edifícios comerciais isso já é regra. Nos habitacionais, a tendência vai se disseminar. Crianças e jovens questionam os pais sobre o condomínio não ter coleta seletiva e cobram medidas amigas do ambiente”, diz Souza.

A prática de retrofit (reforma para modernizar o imóvel) é um caminho para introduzir sustentabilidade, diz Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, empresa de consultoria especializada.

Entre as tecnologias usadas estão torneiras e descargas econômicas, energia solar e uso de chuva, que reduzem o valor do condomínio e o consumo de água.

A sustentabilidade vem assumindo importância estratégica, para Souza. “Há crescimento acentuado de empreendimentos certificados.”

Os dois principais sistemas de certificação disponíveis no país, o Aqua (Alta Qualidade Ambiental) e o Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), registram incremento.

A Fundação Vanzolini, detentora do Aqua, chegou ao fim de 2011 com 53 empreendimentos certificados. Em 2010, o selo passou a contemplar imóveis habitacionais, certificando 13 edifícios e um condomínio com quatro prédios e 80 casas, que ainda estão em construção.

Marcos Casado, gerente do GBC Brasil, diz que muitos empreendimentos que requisitaram o certificado Leed em 2004 estão ficando prontos agora. “Por isso o número de certificados ainda é baixo, mas os pedidos dispararam. Hoje, temos 500.”


TEMPLO SUSTENTÁVEL

A iluminação natural é aproveitada ao máximo no Centro de Desenvolvimento Espiritual Sukyo Mahikari, inaugurado neste ano na Saúde, em São Paulo. O átrio tem plantas e brises de madeira nas janelas, que reduzem o calor. Certificado com o selo Aqua, o templo tem sistemas para uso de água de chuva e economia de energia. O projeto é do arquiteto Yoshihiro Chida.

HAJA ENERGIA

A construção civil consome 40% da energia produzida no mundo, extrai 30% dos materiais do meio natural, gera 25% de resíduos sólidos e consome 25% da água do globo, segundo a ONU.

Vamos ter comida para 9 bilhões?

Com a degradação dos recursos naturais não se sabe se o cultivo de alimentos acompanhará o crescimento populacional

BRUNA BORGES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que em 2050 o planeta chegue a 9 bilhões de pessoas e que seja necessário um aumento de 70% na produção de alimentos para suprir a população.

O desafio é ampliar a produtividade sem comprometer ainda mais as fontes de recursos naturais. Com as mudanças climáticas, a degradação dos rios e a disponibilidade de terra limitada, porém, não há segurança de que a meta seja alcançada.

Para o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), o que falta para atingir esse objetivo é a boa gestão dos recursos. Segundo a entidade, a produção do alimento é expressiva, mas parte dela é desperdiçada.

No cálculo da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), 25% dos alimentos produzidos mundialmente são perdidos na cadeia produtiva durante a colheita, o armazenamento e a comercialização. A ineficiência da distribuição, concentrada em regiões mais ricas, também contribui para o desperdício e explica por que ainda existe fome no Brasil, país tido como celeiro do mundo.

“Produzimos mais do que necessitamos e, se mantivermos esse padrão de consumo, não alcançaremos a meta estabelecida pela ONU em 2050”, afirma Maurício Lopes, diretor-executivo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

MENOS IMPACTO

A produção está relacionada à disponibilidade e à qualidade da terra. Se as condições de clima, solo e água se degradam, a oferta de alimentos diminui.

Uma das maneiras de evitar a queda de produtividade é resgatar e manter o equilíbrio do ecossistema e aplicar técnicas com menos impactos nocivos ao ambiente.

Essas práticas garantem a melhor fertilização do solo e o aperfeiçoamento da gestão biológica das plantas.

O Brasil é referência mundial em técnicas agrícolas na zona tropical por evitar a degradação do solo e extrair mais produtividade dos recursos disponíveis.

Foi o que aconteceu com a Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), uma propriedade que tinha solo pouco fértil e só dava prejuízo. Com auxilio da Embrapa, técnicas economicamente viáveis e ambientalmente corretas foram aplicadas -hoje a área lucra e é modelo de produtividade no cerrado.

Um método utilizado na agricultura sustentável é integrar floresta, agricultura e pecuária na mesma área e aumentar a produção com a biodiversidade.

O governo estima que seja possível duplicar a produção de grãos e de produtos florestais e triplicar a de pecuária nos próximos 20 anos só com a recuperação de pastagens e a utilização dessa tecnologia.

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) prevê mostrar durante a Rio+20 exemplos de recuperação da terra.

“Teremos um túnel virtual para explicar à sociedade a importância de tirar uma fazenda de um solo fraco e maltratado e a melhora de tudo isso por meio de tecnologia e boas práticas”, afirma a senadora Kátia Abreu, que comanda a entidade ruralista.

AGROTÓXICOS

Luis Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação do Imaflora, ressalta que um dos entraves ao desenvolvimento sustentável no país é a visão atrasada de que agropecuária que desmata e degrada o ambiente produz mais.

Um exemplo disso é o uso indiscriminado de veneno contra as pragas para viabilizar a produção. A agricultura brasileira ainda é bastante dependente de agrotóxicos. Seu uso descuidado pode ser prejudicial à saúde do agricultor e degradar o ambiente, mas, ainda assim, o país é o maior consumidor do mundo desses defensivos.

“Falta investimento e assistência ao produtor. A principal ‘escola’ dos agricultores são os vendedores de agrotóxicos. Precisa haver mais orientação de cultivo sem o interesse econômico envolvido”, afirma Guedes Pinto.

Como alternativa ao uso excessivo de agrotóxicos, há o controle biológico das pragas, como ocorre na Fazenda Nata do Vale, em Serra Negra (SP), onde eles foram substituídos por fungos para evitar a infestação de insetos.

O dono da fazenda, Ricardo Schiavinato, hoje cultiva alimentos orgânicos, mas reclama da falta de incentivos. “Essa produção só se sustenta no médio e longo prazos.”

No Brasil, há cerca de 15 mil produtores de orgânicos. Em 2009, o país cultivava 6,18 milhões de hectares de terra com esse tipo de alimento -a Finlândia é o maior produtor (7,4 milhões de hectares).


70% da água doce consumida no mundo é usada na agricultura, que é responsável ainda por 13% das emissões de gases.

O AVANÇO DOS TRANSGÊNICOS

Em meio à discussão de como produzir mais alimentos, o cultivo de transgênicos cresceu 8% nos 29 países que adotam a tecnologia, segundo o ISAAA (instituto internacional que faz o acompanhamento do setor). O Brasil liderou esse avanço, pelo terceiro ano consecutivo, com uma expansão de 20% em 2011 em relação à produção do ano anterior.

MILAGRE DOS PEIXES

A aquicultura cresceu 260% desde 1992 em todo o mundo. No Brasil, a criação de peixes aumentou 122% entre 2007 e 2011; a pesca de captura subiu 12%.

MAIS CARNE NO PRATO

Em 2050, o consumo de carne deve ser 74% maior do que era em 2000 Ðserão 460 milhões de toneladas ou 50 quilos per capita por ano (hoje são 43 quilos), segundo dados da ONU. No caso de cereais, a expectativa é de um aumento de 43%.

70% da população mundial viverá em grandes centros urbanos em 2050, conforme estimativas das Nações Unidas; atualmente, pouco mais da metade mora em cidades, que já são responsáveis pelo consumo de 75% da energia e por 75% das emissões de carbono.

45% é o quanto aumentou a produção mundial de alimentos desde a Eco-92 -no mesmo período, o crescimento demográfico foi de 26%. A estimativa é que quase 1 bilhão de pessoas ainda passem fome.

É muita água na cerveja

Para cada litro produzido da bebida consome-se até 4 vezes mais água; empresas querem reduzir proporção

VENCESLAU BORLINA FILHO
DO RIO

O uso da água é a maior pedra no sapato da indústrias de bebida. Segundo a ANA (Agência Nacional de Águas), para produzir um litro de bebida, as empresas chegam a usar, em média, até quatro vezes mais água.

A Ambev, maior cervejaria da América Latina, consome atualmente 3,75 litros de água para fazer um litro de cerveja -em 2002, o índice era de 5,36 litros de água.

Para este ano, a meta da empresa é alcançar a proporção de 3,5 litros de água para um litro da bebida.

Já o grupo Petrópolis pretende usar 3,3 litros de água para cada litro de cerveja a ser produzido em 2013. Para isso, prevê investimento de cerca de R$ 5 milhões.

Hoje, a empresa usa 3,96 litros de água para um litro produzido -há dez anos, eram oito litros de água.

Segundo o diretor de relações socioambientais da Ambev, Ricardo Rolim, as melhorias contínuas no processo de produção deverão garantir o alcance da meta. “A redução (250 ml) parece pequena, mas não é”, disse ele. Os investimentos não foram divulgados pela empresa.

De acordo com Rolim, de 2010 para 2011, as 34 fábricas da cervejaria no Brasil deixaram de consumir água suficiente para abastecer por um mês uma cidade com 580 mil habitantes. “Seria suficiente para Florianópolis, por exemplo”, afirmou.

A Coca-Cola reduziu em 23% nos últimos dez anos o volume de água utilizado em seu processo de fabricação. Em 2001, eram 2,54 litros para cada litro de bebida produzido – hoje, é 1,91 litro.

A produção total de cervejas no Brasil no ano passado atingiu 13,3 bilhões de litros -433 milhões a mais que os 12,8 bilhões de litros de 2010.

A ANA, em parceria com instituições da indústria, tem estudado formas de incentivar o uso racional. Uma delas, a cobrança pelo uso da água de rios, já foi instituída em 3 das 9 bacias interestaduais criadas.

A Ambev também tem investido no reuso da água, na reciclagem e na produção de biogás a partir dos resíduos gerados pela produção.

Na fábrica de vidro da companhia no Rio de Janeiro, a reciclagem responde por 65% da produção total. Neste ano, segundo a empresa, a unidade de seleção será ampliada, ao custo de R$ 650 mil.

O produto chega à fábrica por meio da coleta realizada por 12 cooperativas de reciclagem no Estado do Rio. Segundo a empresa, 300 famílias vivem desse trabalho. A intenção é ampliar a cadeia para receber mais material.

Na unidade, o vidro coletado é fundido com outros componentes em um forno que utiliza 30% do biogás gerado na Etei (Estação de Tratamento de Efluentes Industriais) instalada na fábrica de bebidas que fica ao lado.

O sistema -uma miniusina- funciona desde setembro de 2011 e consumiu R$ 1,87 milhão em investimentos.

Até o final deste ano, a cervejaria espera que 47% da energia utilizada na unidade venha do biogás produzido na estação de tratamento.

“Esse investimento foi importante porque impede o lançamento de poluentes e reduz os custos com gás natural”, disse Fernando Teixeira, gerente da fábrica.

Segundo a cervejaria, atualmente 98% dos resíduos do seu processo de produção são reutilizados.

FRASE

“Racionalizar o uso da água significa reduzir custos, além da garantia de obter certificações ambientais e de consumo”

MARCO NEVES
Assessor da Presidência da Agência Nacional de Águas

Raspas e restos me interessam

É bonito dizer que há oportunidades jogadas no lixo, mas o Brasil ainda tem um longo caminho até transformar o grande problema em bom negócio

TONI SCIARRETTA
CLAUDIA ROLLI
DE SÃO PAULO

A gestão do lixo é estratégica na transição da economia marrom à verde, frisa o relatório de referência que a ONU preparou para a Rio+20. É também um ramo de negócios com potencial no Brasil, que só recicla 13% de seus restos e ainda manda a lixões e aterros incorretos um terço do volume diário que gera.

No mundo, negócios do lixo movimentaram em 2011 US$ 108 bilhões. Volume que chegará a US$ 310 bilhões em 2050, com a adoção de novas tecnologias de tratamento do lixo, segundo previsões do Programa das Nações Unidas Para o Meio Ambiente.

Mas para que se desenvolva no Brasil uma cadeia de negócios de resíduos é preciso que a nova lei “pegue”. Nova é modo de dizer: após 19 anos de discussões, a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi promulgada em agosto de 2010. Com ela, o país adotou a tal “logística reversa”, segundo a qual cada um cuida do seu lixo.

É um conjunto de ações para viabilizar a coleta e a devolução à empresa do produto ou da embalagem descartados para que ela reaproveite esse lixo ou dê a ele um outro destino adequado.

Nenhuma novidade para a indústria de agrotóxicos, por exemplo, que recicla 100% do seu descarte por questão de sobrevivência. O setor teve de se organizar, dividir custos e responsabilidades para tirar do campo o lixo tóxico.

Outras indústrias que geram lixo perigoso seguiram a trilha. Agora, empresas acordam para a necessidade de retirar do ambiente rejeitos menos tóxicos, mas não menos poluentes: plásticos, vidros, metais, papéis. E de ganhar dinheiro com isso.

O problema é que o custo da reciclagem não fecha. Na maioria das indústrias, é mais barato usar matéria-prima virgem do que comprar, triar e transportar sucata. Daí os debates sobre a divisão da conta: incentivos do governo, contribuições de todos os elos da cadeia (indústria, atacado, varejo) e aumento de preço ao consumidor.

No Brasil, as dificuldades são maiores porque a coleta seletiva é exceção nas grandes cidades -sem falar no custo logístico de vencer distâncias continentais.

“A estratégia para a reciclagem acontecer é fazer as empresas reconhecerem o valor econômico do resíduo”, diz Flavio Ribeiro, assessor da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, Estado que estuda criar incentivos.

“A cadeia da reciclagem deve substituir a extração de recursos naturais. Temos de passar de experiências isoladas para a política pública.”

CELULARES TRITURADOS

Empreendedores com faro acham no lixo oportunidades para criar produtos de alto valor. Como a Wisewood, uma das maiores consumidoras de sucata plástica do país e pioneira da madeira ecológica. A empresa inventou um composto de plástico reciclado em escala industrial que substitui madeira de deques, vigas e dormentes.

Outra é a GM&C, que recolhe pilhas, celulares e eletroeletrônicos e lucra com a logística reversa. Exporta para o Japão e a Bélgica resíduos triturados (aqui não há recicladoras desse material).

Em 2011, as exportações da GM&C cresceram 20%: foram 15 toneladas de celulares. “Mas no país há 200 mil toneladas [são 200 milhões de aparelhos e cada um pesa 100 gramas], há muito espaço para a reciclagem”, diz o presidente, Marcelo Oliveira. Segundo ele, esses volumes podem crescer se houver incentivo no pagamento de impostos e a empresa puder trabalhar com escalas maiores.

Para estimular a coleta desses produtos, a empresa lançou em parceria com Walmart e Carrefour a campanha “Recicla Mais”. Até dezembro serão instalados mil pontos de coleta nas lojas das redes.

CATADORES UNIDOS

Além de tirar as ideias do papel, o desafio é aliar metas ambientais a sociais. Empresas de reciclagem vão disputar espaços com quem há anos trabalha no setor: catadores e cooperativas.

Exemplo que será apresentado na Rio+20, a Prefeitura de Natal se serviu da nova lei para contratar cooperativas de catadores e se responsabilizar por parte do serviço público de coleta de lixo.

Com know-how para reaproveitar o lixo, os catadores recebem da prefeitura para fazer a coleta seletiva, depois levam os descartes para unidades de triagem antes de seguir mais de 1.000 km até as indústrias de plástico, vidro, alumínio e metais no Sudeste do país. Do material coletado, só papelão ondulado é reciclado no Nordeste.

“O problema são os atravessadores, que prejudicam os catadores de cidades distantes das capitais. Há sucateiros que compram e vendem com lucro de 200%. Por isso, juntamos os catadores. Unidos vendemos direto para a indústria”, disse Severino Lima Jr, presidente do Movimento Nacional dos Catadores de Rua.

Lima começou aos 12 anos no lixão de Natal. Hoje roda o mundo para falar da experiência brasileira. Em abril, deu workshop na Índia para ensinar catadores locais a se organizar e vender sucata.

Para Lucien Belmont, superintendente da Abividro (entidade nacional da indústria de vidro), a experiência dos catadores ajuda, mas o país não poderá depender apenas deles para implementar a coleta seletiva e a reciclagem de rejeitos sólidos.

A Abividro propõe que o país adote agências gerenciadoras de reciclagem, sem fins lucrativos, com a missão de coordenar as iniciativas de logística reversa das cadeias produtivas, como fez a Alemanha nos anos 90.

No caso da cadeia do vidro, a agência negociaria a compra e a venda de recicláveis com prefeituras, cooperativas de catadores, beneficiadoras, fabricantes e envasadoras. “Esse modelo gera inclusão social e renda para catadores e é atraente para a indústria. Para ser viável economicamente, é necessária a adesão de todos”, disse Belmont.

Se as empresas já têm dificuldade logística para levar seus produtos e serviços até a casa do consumidor, terão agora de bolar uma boa engenharia para recolher e reaproveitar seus subprodutos.


5% das emissões de gases de efeito estufa são causadas por decomposição de matéria orgânica em lixões e aterros sanitários, segundo relatório do Pnuma (o programa da ONU para meio ambiente).

62 milhões de toneladas de resíduos foram geradas no Brasil em 2011; o volume cresceu 1,8%, o dobro do crescimento da população no período (0,9%).

12 milhões é o total de empregos ligados à reciclagem apenas em três países: Brasil, China e EUA, segundo a ONU. A separação e o processamento de itens recicláveis sustentam dez vezes mais empregos que aterros sanitários ou incineração

ENTREVISTA MARIA CECILIA L. DOS SANTOS

A arte de fazer nada virar alguma coisa

MARA GAMA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dois dos pilares da transição para a economia verde estão no horizonte da filósofa Maria Cecilia Loschiavo dos Santos: a gestão responsável do lixo e a inclusão social.

Autora de um dos mais importantes estudos de história do design do país -“Móvel Moderno no Brasil” (1995, Edusp)-, ela integra o Centro Multidisciplinar de Estudos em Resíduos Sólidos da Universidade de São Paulo.

Ao estudar o descarte e o reuso do mobiliário no ambiente urbano, ela entendeu que a cadeia da reciclagem no país extrapola o ciclo estritamente ambiental: é fundamental na inclusão social de um contingente de pessoas em situação de miséria nas grandes cidades.

Maria Cecilia considera que a transformação do lixo em matéria, da desvantagem em vantagem, é parte da cultura do design brasileiro. Para ela, a nova política sobre resíduos é a “lei do design”.

Folha – Como a sra. começou a estudar o lixo?

Maria Cecilia Loschiavo dos Santos – Foi pelo mobiliário que cheguei ao amplo tema da sustentabilidade. Após terminar meu trabalho [que resultou no livro citado], em 1993, observei o mobiliário moderno sendo descartado no espaço urbano. Nas casinhas de guardas privados de bairros nobres de São Paulo via um assento de uma cadeira dinamarquesa encima de um caixote de frutas e tentava entender essa recolocação. Passei a prestar atenção nesse material junto das pessoas que viviam nas ruas. E o descarte do mobiliário me levou ao descarte de seres humanos. O que me cabia, diante desse intrigante fenômeno, era compreender o habitat desta população.

Por que a sra. considera que a nova política de resíduos é a “lei do design”?

A política nacional não menciona a palavra design, mas ela trata do projeto, do consumo, do descarte, enfim, dos produtos que o design produz. A nova lei oferece uma oportunidade imensa para o design brasileiro. Em dezembro passado, ao apresentar a obra da Lina Bardi (1914-1992) numa palestra em Nova York, consegui evidenciar que essa filosofia da transformação da desvantagem em vantagem é parte da cultura vernacular brasileira, da cultura material, do nosso design, da capacidade de superação que se manifesta naqueles objetos que a Lina recolheu e que expôs. Isso está também na raiz da mentalidade dos catadores, a sabedoria dessa população que, numa situação de miséria absoluta, transforma nada em alguma coisa.

Como a universidade está contribuindo com esse assunto?

A universidade tem o que há de mais importante, que é a vontade dos alunos, o engajamento nos temas da sustentabilidade. Em 2011, a USP criou o primeiro Centro de Estudos Multidisciplinares em Resíduos Sólidos, que trará propostas e possibilidades tecnológicas na geração de patentes para trabalhar com esses materiais. Estamos compartilhando os resultados do nosso trabalho para criar bancos de dados sobre resíduos no Brasil.

Do ponto de vista político, o que falta?

Já temos massa crítica científica e tecnológica de altíssimo nível. Mas temos que gerar patentes e estabelecer um diálogo com os industriais. No setor farmacêutico, nós quebramos patentes importantes para a saúde da população. Acredito que, no setor dos resíduos, vamos conseguir criar esse diálogo com as decisões industriais, da universidade, da política. Só que, na base disso tudo está o cidadão, com seu comportamento diário. Do ato da compra ao ato do descarte. E, nessa cadeia, a dona de casa tem um papel fundamental.

Qual é melhor forma de tratar os resíduos?

Não há uma resolução única. Quando a gente pensa a reciclagem do resíduo, pensa também em um componente comportamental, psicológico, antropológico, da relação do ser humano com seus bens. É necessário o envolvimento de cada cidadão na valorização do resíduo, no reconhecimento de que ele tem valor econômico. Um outro ponto é a prevenção do resíduo na fonte. Você tem de começar a comprar produtos no supermercado que reduzam o resíduo na fonte.

É factível extinguir os lixões no Brasil até 2014?

O volume de recursos que os resíduos movimentam é muito grande. Há interesses enormes. No Brasil ainda há pessoas em situação de miséria obrigadas a recorrer aos lixões para alimentar suas famílias. A meta “sem lixões em 2014” é uma decisão correta do ponto de vista sanitário, ambiental e da dignidade humana. Vai colocar o Brasil em outro patamar sanitário. Mas não adianta só erradicar os lixões. É preciso que haja investimento em infraestrutura urbana nos mais de 5.000 municípios, para tratamento de seus resíduos.

A incineração deve ser adotada?

É um tema muito polêmico dentro da lei. Em alguns países, por causa do perfil energético, a incineração é necessária, como é o caso da Suécia, porque eles não têm outras fontes de energia. Mas há alternativas a ela. Há filtros, há uma série de tecnologias disponíveis hoje.

Como distinguir um projeto de design sustentável de um não sustentável?

Precisamos nos despojar da visão glamorizada, fetichizada dessas duas palavras. Há parâmetros. Existe a pegada ecológica, a hídrica, a energética. Há cálculos e teoria para isso. Mas tudo tem de estar associado a uma consciência, porque trabalhar com reciclagem e sustentabilidade tem a ver diretamente com uma reciclagem de nós mesmos.


13,1 bilhões de toneladas de lixo devem ser geradas no mundo em 2050, 20% a mais que em 2009.

30 anos é o tempo que o tecido de poliamida (náilon) leva para se decompor. O poliéster precisa de mais de cem anos.

FRASE

“É preciso que as pessoas reconheçam que o resíduo que geram tem valor econômico”

MARIA CECILIA LOSCHIAVO DOS SANTOS
filósofa

Retalho fashion combate importação de trapos

DE SÃO PAULO

O Brasil ainda tem de buscar lá fora o que há de sobra e vai parar no lixo por aqui: retalhos. Em 2011, o país importou 13.477 toneladas de trapos de tecidos, utilizados em indústrias de tecelagem, ao custo de US$ 13,6 milhões.

“O Brasil é o quarto maior produtor mundial de algodão. Não faz o menor sentido [importar retalhos]”, diz Alfredo Emilio Bonduki, presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo. Um projeto que envolve confecções do Bom Retiro, na região central de São Paulo, a prefeitura e catadores quer mudar essa realidade.

Todos os dias ao menos 12 toneladas de restos de tecidos são ensacadas e colocadas nas calçadas do bairro por funcionários e comerciantes das 1.200 confecções que funcionam na área.

Pela lei, só os que produzem acima de 200 litros de lixo diário têm de contratar uma empresa para recolhê-lo. Como a maior parte é de pequenos negócios, são muitos os que descartam o lixo em frente ao seu comércio -e os retalhos vão parar nos aterros sanitários.

O projeto Retalho Fashion, que está em sua primeira etapa de instalação no Bom Retiro, pretende organizar o descarte e a coleta de resíduo têxtil para vendê-lo a indústrias recicladoras.

A sobra de tecido das confecções pode virar pluma e insumo para forração de automóveis e de colchões, fabricação de novos fios, tecidos, tapetes e carpetes, sacolas de supermercado, roupas e fabricação de feltros.

Instalada há 15 anos em Brusque (SC) e hoje uma das principais recicladoras do país, a Benetex compra retalhos de algodão ao custo de R$ 1 a R$ 2 o quilo (as cores mais claras, que necessitam ser tingidas, são menos valorizadas).

No ano passado, a empresa reciclou 33% a mais de retalhos que em 2010.

“Chegamos a comprar 40% de retalhos de países como Índia, Paquistão, Honduras, Portugal, Argentina e Chile. Há dois anos, montamos um centro de compras em São Paulo e hoje importamos cerca de 10%”, diz Márcio Adami, sócio-diretor da empresa.

(CLAUDIA ROLLI E TONI SCIARRETTA)

ENTREVISTA – KENNY BRUNO

Da maquiagem verde ao ‘reino da baboseira’

Para o ativista que globalizou a expressão ‘greenwash’ na Eco-92, a conversa, agora, precisa chegar a novos padrões de produção e consumo -ou a palavra-chave da Rio+20 será ‘bullshit’

CLAUDIO ANGELO
DE BRASÍLIA

O ativista americano Kenny Bruno é um sujeito meio anônimo até mesmo no mundo ambiental. Mas pouca gente ignora hoje a expressão que ele lançou: “greenwash”, ou maquiagem verde.

O conceito foi difundido durante a Eco-92, em um documento feito por ele para o Greenpeace. O relatório denunciava a indústria química por fazer propaganda de ações “verdes” para disfarçar práticas que, na verdade, eram pouco sustentáveis.

A expressão acabou entrando para o dicionário de Oxford em 2000.

Em 2002, durante a conferência de Johannesburgo, Bruno voltou à carga, denunciando parcerias entre empresas com práticas trabalhistas pouco corretas e as Nações Unidas, o que foi chamado de “bluewash” (devido ao azul, cor oficial da ONU).

Hoje trabalhando como consultor, Bruno prepara um novo relatório sobre a relação entre a ONU e empresas, a ser lançado durante a Rio+20. E qual é a expressão, desta vez? “É bullshit’ [baboseira]”, diz ele à Folha, rindo.

Folha – Pode falar sobre esse relatório que o sr. prepara?

Kenny Bruno – Vamos olhar algumas empresas que dizem praticar o desenvolvimento sustentável e ver o que elas estão fazendo de fato. Vamos olhar seis ou sete e fazer estudos de casos. E fazer um histórico do envolvimento corporativo no desenvolvimento sustentável nos últimos anos.

Como surgiu o conceito de “greenwash”?

Surgiu em meados dos anos 1980, quando tivemos vários desastres ambientais: a explosão de Bhopal, a descoberta do aquecimento global, em 1988, e do buraco na camada de ozônio. A indústria, a química em especial, organizou-se em torno de algo chamado “cuidado responsável”. Foi uma reação a Bhopal [leia nota nesta página]. A associação das indústrias químicas tentou juntar todo mundo para assinar esses princípios e tentar evitar regulação e responsabilização legal. Até hoje a Union Carbide e a empresa que a comprou, a Dow, nunca foram punidas pelo que houve em Bophal.

Mas a expressão só nasceu em 1992 ou antes?

Descobrimos mais tarde que outra pessoa havia usado a palavra antes [o americano Jay Westervelt], para se referir a hotéis que não lavavam as toalhas e diziam aos clientes que era para economizar energia. Mas nosso relatório de 1992, que virou livro em 1996, difundiu a palavra.

O que espera da Rio+20?

Algum acordo para não passar vergonha, tipo o que aconteceu [na conferência do clima] em Copenhague. Vinte anos depois, não caminhamos da forma como esperávamos. Espero um acordo sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, algo assim, e as pessoas poderão dizer que fizeram alguma coisa.

Isso é bom?

Boa pergunta. Mas é melhor do que nada, é bom para lembrar aos chefes de Estado que esses assuntos são importantes e as pessoas ligam para eles. Mas os temas que já têm suas próprias convenções, como no caso do clima e da biodiversidade, são mais importantes. Não acredito que a maioria dos cidadãos esteja olhando para esses processos multilaterais em busca de grandes soluções para o problema do desenvolvimento sustentável.

Então essas conferências são mais importantes pelo que acontece em volta delas?

Mesmo em 1992 -e é impressionante, porque foi antes da internet- houve uma explosão de energia na sociedade civil. Vamos ver isso de novo. A energia nas conferências paralelas é muito alta. A diferença, agora, e uma diferença que acho triste, é que em 1992 houve uma conferência paralela dos povos, e os povos fariam tudo o que pudessem pelo desenvolvimento sustentável.

Na cúpula de Johannesburgo, em 2002, isso se transformou: era um protesto lá fora em vez de uma conferência paralela. Em Seattle, na conferência da OMC [Organização Mundial de Comércio], o que houve foi um grande protesto. Em Johannesburgo, a sociedade civil se dividiu em dois grupos: aqueles que achavam que a ONU ainda nos representava e os que achavam que ela tinha ficado parecida com a OMC.

Sobre o desenvolvimento sustentável, o sentimento é o de que as grandes empresas e os grandes países o capturaram e não têm permitido que ele seja um princípio guia. Eles o escantearam.

E o que ficou no lugar?

O livre comércio, o crescimento do setor financeiro, a globalização corporativa. E tudo isso é mais do interesse das grandes empresas e de alguns países. Vimos no que deu a desregulamentação do setor financeiro. Não foi tão ruim para o Brasil, mas foi uma tragédia total para a Grécia, a Irlanda, a Espanha e até mesmo para os Estados Unidos. Esse não é o modelo que vai produzir desenvolvimento, muito menos sustentabilidade.

Há milhares de empresas que concordariam comigo, mas elas não têm lugar na ONU. As que se inseriram no processo, os membros da Câmara Internacional do Comércio, têm conseguido ditar a maneira como a ONU trata as parcerias corporativas.

Em 1992, a palavra era “greenwash”. Em 2002, vocês criaram “bluewash”, para as más práticas sociais das empresas. Qual é a palavra em 2012?

Não sei se você pode escrever, mas a palavra é “bullshit” [baboseira]!

Chegamos ao ponto em que os desafios são tão grandes, 20 anos depois, que ficar tagarelando e discutindo esses parágrafos [do documento base da conferência] é decepcionante.

Temos todos um desafio profundo, que é mudar os padrões de produção e consumo. Não fizemos isso. Os padrões provavelmente são menos sustentáveis agora. Se não arrumarmos um jeito de lidar com isso, ou de ao menos admitir isso, estaremos no reino da “bullshit”.


MEMÓRIA

BHOPAL, UM DIVISOR DE ÁGUAS

Em 3 de dezembro de 1984, cerca de 40 toneladas de gazes letais vazaram da fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, na Índia, poluindo o ar e matando imediatamente 3.000 pessoas. Cerca de 25 mil morreram em consequência do acidente, considerado a pior catástrofe industrial da história. A partir dessa tragédia, empresas passaram a buscar padrões de controle ambiental.

FRASES

“Em 1992, houve uma explosão de energia na sociedade civil, é incrível, porque foi antes da internet. Nós vamos ver isso de novo”

“Nós já vimos no que deu essa desregulamentação do setor financeiro. Esse não é o modelo que vai produzir desenvolvimento, muito menos sustentabilidade”

Falta projeto para manter a floresta em pé

Financiamento internacional de ações de conservação ambiental esbarra em burocracia, despreparo e falta de projetos

DENISE MENCHEN
DO RIO

O fundo criado em 2008 para bancar ações de preservação ambiental na Amazônia vem esbarrando no alto nível de exigências do BNDES, no despreparo de organizações da sociedade civil e na falta de projetos do governo.

Somados, esses fatores dificultam o ganho de escala do Fundo Amazônia, considerado um trunfo brasileiro no esforço para que países desenvolvidos financiem ações de combate ao efeito estufa.

Os recursos doados por governos e empresas são repassados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a projetos de conservação da região e, em menor proporção, de outros biomas.

A criação do mecanismo foi proposta pelo Brasil na conferência do clima de Nairobi, em 2006. Mesmo com a promessa da Noruega de doar US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2 bilhões) até 2015, o fundo tinha até o dia 15 do mês passado apenas 21 contratos firmados, totalizando R$ 259,2 milhões. Os repasses são a fundo perdido, ou seja, sem reembolso ao banco.

Apesar do potencial dos projetos -dois deles ajudaram Alta Floresta (MT) a sair da lista dos principais desmatadores do país-, a avaliação do próprio BNDES é que os desafios de preservação da floresta “exigem a ampliação da escala das operações”. O banco, porém, diz que o desempenho é “exitoso” e que o fundo apresenta os melhores resultados dentre outros instrumentos semelhantes.

Integrante do Comitê Orientador do Fundo Amazônia, Adriana Ramos considera que as exigências do BNDES e a falta de preparo de parte das organizações da sociedade civil acabam restringindo o acesso aos recursos a grandes instituições.

“Há uma dificuldade de apoiar comunidades e organizações locais, que muitas vezes são as que lidam com as situações de maior sensibilidade para a conservação da floresta”, afirma.

Ela também critica o que classifica como falta de protagonismo do governo. Dos 21 projetos aprovados, só um é de um órgão federal, a Universidade Federal do Pará.

Para enfrentar o desmatamento, as iniciativas apoiadas costumam combinar uma série de ações. É o caso, por exemplo, do projeto elaborado pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), que acaba de obter R$ 24,9 milhões do fundo.

Nos próximos cinco anos, a instituição trabalhará em três assentamentos do oeste do Pará para desenvolver um modelo sustentável de desenvolvimento. As ações incluem regularização fundiária, capacitação em técnicas agropecuárias e pagamento por serviços ambientais.

Para Osvaldo Stella, do Ipam, o Fundo Amazônia é importante para permitir o desenho de modelos que poderão ser replicados em outras áreas. Ele diz, porém, que a burocracia dificulta o acesso aos recursos -no caso do Ipam, a aprovação dos R$ 24,9 milhões levou 30 meses.

“O financiamento do nosso projeto passa pelos mesmos trâmites que o da usina de Belo Monte”, compara, citando a hidrelétrica de R$ 25 bilhões que alagará cerca de 500 km no Pará.

DINHEIRO DA NORUEGA

A lentidão na implementação do fundo também tem causado irritação na Noruega, seu principal doador.

Uma fonte do governo norueguês reclamou de ineficiência e pediu mais esforço brasileiro. Segundo essa fonte, o programa Bolsa Verde, uma espécie de braço ambiental do Brasil Sem Miséria, poderia ser financiado pelo Fundo Amazônia.

Em entrevista à Folha, o ministro do Meio Ambiente da Noruega evitou tecer críticas ao fundo. Baard Vegar Solhjell elogiou as iniciativas brasileiras de combate ao desmatamento -“provavelmente o maior esforço de redução de emissões de CO2 do mundo” -, mas reconheceu que “há desafios”.

Para o ministro, a possibilidade de o país alcançar a doação de US$ 1 bilhão prometida é realista, “desde que o Brasil mostre resultados”. Até o momento, a Noruega firmou em contrato que doará R$ 798,9 milhões. Ingressaram de fato no banco R$ 182,3 milhões (21,3% do total).


REDUÇÃO DO DESMATAMENTO

Com exceção de 2008, houve quedas sucessivas na destruição da Amazônia desde 2005. A área desmatada passou de 27.772 km2 em 2004 para 6.238 km2 em 2011 -queda de 77,5%.

Colaborou CLAUDIO ANGELO, de Brasília

FRASE

“Há dificuldade de fazer o recurso aterrissar mais no chão, apoiando as comunidades e as organizações locais”

ADRIANA RAMOS
Representante da sociedade civil no Comitê Orientador do Fundo Amazônia

Xingu aproveita Rio+20 E faz evento contra usina

AGUIRRE TALENTO
DE BELÉM

Ativistas e moradores da região afetada pela hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), preparam um protesto paralelo à Rio+20.

O Xingu+23 -alusão aos 23 anos do 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu- será entre 13 e 17 de junho em uma comunidade de Vitória do Xingu (945 km de Belém).

O primeiro encontro indígena levou à suspensão de um financiamento internacional à obra da hidrelétrica.

O Movimento Xingu Vivo, à frente da organização, espera atrair 400 pessoas.

A comunidade rural de Santo Antônio, em fase de desapropriação, vai ser a sede do protesto.

A empresa Norte Energia, responsável por Belo Monte, informa que 97% dos donos das 252 moradias negociaram a desapropriação.

O Xingu Vivo afirma que as famílias foram “expulsas” com baixas indenizações, mas a empresa diz em nota que “todas as famílias tiveram a opção pelo reassentamento, sendo que a maioria optou pela indenização em dinheiro, espontaneamente”.

OPINIÃO CASSIO LEITE VIEIRA

Questão do clima é vista como um dogma

Às vésperas da Rio+20, talvez a história da ciência e a filosofia possam ensinar algo sobre o planeta e os humanos.

Se uma pesquisa tivesse sido feita no final do século 19 entre os grandes nomes da física, é bem provável que aqueles luminares aceitassem, como realidade incontroversa, a existência do éter (meio com propriedades tanto esquisitas quanto paradoxais que serviria de suporte para a propagação da luz).

Em 1905, Albert Einstein (1879-1955), com sua teoria da relatividade, descartaria essa “propriedade” do espaço. Cerca de 20 anos depois, porém, ainda havia cientista que acreditasse em tal suporte.

Conceitos científicos arraigados são difíceis de matar. O físico alemão Max Planck (1859-1947) dizia que uma verdade científica não triunfa pelo convencimento de seus oponentes, mas, sim, porque estes últimos acabam morrendo, e ela se torna familiar a uma nova geração.

O historiador marxista britânico Eric Hobsbawm põe a ciência como a forma de cultura mais influente do século 20. Para o bem e para o mal.

Ao longo da história, cientistas obtiveram resultados grandiosos -um deles é, sem dúvida, a teoria da relatividade, que permitiu o primeiro modelo cosmológico de base científica. Mas produziram fraudes e pseudociência -esta última quando o cientista crê que aquilo que obteve é verdadeiro.

Ciência está longe de ser pura, imaculada, como às vezes é vendida. Ciência tem muito de marketing.

Quando um novo campo científico nasce (por exemplo, engenharia genética e nanotecnologia), ele traz sua carga de promessas. Nessas horas, cientistas, incensados pela mídia, desfilam futurologias (do bem, obviamente), pois sabem que isso traz visibilidade (e financiamento) para os seus laboratórios ou os seus projetos.

A história da ciência, no entanto, ensina: o cemitério das promessas científicas está cheio de covas profundas e esquecidas -grande parte delas preenchidas com medicamentos e vacinas contra males ainda incuráveis.

RIO+20

Fraudes, pseudociência, aceitação forçada de paradigmas, medo da discordância e do debate franco… todas mazelas criadas em nome do prestígio, da vaidade, de egos exacerbados, da competição, do medo de macular a carreira, da pressa em publicar etc.

Mas o que tudo isso tem a ver com a Rio+20?

Vejamos.

O filósofo alemão Jürgen Habermas diz que um dos traços das democracias modernas é que o público tem que lidar com políticas como “pacotes fechados”, dizendo apenas se é a favor ou contra eles, sem discussões mais aprofundadas.

Se pudermos estender essa característica política às tendências ambientalistas, então o caso emblemático de “pacote fechado” talvez seja a questão do aquecimento global ou das mudanças climáticas -a escolha vai depender dos interesses políticos e econômicos do sujeito, como já revelaram pesquisas.

O leitor acredita em qual pacote? Crê no aquecimento global ou é cético?

A impenetrabilidade de Habermas aponta um caminho perigoso: grandes teorias científicas, por sua complexidade, acabam sendo aceitas como dogma. Ou rejeitadas como um.

Na questão climática, o “sim” (aceitação) preponderou até agora -afinal, é difícil, mesmo para um cientista, levantar a voz contra um documento, o relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que traz a assinatura de mais ou menos 2.500 especialistas com doutorado.

CETICISMO

Mas, agora, parece brotar certo desconforto entre os próprios cientistas. Caso emblemático: 16 deles, todos renomados, publicaram manifesto nas páginas do “The Wall Street Journal” (26.jan.12) com o sugestivo título “Não é preciso se apavorar com o aquecimento global”. Basicamente, dizem que não é necessário tomar medidas drásticas, no curto prazo, contra o aquecimento global, que o gás carbônico não é poluente e que as evidências do fenômeno não podem ser consideradas incontroversas (essas últimas são palavras de um Nobel de Física).

Respostas a esses céticos já são encontradas a granel na internet. Uma delas é a de William D. Nordhaus, professor de economia na Universidade Yale (EUA), “Por que os céticos do clima estão errados” (“New York Review of Books”, 22.fev.12).

A mídia tem culpa na solidificação de paradigmas na ciência. Costuma -pela própria essência do jornalismo sobre ciência- privilegiar resultados e profecias em detrimento de dúvidas e reveses. Ciência, por sinal, nas palavras do filósofo britânico John Gray, é, hoje, o terreno das certezas; as dúvidas, diz ele, ficaram para a religião.

Nos jornais, há crítica de teatro, literatura, cinema, artes, música, gastronomia… E de ciência? Afinal, ela não é uma forma de cultura, a mais influente do século passado, segundo Hobsbawm?

Parte do esclarecimento (certezas e, principalmente, dúvidas) deveria vir dos próprios cientistas. Mas a verdade é que eles são resistentes em falar com um público que mal entende um fenômeno básico do cotidiano e titubeia perante matemática simples. O debate darwinismo versus criacionismo (e também ciência versus esoterismo) corrobora o dito acima.

À beira da Rio+20, o “Manifesto dos 16” foi pancada forte. Mas o que fraquejou pernas e esvaziou pulmões científicos foi a revelação, há poucos anos, de mensagens de um especialista da área em que estava confessa a manipulação de dados pró-aquecimento -é o lado humano (sem aspas) dessa atividade. O vazamento abalou profundamente a crença pública -e a de cientistas- em um conhecimento reunido arduamente nas últimas décadas.

É improvável que 2.500 especialistas estejam errados. Mas vale ter em mente o caso do éter, que abre este texto.

Para finalizar, retome-se Gray, com seu magistral e impressionante “Cachorros de Palha” (Record, 2005). O filósofo defende que o movimento verde sofre, nas origens, do mesmo mal do cristianismo e da própria ciência, a saber: o humanismo, este no sentido de que o homem é superior a outras espécies animais, é senhor de seu destino, pode controlar a tecnologia que cria e acredita na ilusão de progresso -algo que o britânico diz fazer sentido só no âmbito da ciência e não na ética, na política, nas artes, na literatura…

NATUREZA HUMANA

Gray defende que a espécie humana é dominadora e destrutiva. E não adianta tergiversar, diz ele: somos assim, é a nossa natureza humana, algo negado, na política, ao longo da história, pela direita e pela esquerda e que está, para ficar num só exemplo, na raiz de genocídios.

O alento em todo o pessimismo de Gray é que a Terra, como sistema robusto que é, resistirá à infecção por humanos. Mas a um preço: destruição da fauna e da flora.

Seguindo o pessimismo de Gray, é possível que tudo o que foi dito até aqui seja algo de menor importância. “A destruição do mundo natural não é o resultado do capitalismo global, da industrialização, da ‘civilização ocidental’ ou de qualquer falha nas instituições humanas. É consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapinador. Ao longo de toda a história e pré-história, o avanço humano tem coincidido com devastação ecológica”, escreve ele.

Neste momento de Rio+20, a reflexão mais profunda, talvez, não deva ser sobre essa ou aquela política, esse ou aquele dado científico, isso ou aquilo da economia. Mas, sim, sobre quem (realmente) somos, se valemos a pena.

E uma das análises mais profundas sobre essa questão está em “Cachorros de Palha”. Vale ler, mesmo que seja para discordar.


A mídia que cobre ciência privilegia resultados e profecias em detrimento de dúvidas e reveses

A reflexão talvez não deva ser sobre esse ou aquele dado científico, mas sobre quem somos, se valemos a pena

CASSIO LEITE VIEIRA é jornalista do Instituto Ciência Hoje (RJ) e coautor de “A Revolução dos Q-Bits” (Zahar).

SAIBA MAIS

A superioridade do homem na mira

O filósofo britânico John Gray é um crítico da ideia de que a vida humana se torna melhor com o acúmulo de conhecimento e com o progresso, da crença na superioridade do homem sobre os outros animais, do pensamento humanista e do liberalismo econômico. Além de “Cachorros de Palha” (tradução de Maria Lúcia de Oliveira, Record, 256 págs., R$ 39,90), escreveu “Missa Negra” e “Al Qaeda e o Que Significa Ser Moderno” (todos da Record).

Autor: astangl

http://twitter.com/astangl

2 comentários em “ECO 92 X RIO+20”

  1. ‎..é pavao no telhado e camaleao visitando as areias da praia, como nao querer um mundo assim, natural e civilizado.
    Há modelos de habita]ao sustentavél, mas implementa;lo em lugares que sao dependentes de uma economida suja, vai depender de muitos bons operadores do Bem Verde.
    V.I.F

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